Amigas de temperamentos opostos,
Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson) desembarcam
em Barcelona para uma temporada de crescimento pessoal. Vicky,
a organizada, tem um noivo yuppie em Nova York e planejou
que seu engrandecimento será apenas acadêmico,
com uma pesquisa sobre a cultura catalã. Cristina,
a topa-tudo, quer, sei lá, se conhecer melhor e descobrir
qual seu verdadeiro talento, se ele existir. De uma exposição
de arte, elas partem para uma aventura. Na galeria está
o pintor Juan Antonio (Javier Bardem), conhecido pelo divórcio
rumoroso: sua ex-mulher, a também artista Maria Elena
(Penélope Cruz), cravou-lhe uma faca nas costas, e
durante algumas semanas os dois foram o assunto da cidade.
Tirando todo o proveito de seus olhos de alcova, Bardem aborda
as amigas em uma cena deliciosa, na qual propõe que
elas o acompanhem em um fim de semana de cultura, gastronomia
e sexo. Vicky fica indignada. "Desculpe, apenas fiz minha
melhor oferta", retruca o pintor. Como Cristina aceita
a oferta, que de fato não parece nada má, Vicky
vai junto para zelar por ela. A certa altura, porém,
as coisas sairão um pouco do programa. E esse é
o eixo de Vicky Cristina Barcelona (Espanha/
Estados Unidos, 2008), o novo e excelente filme de Woody Allen,
que estréia nesta sexta-feira no país: as coisas
quaisquer que sejam elas sempre hão de
sair do programa. Ainda bem, porque em geral as pessoas tendem
a ser péssimas autoras de seus próprios roteiros.
Depois de três filmes rodados
na Inglaterra, Allen aproveita o novo ambiente para brincar
um pouco de Pedro Almodóvar. E não só pela
ótima participação de Bardem e Penélope,
ambos em grande forma cômica: desde Hannah e Suas Irmãs,
de 1986, ele não prestava tanta atenção
às suas personagens femininas, nem fazia um filme seguir
tão de perto a coreografia do desejo. Só que os
romances aqui não transpiram nenhuma paixão, porque
são um mero emblema do imprevisto. Tanto Vicky quanto
Cristina serão tocadas pelo imponderável, representado
por Juan Antonio. Uma aproveitará o impulso para se lançar
numa nova trajetória; a outra vai descrever um círculo
e voltar ao mesmo ponto mas mais triste e insatisfeita,
porque agora sabe que a vida pode conter outras coisas, e que
lhe falta a coragem para abraçá-las. Trata-se,
enfim, quase de um jogo de salão, em que cada espectador
deve decidir, ao final, se é mais Vicky ou mais Cristina,
e se isso lhe convém realmente ou não. O diretor,
de sua parte, sabe bem de que lado está. Aos 72 anos,
ele parece aqui olhar para trás e concluir que os acertos
têm um talento danado para se travestir de erros, e os
erros, de acertos. Quem não se arriscar poderá
até viver mas não verá.