Edição 1828 . 12 de novembro de 2003

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A rainha do botox

A dermatologista Ligia Kogos dirige
clínica com 33 000 pacientes,
onde
até o manobrista é botocado


Thaís Oyama

 
Fotos Carol Quintanilha
Ligia: expediente na madrugada e vice-campeonato da toxina que alisa

Ligia Kogos não é uma médica-padrão. A maneira de falar, por exemplo: jamais diz "pele". É sempre "pelinha". Pescoço é "pescocinho" e rugas são "marquinhazinhas". Veste-se como uma estrela – nada de jalecos brancos, prefere verdinhos esvoaçantes e azuis esfuziantes, com decotes tão chamativos quanto a cascata de cachos acobreados – e só chama paciente de cliente. Responsável por nove entre dez das bocas famosas e subitamente infladas que sorriem para as câmeras, a dermatologista das estrelas, das ricas e das bem-esticadas fez da clínica que leva seu nome uma história de sucesso e um epítome do gosto, às vezes um pouco extremado, de tantas brasileiras pelos "procedimentos" estéticos.

Se é "procedimento" que a cliente quer, é isso que ela encontrará. A Ligia Kogos ocupa um casarão com colunas gregas na fachada e dezenove salas de atendimento num bairro rico de São Paulo. Tem 37 funcionários e 33 000 pacientes cadastrados. Para dar conta da demanda, atende não só aos sábados, mas também de madrugada. Pelo menos dois dias por semana, chega a ficar lotada até as 4 da manhã. Luzes acesas, carrões na porta e recepcionistas trabalhando a todo o vapor, recebe pacientes que esperaram até um ano para alisar, esticar, preencher ou, especialmente, inflar os lábios – a marca de Ligia – pelas mãos da própria ou de uma de suas sete dermatologistas. Às segundas e quartas, o movimento é particularmente intenso – são os dias dedicados às aplicações de Botox (980 reais cada uma), lá consumido em escala industrial. Segundo o laboratório americano Allergan, a clínica Ligia Kogos é a segunda maior cliente do mundo na compra do produto e a primeira da América Latina. O título já rendeu à médica uma visita à clínica do vice-presidente da empresa e uma viagem-cortesia a Paris, para ela e o marido.

Na Kogos, o culto ao Botox – a toxina que apaga temporariamente algumas das rugas mais evidentes – começa entre as funcionárias. Por determinação da médica, até as faxineiras têm de se submeter a sessões de aplicação do produto a cada quatro meses. A equipe toda tem de estar sempre "es-ti-ca-di-nha", insiste ela. "Outro dia, olhei para um dos manobristas e disse: senhor Francisco, o senhor está com a testa muito marcadinha", lembra. "Mandei colocar um Botox nele na mesma hora."

 
As sete médicas da Kogos: cabelos longos e voz suavezinha

As médicas tampouco escapam do rigor estético de Ligia, que se orgulha do fato de que, desde que se tornou adolescente, ninguém jamais a viu sem maquiagem – incluindo o marido e o filho. Recentemente, suspendeu por três meses uma das dermatologistas por considerar que estava fora do peso. "Disse: 'Gordinha assim, não dá. Vá para um spa e, quando sair, volte a atender'", conta. Além de competência e magreza, a candidata a trabalhar na clínica também deve se enquadrar no que Ligia considera ser um modelo de mulher. Em outras palavras, precisa se parecer com ela. Isso explica o fato de as sete médicas da Kogos terem voz suave, cabelos longos e rostinho liso como um tamborim. Estão sempre impecavelmente vestidas e maquiadas, já que o lema da chefe é: "Mulheres têm de estar bonitas 24 horas por dia e 365 dias por ano. Sem trégua". A própria Ligia não se dá nenhuma, garante o marido, o ginecologista Waldemar Kogos. Orgulhoso, lembra que a mulher, grávida de nove meses, subia e descia escadas de salto alto. "Nem na praia ela usa chinelinhos", informa.

Ligia nasceu rica e bonita – e inteligente também, como comprova seu bom desempenho na Escola Paulista de Medicina, para espanto dos colegas que abominam sua desinibição social. Filha de um industrial, casou-se em 1980 com Waldemar, então seu professor de ginecologia na faculdade. Hoje, bem-sucedida por direito próprio e famosa (dá autógrafos na rua e coleciona fãs que lhe dedicam páginas na internet), provoca críticas entre colegas mais severos pelo estilo exuberante e pelos lábios polpudos que vai semeando mundo afora. Suas pacientes, quer dizer, clientes, obviamente não ligam a mínima, nem para as críticas nem para a espera, que pode chegar a até cinco horas. "Quando ela finalmente atende, é como se não existisse mais ninguém no mundo além de você", diz a decoradora Inês Capobianco. Nas fichas dos pacientes, além do histórico de cada um, Ligia costuma anotar detalhes como: "acaba de enviuvar", "arrumou um namorado no bingo" ou "separou-se do marido". "São informações que podem fazer a diferença na prescrição do tratamento. Uma mulher que acaba de reencontrar um homem por quem se apaixonou na infância, por exemplo, vai querer estar bonitinha como quando o conheceu", justifica. E da clínica Ligia Kogos, todo mundo sabe, cada pacientezinha sai com a idadezinha que quer.

 
As leis de Ligia

• Marketing "Não bastam clientes satisfeitos. É necessário que haja clientes extasiados, encantados, fãs ardorosos"

• Consulta "Digo às dermatologistas da clínica: temos de dar algo a mais ao cliente. Ele veio tratar uma alergia? Você tira uma pintinha do colo, uma mancha da mão. É como num sacolão: você sempre leva uma verdurinha de presente"

• Idade "Mulheres não devem revelar a idade jamais. Temos a idade que sentimos ter. Eu, por exemplo, me vejo como uma menina de 5 anos, com a cabeça cheia de cachinhos"

• Vaidade "A primeira vez que eu subi num salto tinha 14 anos de idade. Nunca mais desci"

 
 
 
 
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