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Edição 2086

12 de novembro de 2008
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Vida após a bomba

Um bem produzido documentário brasileiro mostra como
a vida renasceu com exuberância nos mares do Atol de Bikini,
palco de testes nucleares americanos nos anos 40 e 50


Marcelo Marthe

Fotos Bettmann/Corbis/LatinStock e divulgação
TERRA ARRASADA
Explosão atômica em Bikini nos tempos da Guerra Fria (no alto) e seus corais nos dias de hoje (acima): do inferno ao paraíso

Entre 1946 e 1958, as 23 ilhas paradisíacas que compõem o Atol de Bikini, no Oceano Pacífico, foram submetidas a uma escalada de destruição. Nesse período, os Estados Unidos realizaram 66 testes nucleares no local. Depois das detonações, a barreira de corais que cerca as ilhas ficou arrasada. Por quatro décadas, os níveis de radiação impediram a presença do homem na região. Em 1996, quando o atol foi declarado seguro, o brasileiro Lawrence Wahba tornou-se o primeiro naturalista a receber autorização para filmar em suas águas azul-turquesa. Dois anos atrás, ele retornou às ilhas para conferir as mudanças desde sua primeira passagem por lá. O resultado é o documentário De Volta a Bikini, que estréia no domingo 9, às 21 horas, no canal National Geographic. Suas imagens dão testemunho da capacidade de regeneração da natureza. Em seus mergulhos, Wahba registrou o renascimento da vida até na cratera de 1,5 quilômetro de largura produzida no fundo do mar pela Bravo – a bomba mais poderosa já detonada pelos Estados Unidos, com potência 1 000 vezes superior à daquela lançada sobre Hiroshima. Sobre a superfície deixada pela explosão (que varreu três ilhotas do mapa), um coral começa a se formar.

No contexto da Guerra Fria, que opunha os Estados Unidos à então União Soviética, a explosão esporádica de bombas atômicas não tinha apenas a função de avaliar novos artefatos. Servia também – e sobretudo – para lembrar ao adversário quão poderosos eram os músculos da parte contrária. A nota curiosa dos testes americanos no atol é que, quatro dias após a primeira detonação, o francês Louis Réard batizou com o nome do lugar o modelo de praia feminino que havia criado – e assim nasceu o biquíni (o nome, na língua nativa, significa "gente plantando coco"). Um estouro.

As circunstâncias geográficas favoreceram a escolha desse paraíso no Pacífico. Por estar longe das rotas de navegação, ele não ofereceria riscos a populações humanas (o que se revelou um erro de cálculo: uma nuvem radioativa atingiu ilhas habitadas). Além disso, era ideal para a investigação dos efeitos de explosões nucleares em batalhas navais. Setenta navios e submarinos obsoletos foram afundados com esse fim. E foi graças a eles que a vida renasceu de forma tão exuberante em Bikini. Cobertas de algas e corais, suas carcaças aceleraram o repovoamento da região por peixes, moluscos e crustáceos. Em torno do casco de embarcações como o porta-aviões USS Saratoga e o encouraçado japonês Nagato (este, um troféu da II Guerra: foi a nau de comando da invasão a Pearl Harbor), hoje vivem garoupas e tubarões.

O mar de Bikini é considerado livre de radiação. Mas o problema persiste em terra: os cocos e demais frutos não podem ser ingeridos, porque são contaminados por césio 137. Wahba aborda a situação inusitada dos 4 000 descendentes dos 167 aborígines que habitavam o atol antes dos testes. Seis décadas depois, eles continuam no exílio em ilhas próximas. Sobrevivem das compensações do governo americano. São fundos que somam mais de 170 milhões de dólares – dos quais eles só podem utilizar a remuneração dos juros. Com a crise nas bolsas mundiais, o pessoal de Bikini está numa pindaíba ainda maior. A empresa aérea que voava para o atol faliu. E a sua única atividade econômica – uma pousada para turismo de mergulho – está ameaçada.



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