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Edição 2086

12 de novembro de 2008
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Especial
O mais duro dos
testes: a realidade

Promessa de campanha não costuma sobreviver
à vida real. Isso vale para todo político. Mas,
devido à crise, vale ainda mais para Obama


Jaime Klintowitz

Todd Heisler/Polaris Images

LUTO NACIONAL
O retorno de soldados mortos no Iraque: Obama promete trazê-los para casa, vivos, em dezesseis meses

Barack Obama venceu as eleições e o Partido Democrata controlará com folga as duas Casas do Congresso. O que ele fará com todo esse cacife político? Em tese, vai pôr em prática as idéias alardeadas durante a campanha. Na vida real, a resposta é bem mais complicada. Desde Franklin Roosevelt, que assumiu durante a Grande Depressão, nos anos 30, nenhum presidente foi eleito em cenário mais sombrio. Não há no horizonte nem paz nem prosperidade. O país está atordoado com a crise financeira e desliza a passos largos para uma recessão que promete ser profunda. Não bastasse, está atolado em duas guerras difíceis de vencer. Nos próximos meses, a crise econômica deve consumir a maior parte do tempo e do capital político de Obama. De imediato, sem direito ao período de lua-de-mel normalmente desfrutado pelo presidente recém-empossado, suas promessas de campanha serão submetidas ao mais duro dos testes, o da realidade.

O primeiro desafio será explicar aos americanos uma verdade inconveniente, deixada de fora dos palanques, mas que agora não pode mais ser evitada: a de que o país precisa de um ajuste para recolocar a economia nos eixos e que o custo dessa arrumação será pago por todos, negros e brancos. Em entrevista a VEJA, Gary S. Becker, da Universidade de Chicago e Nobel de Economia de 1992, traçou o cenário em que o governo de Obama cai na real: "Já estamos em recessão. Com ela vêm o desemprego e a queda nos rendimentos do americano médio. Isso já é um custo a ser pago pela população. Para superar a crise, aprofundaremos o déficit público, teremos um mercado financeiro mais regulamentado, o mercado imobiliário ficará mais restritivo, tornando mais difícil para as famílias adquirir uma casa. Em resumo, o custo para o americano médio torna a aumentar".

Não é nada disso que o cidadão deseja. Ele espera que o governo amenize a recessão de forma que possa continuar a consumir, comprar um carro, uma casa, expandir seu pequeno negócio. Quando um governo coloca a mão pesada na economia – como fez Roosevelt na época do New Deal – e a população não vê a medida transformar-se em dinheiro no bolso, sua popularidade desaba. O presidente eleito prometeu "distribuir a riqueza" dentro dos Estados Unidos e contava fazê-lo com um aumento no imposto de renda dos mais ricos. A redução concedida por George W. Bush expira em 2010, e seria suficiente não renová-la. Ainda pode fazer isso, mas aumentar impostos não é remédio recomendável numa economia fragilizada. Foi o que o presidente Herbert Hoover e o Congresso fizeram depois do crash da bolsa de 1929, precipitando a Grande Depressão.

O prognóstico é nebuloso para cada item que Obama prometeu revolucionar, como a ampliação da assistência médica. "As propostas feitas durante a campanha custam dinheiro, e Obama não poderá financiar todas elas enquanto a crise perdurar", disse a VEJA Stephen Wayne, da Universidade Georgetown, em Washington. "Ele terá de escolher prioridades e fatalmente acabará frustrando muita gente."

Até a equipe de Obama acha que chegou o momento de frear o entusiasmo – sob o risco de desilusão generalizada. "É importante que todos entendam que nada vai acontecer da noite para o dia. É preciso ter uma expectativa realista do que pode acontecer e com que velocidade", adverte Robert Gibbs, assessor graduado do presidente eleito. A prisão de Guantánamo, por exemplo. Obama diz que vai fechar – e faz muito bem. Mas isso depende de encontrar um destino para os mais de 200 prisioneiros que estão por lá. É possível que alguns sejam inocentes, mas uma parte é de terroristas da pesada. Ninguém de boa-fé os quer soltos por aí.

E as duas guerras? O Iraque custou a vida de 4 000 americanos e suga 12 bilhões de dólares mensais dos cofres dos Estados Unidos. Obama propôs retirar a soldadesca em dezesseis meses. Isso depende, evidentemente, de combinar com o outro lado. O presidente pretende enviar as tropas que saírem dali para o Afeganistão. Portanto, uma guerra depende da outra e ambas dependem do tamanho da recessão. Assim são as promessas de campanha. Raras sobrevivem ao teste da realidade.



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