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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Fascínio
e terror
dos motoboys
Eles
ajudam, assustam,
confundem
e, junto com as pizzas e os
pacotes,
trazem uma mensagem da
periferia
O mérito maior do filme Motoboys Vida Loca
(direção de Caíto Ortiz, roteiro de Giuliano
Cedroni), eleito pelos espectadores o melhor documentário
da recente Mostra de Cinema de São Paulo, está na
própria escolha do tema. É óbvio que os motoboys
são um dos fenômenos urbanos mais significativos dos
últimos anos na cidade de São Paulo. É óbvio
que o surgimento deles e sua incontrolável multiplicação
mexem com muitas coisas hábitos, medos, fantasias.
Tudo tão óbvio, tão na nossa cara, tão
cheio de significados... Como é que ninguém se lembrou
de fazer um filme antes? A resposta é que o óbvio
é tão difícil de ser achado quanto os óculos,
quando estão sobre nosso próprio nariz e insistimos
em procurá-los. O óbvio se finge de banal e disfarça
suas riquezas até que alguém mais esperto mergulha
nelas e as traz à tona. Motoboys Vida Loca
cumpre esse papel: expõe, dimensiona, dramatiza e esfrega
no rosto do espectador um fenômeno que todos os habitantes
de São Paulo vêem, mas poucos enxergam em suas múltiplas
implicações.
Motoboys, esses profissionais curiosos já a partir do nome
criação desse pujante idioma que é o
inglês inventado no Brasil , não são exclusividade
de São Paulo. Existem em outras cidades do Brasil e do mundo.
Mas em nenhum lugar alcançaram a expressão que têm
em São Paulo. Segundo o filme, eles seriam entre 170.000
e 300.000 na cidade. Pi, pi, pi, pi, vão fazendo, com suas
buzinas, e abrindo passagem entre os carros como Moisés entre
as ondas do Mar Vermelho. O "pi, pi, pi" quer dizer "sai da minha
frente, está me atrapalhando", traduz uma motorista no filme.
"É uma agressão", conclui ela. "Falcão Negro",
um dos motoboys que aparecem na tela, gosta da profissão
por causa das descargas de adrenalina que proporciona. "Neguinho
te fecha, você estoura o retrovisor, dá um socão
no capô." Falcão Negro e os companheiros vão
a 60, 80 por hora onde os carros não conseguem avançar
a 10. Em momentos de trânsito intenso, eles atravessam os
2,8 quilômetros da Avenida Paulista em oito minutos, informa
o filme, enquanto os carros demoram meia hora.
Os motoboys constituem sinal ruidoso da transformação
de São Paulo num centro principalmente de serviços.
Também são expressão da civilização
da urgência em que estamos todos metidos. Eles fazem parte
do mesmo pacote do imediato, do "ao vivo", do "on-line". Preenchem
os claros que o computador deixa, cumprindo a tarefa, impossível
(por enquanto) pela internet, de levar de um lado a outro a mercadoria,
em sua bruta concretude. Motoboys refletem também a falência
do sistema de transporte na metrópole, por um lado, e o desemprego,
por outro. Nesse sentido são parentes dos perueiros, os donos
de vans que surgiram nas brechas do transporte público de
massa, mas há uma diferença importante. Com suas roupas
de couro, os capacetes e o poder que representa estar sentado nesse
bicho barulhento, ágil, veloz e ameaçador que é
uma moto, eles se constituem em personagens de boa cotação,
na estética da periferia. Os motoboys têm algo a ver
com as gangues, com o rap e com as danças que compõem
a cultura dos jovens pobres. No seu trança-trança
pela cidade, é uma mensagem da periferia que carregam, junto
com os documentos ou as pizzas. E o pior, para o orgulho dos que
estão instalados no conforto de seus automóveis, é
que é uma mensagem vencedora. No sufoco do trânsito,
eles avançam mais e chegam antes. Eis um motivo para ter
raiva deles, além da ameaça aterrorizante que representam
contra os espelhos retrovisores.
O filme mostra imagens de filas intermináveis de motoboys
a avançar como formações militares pelas avenidas.
Mal comparando (ou talvez bem comparando), são como os helicópteros
do filme Apocalyse Now, sobrevoando os céus do Vietnã
ao som da Cavalgada das Valquírias e espalhando promessas
de ímpeto e fúria. E no entanto, como no do desafinado,
no peito do motoboy também bate um coração.
É o que o filme mostra quando os individualiza e expõe
seus pequenos dramas. Há o motoboy que acorda entre 3 e 4
da manhã para recolher os jornais que distribuirá
até as 7 e meia, depois se dirige ao escritório e
lá cumprirá jornada até 8 ou 9 da noite. Há
o outro que trabalha o dia inteiro no escritório e à
noite entrega pizzas, recebendo nesse serviço 15 reais de
diária mais 1 real por pizza entregue. Alguns são
divertidos, outros trágicos. Um menino aspirante a motoboy
expõe a teoria de que alguém numa moto, mesmo feio,
faz "as mina pirar". Em contrapartida, alguém a pé,
mesmo bonito, não está com nada junto às minas.
"De moto, de qualquer jeito arruma mulher", conclui o mesmo personagem.
"Pessoal fala que é doidão, doideira. Mas o doideira
é considerado." De resto, para quem acha que motoboy é
um agente do caos, que traz intranqüilidade ao trânsito
e desrespeita as precedências sociais, sobra a observação
do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, uma das personalidades que depõem
no filme: "Quem falou que há necessidade de pizza rápido,
documento rápido?".
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