Edição 1828 . 12 de novembro de 2003

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Fascínio e terror
dos motoboys

Eles ajudam, assustam, confundem –
e, junto com as pizzas e
os pacotes,
trazem uma mensagem
da periferia

O mérito maior do filme Motoboys Vida Loca (direção de Caíto Ortiz, roteiro de Giuliano Cedroni), eleito pelos espectadores o melhor documentário da recente Mostra de Cinema de São Paulo, está na própria escolha do tema. É óbvio que os motoboys são um dos fenômenos urbanos mais significativos dos últimos anos na cidade de São Paulo. É óbvio que o surgimento deles e sua incontrolável multiplicação mexem com muitas coisas – hábitos, medos, fantasias. Tudo tão óbvio, tão na nossa cara, tão cheio de significados... Como é que ninguém se lembrou de fazer um filme antes? A resposta é que o óbvio é tão difícil de ser achado quanto os óculos, quando estão sobre nosso próprio nariz e insistimos em procurá-los. O óbvio se finge de banal e disfarça suas riquezas – até que alguém mais esperto mergulha nelas e as traz à tona. Motoboys Vida Loca cumpre esse papel: expõe, dimensiona, dramatiza e esfrega no rosto do espectador um fenômeno que todos os habitantes de São Paulo vêem, mas poucos enxergam em suas múltiplas implicações.

Motoboys, esses profissionais curiosos já a partir do nome – criação desse pujante idioma que é o inglês inventado no Brasil –, não são exclusividade de São Paulo. Existem em outras cidades do Brasil e do mundo. Mas em nenhum lugar alcançaram a expressão que têm em São Paulo. Segundo o filme, eles seriam entre 170.000 e 300.000 na cidade. Pi, pi, pi, pi, vão fazendo, com suas buzinas, e abrindo passagem entre os carros como Moisés entre as ondas do Mar Vermelho. O "pi, pi, pi" quer dizer "sai da minha frente, está me atrapalhando", traduz uma motorista no filme. "É uma agressão", conclui ela. "Falcão Negro", um dos motoboys que aparecem na tela, gosta da profissão por causa das descargas de adrenalina que proporciona. "Neguinho te fecha, você estoura o retrovisor, dá um socão no capô." Falcão Negro e os companheiros vão a 60, 80 por hora onde os carros não conseguem avançar a 10. Em momentos de trânsito intenso, eles atravessam os 2,8 quilômetros da Avenida Paulista em oito minutos, informa o filme, enquanto os carros demoram meia hora.

Os motoboys constituem sinal ruidoso da transformação de São Paulo num centro principalmente de serviços. Também são expressão da civilização da urgência em que estamos todos metidos. Eles fazem parte do mesmo pacote do imediato, do "ao vivo", do "on-line". Preenchem os claros que o computador deixa, cumprindo a tarefa, impossível (por enquanto) pela internet, de levar de um lado a outro a mercadoria, em sua bruta concretude. Motoboys refletem também a falência do sistema de transporte na metrópole, por um lado, e o desemprego, por outro. Nesse sentido são parentes dos perueiros, os donos de vans que surgiram nas brechas do transporte público de massa, mas há uma diferença importante. Com suas roupas de couro, os capacetes e o poder que representa estar sentado nesse bicho barulhento, ágil, veloz e ameaçador que é uma moto, eles se constituem em personagens de boa cotação, na estética da periferia. Os motoboys têm algo a ver com as gangues, com o rap e com as danças que compõem a cultura dos jovens pobres. No seu trança-trança pela cidade, é uma mensagem da periferia que carregam, junto com os documentos ou as pizzas. E o pior, para o orgulho dos que estão instalados no conforto de seus automóveis, é que é uma mensagem vencedora. No sufoco do trânsito, eles avançam mais e chegam antes. Eis um motivo para ter raiva deles, além da ameaça aterrorizante que representam contra os espelhos retrovisores.

O filme mostra imagens de filas intermináveis de motoboys a avançar como formações militares pelas avenidas. Mal comparando (ou talvez bem comparando), são como os helicópteros do filme Apocalyse Now, sobrevoando os céus do Vietnã ao som da Cavalgada das Valquírias e espalhando promessas de ímpeto e fúria. E no entanto, como no do desafinado, no peito do motoboy também bate um coração. É o que o filme mostra quando os individualiza e expõe seus pequenos dramas. Há o motoboy que acorda entre 3 e 4 da manhã para recolher os jornais que distribuirá até as 7 e meia, depois se dirige ao escritório e lá cumprirá jornada até 8 ou 9 da noite. Há o outro que trabalha o dia inteiro no escritório e à noite entrega pizzas, recebendo nesse serviço 15 reais de diária mais 1 real por pizza entregue. Alguns são divertidos, outros trágicos. Um menino aspirante a motoboy expõe a teoria de que alguém numa moto, mesmo feio, faz "as mina pirar". Em contrapartida, alguém a pé, mesmo bonito, não está com nada junto às minas. "De moto, de qualquer jeito arruma mulher", conclui o mesmo personagem. "Pessoal fala que é doidão, doideira. Mas o doideira é considerado." De resto, para quem acha que motoboy é um agente do caos, que traz intranqüilidade ao trânsito e desrespeita as precedências sociais, sobra a observação do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, uma das personalidades que depõem no filme: "Quem falou que há necessidade de pizza rápido, documento rápido?".

 
 
 
 
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