|
|
Música
Rolling
Stones S/A
Não há dúvida: Mick Jagger
e seus colegas
de banda são uma máquina de fazer dinheiro

Sérgio
Martins
Em
1965, os Rolling Stones venderam 1 milhão de cópias
do single (I Can't Get No) Satisfaction. Sem traquejo nos
negócios, contudo, eles não viam o sucesso refletir-se
em sua conta bancária. Assim, quando uma repórter
perguntou a Mick Jagger se ele não era mesmo uma pessoa satisfeita,
o cantor respondeu da seguinte forma: "Estou satisfeito sexualmente,
à procura de satisfação existencial, e muito
insatisfeito do ponto de vista econômico". Se Jagger continua
feliz na cama, e se já encontrou uma filosofia de vida a
seu contento, não se sabe. Mas uma coisa é certa:
suas finanças e as de seus colegas estão para lá
de arrumadas. Os Stones são os roqueiros mais endinheirados
do planeta. Artistas como Paul McCartney e U2 podem até faturar
mais que eles neste ou naquele ano, mas não irão batê-los
no conjunto. Calcula-se que, desde 1989, os Stones faturaram mais
de 1,6 bilhão de dólares com negócios que vão
das turnês e vendas de discos até os acordos de publicidade.
Quase tudo o que eles fazem envolve uma grande tacada comercial.
Nesta semana, por exemplo, lançam mundialmente o DVD Four
Flicks (que deve chegar ao Brasil em 24 de novembro). Para isso,
fizeram um acordo inédito com a rede de lojas americana Best
Buy. Até fevereiro de 2004, a empresa terá o direito
exclusivo de vender o DVD nos Estados Unidos e no Canadá.
A estimativa é que, no fim desse prazo, 4 milhões
de cópias terão saído das prateleiras.
Mais
do que uma banda, a marca Rolling Stones é um conglomerado
de empresas com nomes como Promopub, Promotone e Musidor. Para gerir
esses negócios, eles contam com a ajuda de um gênio
das finanças um príncipe europeu chamado Rupert
Zu Loewenstein. "Estou com eles há trinta anos e, se possível,
ficarei mais trinta", disse ele, no ano passado, à revista
Fortune que destrinchou num longo artigo os negócios
dos Stones. Quando o assunto é dinheiro, o grupo não
tem pudores. Por exemplo: desde os anos 70, quando o Fisco inglês
quis morder boa parte de seus rendimentos, eles têm sua base
de operações comerciais na Holanda. Os Stones ensaiam
no Canadá, porque os impostos são menores que nos
Estados Unidos. Pela mesma razão, Keith Richards mora em
Connecticut e não em Londres ou Nova York. Os lucros
são divididos de maneira escalonada. Jagger e Richards ganham
mais porque são autores de quase todas as canções
do grupo. Em seguida vem Charlie Watts, um dos fundadores da banda
e responsável pelos figurinos de turnê. O que sobra
fica com o guitarrista Ron Wood que só em 1995 foi
alçado da categoria de músico convidado para a de
integrante oficial dos Rolling Stones.
Há
quem diga que os Stones são decadentes. De fato, eles não
lançam um grande disco desde 1981. Mas é absurdo pensar
que uma banda que emplacou três shows entre os maiores dos
anos 90, e cuja turnê atual, Licks Tour, tem um faturamento
previsto de 100 milhões, esteja em queda. O fato é
que os Stones ainda têm o domínio do palco. Mick Jagger
mantém o carisma e rebola com a mesma empolgação
de quarenta anos atrás, enquanto Keith Richards encarna a
figura do herói da guitarra com perfeição.
"Não imagino minha vida sem estar no palco. Quando estou
em férias, acordo às 3 da manhã pensando que
está na hora do show", disse ele a VEJA na semana retrasada,
durante o lançamento de Four Licks. A bilheteria dos
shows tem sido a principal fonte de renda dos Stones. Mais uma vez,
eles contam com um parceiro de peso por trás das turnês.
Trata-se do empresário Michael Cohl, que transformou os espetáculos
em mega-produções. Cohl deu ainda a idéia de
comercializar traquitanas relacionadas à banda, como roupas
e álbuns de fotos. Entre os cinqüenta produtos que atualmente
carregam a marca Rolling Stones, encontra-se uma linha de cuecas.
Quando os shows acabarem, os Stones ainda terão uma bela
fonte de renda. Eles são donos de todos os discos gravados
a partir de 1971. Basta receber uma oferta atrativa pelo lote que
os Stones trocam de gravadora num instante. A Virgin, atual detentora
do catálogo, pagou 34 milhões de dólares em
1991 pelo lote. E até hoje não mostra sinais de arrependimento.
Além disso, poucas bandas possuem um repertório tão
vasto quanto o deles e tão recheado de músicas
que são consideradas clássicos. É como disse
a cantora Sheryl Crow: "A coisa mais complicada de estar no ramo
do rock é que, não importa o quão boa seja
a sua canção, ela sempre parecerá um rascunho
de uma música dos Rolling Stones".
| Um
DVD que é um programão |
|
Four
Flicks, o novo DVD quádruplo dos Rolling
Stones, é um programão. Ele traz shows
gravados pela banda ao longo de 2002 e 2003 em Londres,
Paris e Nova York, além de dois documentários:
Tip of the Tongue, sobre os preparativos da turnê,
e Licks Around the World, com trechos das apresentações
do quarteto no Japão onde Jagger se comunica
com o público em japonês e na Índia,
onde eles pisaram pela primeira vez para fazer um show
em abril deste ano. Se a força criativa dos Stones
se perdeu após Tattoo You, de 1981, sua
energia se mantém intacta nas apresentações
ao vivo.
O DVD traz como curiosidade alguns efeitos especiais.
Pode-se ver os shows dos bastidores, por exemplo. Mas
o melhor é o recurso Select a Stone, que dá
a chance de assistir às apresentações
de Nova York e Paris com a câmera focalizada em
um único músico. Mick Jagger já
não tem a voz de trinta anos atrás, mas
ainda possui o dom raro de entrar em sintonia com qualquer
platéia. E Keith Richards continua sendo um guitarrista
genial. "Eu nunca toco do jeito que gostaria, mas toco
da melhor maneira que posso", costuma dizer ele, com
modéstia fingida.
|
|
|