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Especial
O mistério das fitas
de Santo André
Nesse
território, ninguém se entende:
o juiz diz que as fitas foram apreendidas,
mas a polícia nega peremptoriamente.
Resta a dúvida: o material evaporou?

Alexandre
Oltramari
No
dia 1º de novembro, um sábado, tocou a campainha do
celular do diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda.
Do outro lado da linha, soou uma voz inesperada. Era o juiz federal
João Carlos da Rocha Mattos, que já foi delegado da
PF, procurador da República e, agora, está no centro
da suspeita de comandar uma quadrilha que aplica pequenos e grandes
golpes. Nervoso, o juiz pediu a Lacerda que liberasse um computador
que, havia dois dias, fora apreendido pela polícia em sua
casa, em São Paulo. Rocha Mattos explicou que trabalhos escolares
de um de seus filhos estavam arquivados no computador. Lacerda ouviu
o pleito com surpresa. "Você sabe melhor do que ninguém
que precisa pedir isso ao Tribunal Regional Federal, não
a mim. Se a desembargadora autorizar, a polícia devolve",
respondeu Lacerda, com um indisfarçável constrangimento.
Um dia depois, no domingo, Rocha Mattos voltou a telefonar a Lacerda.
Em vez de um pedido, dessa vez o juiz fez uma observação
enigmática. "Acho que no meio do material apreendido estão
as fitas de Santo André", revelou ele.
As fitas mencionadas por Rocha Mattos foram gravadas pela Polícia
Federal no início do ano passado, logo após o assassinato
do prefeito de Santo André, o petista Celso Daniel. Em meio
a uma interceptação telefônica que investigava
narcotraficantes, a PF incluiu, de cambulhada, os telefones de líderes
petistas no município. Desse grampo, resultaram 42 fitas,
gravadas entre janeiro e abril. Em seguida, no rastro da investigação
sobre o assassinato do prefeito, seu irmão Francisco Daniel
acusou o PT de ter recolhido entre empresas de ônibus da cidade
a quantia de 1,2 milhão de reais para campanhas eleitorais.
O dinheiro, disse Francisco Daniel, teria sido entregue ao então
deputado José Dirceu pelo atual chefe de gabinete do presidente
Lula, Gilberto Carvalho, um dos grampeados em Santo André.
A partir daí, sem que o conteúdo das fitas tivesse
sido divulgado e sem que nenhuma autoridade que delas tenha tomado
conhecimento viesse a público para comentar o assunto, especulou-se
a respeito da possibilidade de as fitas de Santo André conterem
conversas sobre o recolhimento de verbas de campanha. Tudo ficou
na base da especulação. A Justiça considerou
as gravações ilegais como de fato eram
e mandou destruí-las em abril de 2002. Quem destruiu as fitas
foi ninguém menos que o juiz federal João Carlos da
Rocha Mattos, o mesmo que, agora, num enigmático telefonema
a Paulo Lacerda, tratou de ressuscitá-las.
Ressuscitou-as no telefonema e também no papel, ao enviar
às pressas um ofício de duas páginas à
presidente do Tribunal Regional Federal em São Paulo, Anna
Maria Pimentel. No ofício, o juiz informa que mantinha em
seu poder cópias das 42 fitas cujos originais ele mandara
destruir e acusa a Polícia Federal de apreendê-las
e mandá-las indevidamente para Brasília. A VEJA, Rocha
Mattos disse que guardara as cópias das fitas de Santo André
no apartamento de sua ex-mulher Norma Cunha, onde a polícia
também fez uma devassa. "As 42 fitas estavam ao lado da banheira,
dentro de uma caixa, com a inscrição 'Caso Santo André'",
sustenta Rocha Mattos. A Polícia Federal, por sua vez, contou
duas versões. De início, admitiu ter apreendido as
42 fitas de Santo André, informando que estavam sendo devidamente
degravadas em Brasília. Na quinta-feira passada, porém,
o delegado Reinaldo de Almeida, porta-voz da operação
policial, disse o contrário. "A PF informa peremptoriamente
que não houve apreensão de fitas envolvendo o caso
Santo André", afirmou.
De acordo com o delegado, foram apreendidas 34 fitas no apartamento
de Norma e outras seis na residência de Rocha Mattos. Seriam,
portanto, quarenta fitas e não 42 , e assim
mesmo de conteúdo inteiramente diferente. "No lote encontrado
com a Norma, há conversas dela com terceiros. No caso do
Rocha Mattos, quatro fitas contêm músicas e duas trazem
conversas dele próprio com outras pessoas", diz o delegado.
O juiz Rocha Mattos realmente tinha a posse das cópias das
fitas de Santo André, ainda que por um caminho labiríntico.
Aconteceu o seguinte: em abril do ano passado, o juiz destruiu as
fitas originais do caso, mas soube que o Departamento de Inquéritos
Policiais (Dipo) possuía cópias das 42 fitas. Solicitou-as,
para também destruí-las. Misteriosamente, porém,
o Dipo não conseguiu localizar as tais cópias. E ficou
por isso mesmo. Passado algum tempo, uma desembargadora do TRF entendeu
que as fitas não deveriam ser destruídas e concedeu
uma liminar ordenando que fossem preservadas. Ninguém deu
atenção à liminar porque seu conteúdo
era inócuo afinal, as fitas originais haviam sido
destruídas e as cópias estavam sumidas.
Eis
que, em abril deste ano, o Dipo, em novo movimento misterioso, encontrou
em seus arquivos as cópias das fitas e mandou-as,
acondicionadas numa caixa, ao juiz Rocha Mattos. O juiz, ao recebê-las,
fez menção de destruí-las, mas, subitamente,
lembrou-se da liminar da desembargadora, aquela à qual ninguém
dera atenção, mandando que se preservasse o material.
Diante disso, Rocha Mattos resolveu atender à liminar e preservou
tudo. Mas, como nada na trajetória dessas fitas percorre
caminhos convencionais, o juiz Rocha Mattos não anexou as
cópias das fitas ao processo, como seria natural. Em vez
disso, armazenou-as na casa da ex-mulher. "Precisava de um lugar
seguro", diz ele, que, entre um cofre de banco e um depósito
judicial, entendeu que segurança mesmo havia na vizinhança
da banheira da ex-mulher. É um procedimento genuinamente
heterodoxo, mas não chega a ser um crime. "Trata-se de uma
infração interna, muito grave, passível de
punição administrativa. Mas não há crime.
Isso só teria acontecido se ele tivesse feito uso das fitas",
explica o criminalista Luiz Flávio Gomes, doutor em direito
e processo penal. "Guardar fitas que mandou destruir pode não
ser um gesto usual ou regular, mas não vejo crime aí.
É um fato atípico, sem dúvida. Mas ele pode
ter guardado as fitas para efeito de curiosidade histórica",
ironiza o criminalista Tales Castelo Branco.
Resta, no entanto, uma questão central. Se o juiz Rocha Mattos
tinha as fitas, se as fitas estavam ao lado da banheira de sua ex-mulher
e se a polícia não as apreendeu onde estão
as fitas? Há outra pergunta no ar: se as fitas têm
um conteúdo inocente e não revelam nada de grave,
como sempre sustentaram os petistas, por que tanta celeuma em torno
de um monte de tiras magnéticas inúteis? Em conversas
reservadas, os investigadores da PF dizem acreditar que o juiz Rocha
Mattos tenha inventado a história da apreensão das
fitas com o objetivo de acusar a PF de persegui-lo por razões
políticas. Por esse raciocínio, Rocha Mattos estaria
preparando o argumento de que foi perseguido por manter em seu poder
provas que supostamente envolveriam gente graúda do governo
num caso de corrupção. Será isso mesmo? "Até
agora não me preocupei com essa história de Santo
André. Se as fitas foram apreendidas, estão na perícia",
diz o diretor Paulo Lacerda. "É loucura imaginar que a polícia
pudesse desaparecer com alguma coisa para proteger quem quer que
seja. As pessoas que estão trabalhando nisso são sérias."
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