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Perfil
A rainha do botox
A dermatologista Ligia Kogos dirige
clínica com 33 000 pacientes, onde
até o manobrista é botocado

Thaís
Oyama
Fotos Carol Quintanilha
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| Ligia:
expediente na madrugada e vice-campeonato da toxina que alisa
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Ligia
Kogos não é uma médica-padrão. A maneira
de falar, por exemplo: jamais diz "pele". É sempre "pelinha".
Pescoço é "pescocinho" e rugas são "marquinhazinhas".
Veste-se como uma estrela nada de jalecos brancos, prefere
verdinhos esvoaçantes e azuis esfuziantes, com decotes tão
chamativos quanto a cascata de cachos acobreados e só
chama paciente de cliente. Responsável por nove entre dez
das bocas famosas e subitamente infladas que sorriem para as câmeras,
a dermatologista das estrelas, das ricas e das bem-esticadas fez
da clínica que leva seu nome uma história de sucesso
e um epítome do gosto, às vezes um pouco extremado,
de tantas brasileiras pelos "procedimentos" estéticos.
Se é "procedimento" que a cliente quer, é isso que
ela encontrará. A Ligia Kogos ocupa um casarão com
colunas gregas na fachada e dezenove salas de atendimento num bairro
rico de São Paulo. Tem 37 funcionários e 33 000 pacientes
cadastrados. Para dar conta da demanda, atende não só
aos sábados, mas também de madrugada. Pelo menos dois
dias por semana, chega a ficar lotada até as 4 da manhã.
Luzes acesas, carrões na porta e recepcionistas trabalhando
a todo o vapor, recebe pacientes que esperaram até um ano
para alisar, esticar, preencher ou, especialmente, inflar os lábios
a marca de Ligia pelas mãos da própria
ou de uma de suas sete dermatologistas. Às segundas e quartas,
o movimento é particularmente intenso são os
dias dedicados às aplicações de Botox (980
reais cada uma), lá consumido em escala industrial. Segundo
o laboratório americano Allergan, a clínica Ligia
Kogos é a segunda maior cliente do mundo na compra do produto
e a primeira da América Latina. O título já
rendeu à médica uma visita à clínica
do vice-presidente da empresa e uma viagem-cortesia a Paris, para
ela e o marido.
Na Kogos, o culto ao Botox a toxina que apaga temporariamente
algumas das rugas mais evidentes começa entre as funcionárias.
Por determinação da médica, até as faxineiras
têm de se submeter a sessões de aplicação
do produto a cada quatro meses. A equipe toda tem de estar sempre
"es-ti-ca-di-nha", insiste ela. "Outro dia, olhei para um dos manobristas
e disse: senhor Francisco, o senhor está com a testa muito
marcadinha", lembra. "Mandei colocar um Botox nele na mesma hora."
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| As
sete médicas da Kogos: cabelos longos e voz suavezinha |
As
médicas tampouco escapam do rigor estético de Ligia,
que se orgulha do fato de que, desde que se tornou adolescente,
ninguém jamais a viu sem maquiagem incluindo o marido
e o filho. Recentemente, suspendeu por três meses uma das
dermatologistas por considerar que estava fora do peso. "Disse:
'Gordinha assim, não dá. Vá para um spa e,
quando sair, volte a atender'", conta. Além de competência
e magreza, a candidata a trabalhar na clínica também
deve se enquadrar no que Ligia considera ser um modelo de mulher.
Em outras palavras, precisa se parecer com ela. Isso explica o fato
de as sete médicas da Kogos terem voz suave, cabelos longos
e rostinho liso como um tamborim. Estão sempre impecavelmente
vestidas e maquiadas, já que o lema da chefe é: "Mulheres
têm de estar bonitas 24 horas por dia e 365 dias por ano.
Sem trégua". A própria Ligia não se dá
nenhuma, garante o marido, o ginecologista Waldemar Kogos. Orgulhoso,
lembra que a mulher, grávida de nove meses, subia e descia
escadas de salto alto. "Nem na praia ela usa chinelinhos", informa.
Ligia nasceu rica e bonita e inteligente também, como
comprova seu bom desempenho na Escola Paulista de Medicina, para
espanto dos colegas que abominam sua desinibição social.
Filha de um industrial, casou-se em 1980 com Waldemar, então
seu professor de ginecologia na faculdade. Hoje, bem-sucedida por
direito próprio e famosa (dá autógrafos na
rua e coleciona fãs que lhe dedicam páginas na internet),
provoca críticas entre colegas mais severos pelo estilo exuberante
e pelos lábios polpudos que vai semeando mundo afora. Suas
pacientes, quer dizer, clientes, obviamente não ligam a mínima,
nem para as críticas nem para a espera, que pode chegar a
até cinco horas. "Quando ela finalmente atende, é
como se não existisse mais ninguém no mundo além
de você", diz a decoradora Inês Capobianco. Nas fichas
dos pacientes, além do histórico de cada um, Ligia
costuma anotar detalhes como: "acaba de enviuvar", "arrumou um namorado
no bingo" ou "separou-se do marido". "São informações
que podem fazer a diferença na prescrição do
tratamento. Uma mulher que acaba de reencontrar um homem por quem
se apaixonou na infância, por exemplo, vai querer estar bonitinha
como quando o conheceu", justifica. E da clínica Ligia Kogos,
todo mundo sabe, cada pacientezinha sai com a idadezinha que quer.
| As
leis de Ligia |
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Marketing
"Não bastam clientes
satisfeitos. É necessário que haja clientes
extasiados, encantados, fãs ardorosos"
Consulta
"Digo às dermatologistas da clínica: temos
de dar algo a mais ao cliente. Ele veio tratar uma alergia?
Você tira uma pintinha do colo, uma mancha da
mão. É como num sacolão: você
sempre leva uma verdurinha de presente"
Idade
"Mulheres não devem revelar a idade jamais. Temos
a idade que sentimos ter. Eu, por exemplo, me vejo como
uma menina de 5 anos, com a cabeça cheia de cachinhos"
Vaidade
"A primeira vez que eu subi num salto tinha 14 anos
de idade. Nunca mais desci"
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