Edição 1828 . 12 de novembro de 2003

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Música
Rolling Stones S/A

Não há dúvida: Mick Jagger e seus colegas
de banda são uma máquina de fazer dinheiro


Sérgio Martins

Ouça Rolling Stones

Em 1965, os Rolling Stones venderam 1 milhão de cópias do single (I Can't Get No) Satisfaction. Sem traquejo nos negócios, contudo, eles não viam o sucesso refletir-se em sua conta bancária. Assim, quando uma repórter perguntou a Mick Jagger se ele não era mesmo uma pessoa satisfeita, o cantor respondeu da seguinte forma: "Estou satisfeito sexualmente, à procura de satisfação existencial, e muito insatisfeito do ponto de vista econômico". Se Jagger continua feliz na cama, e se já encontrou uma filosofia de vida a seu contento, não se sabe. Mas uma coisa é certa: suas finanças e as de seus colegas estão para lá de arrumadas. Os Stones são os roqueiros mais endinheirados do planeta. Artistas como Paul McCartney e U2 podem até faturar mais que eles neste ou naquele ano, mas não irão batê-los no conjunto. Calcula-se que, desde 1989, os Stones faturaram mais de 1,6 bilhão de dólares com negócios que vão das turnês e vendas de discos até os acordos de publicidade. Quase tudo o que eles fazem envolve uma grande tacada comercial. Nesta semana, por exemplo, lançam mundialmente o DVD Four Flicks (que deve chegar ao Brasil em 24 de novembro). Para isso, fizeram um acordo inédito com a rede de lojas americana Best Buy. Até fevereiro de 2004, a empresa terá o direito exclusivo de vender o DVD nos Estados Unidos e no Canadá. A estimativa é que, no fim desse prazo, 4 milhões de cópias terão saído das prateleiras.

Mais do que uma banda, a marca Rolling Stones é um conglomerado de empresas com nomes como Promopub, Promotone e Musidor. Para gerir esses negócios, eles contam com a ajuda de um gênio das finanças – um príncipe europeu chamado Rupert Zu Loewenstein. "Estou com eles há trinta anos e, se possível, ficarei mais trinta", disse ele, no ano passado, à revista Fortune – que destrinchou num longo artigo os negócios dos Stones. Quando o assunto é dinheiro, o grupo não tem pudores. Por exemplo: desde os anos 70, quando o Fisco inglês quis morder boa parte de seus rendimentos, eles têm sua base de operações comerciais na Holanda. Os Stones ensaiam no Canadá, porque os impostos são menores que nos Estados Unidos. Pela mesma razão, Keith Richards mora em Connecticut – e não em Londres ou Nova York. Os lucros são divididos de maneira escalonada. Jagger e Richards ganham mais porque são autores de quase todas as canções do grupo. Em seguida vem Charlie Watts, um dos fundadores da banda e responsável pelos figurinos de turnê. O que sobra fica com o guitarrista Ron Wood – que só em 1995 foi alçado da categoria de músico convidado para a de integrante oficial dos Rolling Stones.

Há quem diga que os Stones são decadentes. De fato, eles não lançam um grande disco desde 1981. Mas é absurdo pensar que uma banda que emplacou três shows entre os maiores dos anos 90, e cuja turnê atual, Licks Tour, tem um faturamento previsto de 100 milhões, esteja em queda. O fato é que os Stones ainda têm o domínio do palco. Mick Jagger mantém o carisma e rebola com a mesma empolgação de quarenta anos atrás, enquanto Keith Richards encarna a figura do herói da guitarra com perfeição. "Não imagino minha vida sem estar no palco. Quando estou em férias, acordo às 3 da manhã pensando que está na hora do show", disse ele a VEJA na semana retrasada, durante o lançamento de Four Licks. A bilheteria dos shows tem sido a principal fonte de renda dos Stones. Mais uma vez, eles contam com um parceiro de peso por trás das turnês. Trata-se do empresário Michael Cohl, que transformou os espetáculos em mega-produções. Cohl deu ainda a idéia de comercializar traquitanas relacionadas à banda, como roupas e álbuns de fotos. Entre os cinqüenta produtos que atualmente carregam a marca Rolling Stones, encontra-se uma linha de cuecas.

Quando os shows acabarem, os Stones ainda terão uma bela fonte de renda. Eles são donos de todos os discos gravados a partir de 1971. Basta receber uma oferta atrativa pelo lote que os Stones trocam de gravadora num instante. A Virgin, atual detentora do catálogo, pagou 34 milhões de dólares em 1991 pelo lote. E até hoje não mostra sinais de arrependimento. Além disso, poucas bandas possuem um repertório tão vasto quanto o deles – e tão recheado de músicas que são consideradas clássicos. É como disse a cantora Sheryl Crow: "A coisa mais complicada de estar no ramo do rock é que, não importa o quão boa seja a sua canção, ela sempre parecerá um rascunho de uma música dos Rolling Stones".

 
Um DVD que é um programão

Four Flicks, o novo DVD quádruplo dos Rolling Stones, é um programão. Ele traz shows gravados pela banda ao longo de 2002 e 2003 em Londres, Paris e Nova York, além de dois documentários: Tip of the Tongue, sobre os preparativos da turnê, e Licks Around the World, com trechos das apresentações do quarteto no Japão – onde Jagger se comunica com o público em japonês – e na Índia, onde eles pisaram pela primeira vez para fazer um show em abril deste ano. Se a força criativa dos Stones se perdeu após Tattoo You, de 1981, sua energia se mantém intacta nas apresentações ao vivo.

O DVD traz como curiosidade alguns efeitos especiais. Pode-se ver os shows dos bastidores, por exemplo. Mas o melhor é o recurso Select a Stone, que dá a chance de assistir às apresentações de Nova York e Paris com a câmera focalizada em um único músico. Mick Jagger já não tem a voz de trinta anos atrás, mas ainda possui o dom raro de entrar em sintonia com qualquer platéia. E Keith Richards continua sendo um guitarrista genial. "Eu nunca toco do jeito que gostaria, mas toco da melhor maneira que posso", costuma dizer ele, com modéstia fingida.

 
 
 
 
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