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Especial
O
bote da sucuri

Malu
Gaspar
Montagem com fotos de Epitácio Pessoa/AE/Alex
Silva/AE
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O
TRIO SUSPEITO
O juiz Rocha Mattos (sentado) é apontado como mentor
de todo o esquema, do qual são supostos membros os irmãos
Casem (de terno escuro) e Ali Mazloum: negativas peremptórias |
Na
manhã de 30 de outubro, o juiz João Carlos da Rocha
Mattos, há duas décadas titular da 4ª Vara Criminal
da Justiça Federal em São Paulo, parecia oscilar entre
a raiva e o desespero. "Eu sei quem está por trás
disso aí! Mas eu sou um arquivo vivo!", dizia, em tom de
ameaça, aos policiais que vasculhavam cada canto do amplo
apartamento de sua ex-mulher Norma Cunha. "Eu sou um arquivo vivo!",
repetia, zanzando de um lado ao outro do apartamento, impotente
diante da devassa autorizada pela Justiça, segundo relato
de uma testemunha. À mesma hora, 140 agentes federais faziam
batidas em quinze endereços em São Paulo. O que está
por trás dessa ímpar mobilização policial,
que recebeu o nome de Operação Anaconda, sinônimo
de sucuri, uma cobra capaz de engolir um bezerro, é uma vastíssima
escuta telefônica, que monitorou 181 linhas de oitenta pessoas
durante mais de um ano. Nessa busca, a polícia acredita ter
flagrado uma quadrilha formada por profissionais que, em tese, deveriam
cerrar fileiras no combate ao crime
juízes, policiais e delegados, além de advogados
e empresários. Na denúncia apresentada pelo Ministério
Público Federal, e assinada por duas procuradoras, Rocha
Mattos é apontado como "mentor da organização",
enquanto os irmãos Casem e Ali Mazloum, respectivamente juízes
da 1ª e da 7ª varas criminais da Justiça Federal
paulista, são descritos como membros do grupo. Na sexta-feira
passada, atendendo a uma determinação judicial, a
PF prendeu o juiz Rocha Mattos em São Paulo.
Se
as suspeitas se confirmarem, será o caso mais emblemático
de corrupção na história do Judiciário
brasileiro de que se tem notícia. O grosso das gravações
telefônicas prossegue sob sigilo, mas, na semana passada,
VEJA teve acesso a duas dezenas de diálogos, que descrevem
as conversas das pessoas vigiadas pela polícia. Alguns exemplos
do conteúdo dos telefonemas:
Em novembro do ano passado, o juiz Rocha Mattos pegou o telefone
e disse a Cesar Herman, agente da Polícia Federal, que gostaria
de mandar consertar seu aparelho que clona celulares ilegalmente.
Em dezembro do ano passado, José Augusto Bellini,
delegado da Polícia Federal, combinou com o juiz Rocha Mattos
uma forma de safar-se da acusação verdadeira
de que ambos andavam em seus carros particulares com placas
privativas da PF para burlar multas dos radares de trânsito.
Em maio deste ano, um empresário, num tom entre o
espanto e a ironia, avisou o delegado José Augusto Bellini
que uma investigação flagrara o juiz Rocha Mattos
com 8 milhões de dólares na Suíça.
Em setembro do ano passado, o juiz Casem Mazloum, titular
da 1ª Vara Criminal da Justiça Federal em São
Paulo, telefonou ao agente federal Cesar Herman e encomendou a instalação
de um grampo para um amigo interessado em vigiar as peripécias
noturnas da esposa.
Nos telefonemas, há passagens particularmente graves. Num
deles, o agente Cesar Herman tem uma incandescente discussão
com sua ex-mulher e, a certa altura, para demonstrar sua valentia
sanguinária, ou sua capacidade de fazer bravatas, avisa que
já matou oito pessoas "só em São Paulo". Em
outra ligação, o juiz Rocha Mattos pede ao agente
Cesar Herman, que vinha prestando serviços ao seu gabinete,
que devolva "aquela pistola" e explica que a arma "é de um
processo". Para os investigadores, o diálogo sugere que o
juiz autorizara a retirada da arma de um processo judicial, para
que o agente a usasse como bem entendesse e depois a devolvesse
num procedimento irregular. A suposta quadrilha, nas palavras
da desembargadora Therezinha Cazerta, que autorizou a Polícia
Federal a fazer as devassas, é suspeita de "condutas tipificadoras
de diversos crimes" entre elas, a venda de decisões
judiciais.
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COM
OURO E DÓLARES
No apartamento de Norma (acima), ex-mulher de Rocha Mattos,
a polícia encontrou um cofre (no alto), do qual apreendeu
550 000 dólares em dinheiro e 2 quilos de ouro em lingotes |
Numa
das conversas, Rocha Mattos fala com um amigo que estava acompanhado
de um réu que o juiz acabara de absolver. Rocha Mattos pergunta
ao amigo se o réu absolvido "gostou da decisão". O
amigo responde: "Sim, ele tá te mandando um beijo". O juiz
retribui: "Manda um abraço para ele". Em outro diálogo,
entre o delegado José Augusto Bellini e sua esposa, Silvia,
fala-se da concessão de um habeas-corpus. Bellini insinua
que o caso deve ser entregue ao juiz Ali (que a polícia suspeita
tratar-se de Ali Mazloum), e não a seu irmão, o "Careca"
(seria Casem Mazloum, na interpretação das autoridades
encarregadas da investigação). Bellini diz: "Podia
até colocar o Careca, mas o Careca vai querer para c...,
certo?". Mais adiante, repete: "Eu poderia pegar o Careca, mas com
o Careca, no final, não sobra".
No organograma da organização, conforme o estágio
atual das investigações da Polícia Federal,
o agente Cesar Herman parece ser o mercador de decisões judiciais.
Os investigadores suspeitam que, num telefonema em 16 de setembro
do ano passado, Cesar Herman e o juiz Casem Mazloum discutem a venda
de uma decisão judicial. A conversa, porém, é
em código e tanto pode ser aquilo que os investigadores
suspeitam quanto outra coisa qualquer. Em outras passagens, no entanto,
Cesar Herman comenta sobre suas reuniões com juízes,
uma delas no Hotel Hilton. As gravações trazem registro
de vários contatos de Cesar Herman com os interessados na
libertação do empresário Ari Natalino da Silva,
suspeito de adulterar combustível. Polivalente, Cesar Herman
é o dono dos equipamentos para fazer escuta clandestina,
é suspeito de falsificar documento para conseguir o relaxamento
de uma prisão em flagrante e de facilitar contrabando de
motocicletas e anabolizantes além de, com um salário
de 5.000 reais, ser dono de um prédio de 21 andares num bairro
sofisticado da capital paulista. Herman já foi demitido da
Polícia Federal, mas conseguiu voltar aos quadros da corporação
por via judicial. Na denúncia do Ministério Público,
ele é o acusado com o maior número de suspeitas: formação
de quadrilha, falsidade ideológica, peculato, prevaricação,
corrupção passiva, tráfico de influência,
contrabando e interceptação telefônica ilegal.
Rocha Mattos, "o mentor", é conhecido pela cabeleira encanecida,
língua solta, decisões inesperadas e acusações
de propina. No início dos anos 90, o juiz foi acusado de
pedir 2 milhões de dólares, através de um intermediário,
para absolver um acusado de tráfico de cocaína. A
denúncia foi feita publicamente, e registrada na corregedoria
do tribunal, pelo advogado Paulo José da Costa Júnior.
Em 1993, Rocha Mattos chegou a ser afastado do cargo, mas, numa
reviravolta surpreendente, voltou à ativa e, dizem
as más-línguas, a tal reviravolta surpreendente teria
sido produzida depois que circulou pelo tribunal uma tórrida
fita de vídeo que ninguém queria que viesse a público.
Nas gravações da PF, constata-se que sua movimentação
entre a turma suspeita de formar a quadrilha é intensa
mais intensa que a dos irmãos Mazloum. Todos esses juízes,
pela função que exercem, já atuaram naturalmente
em casos de gente famosa. Rocha Mattos retirou o ex-governador paulista
Orestes Quércia de um inquérito sobre a privatização
da Vasp e inocentou a ele e ao também ex-governador Luiz
Antônio Fleury num caso de importação superfaturada
de equipamentos pelo governo de São Paulo. Casem Mazloum,
entre outros casos mais conhecidos, inocentou o ex-senador Luiz
Estevão no desvio de 169 milhões de reais do TRT paulista.
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CHURRASCO
E GRAMPOS
Herman (no círculo), na churrascaria da turma,
e seu arsenal de grampos
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A
descoberta do grupo começou com uma prosaica denúncia
anônima em Maceió, segundo a qual Jorge Luiz Bezerra
da Silva, delegado aposentado da Polícia Federal, maquinava
a libertação de criminosos. Em fevereiro de 2002,
os investigadores passaram então a monitorar os telefones
de Bezerra da Silva e logo descobriram a amplitude de seus contatos,
que se estendiam ao Pará, Rio Grande do Sul e Mato Grosso,
além de São Paulo, o epicentro das operações.
Chamado pelos amigos de "Jorge Chave de Cadeia", por sua incorrigível
inclinação de meter os outros em confusão,
o delegado, que exerce a advocacia desde sua aposentadoria da PF,
acabou levando os investigadores ao coração do esquema.
Na devassa de 30 de outubro, a polícia foi a sua casa e apreendeu
42.000 dólares, além de seu cartão de apresentação,
no qual constam três endereços de seu escritório:
um em Maceió, outro em São Paulo e um terceiro em
Miami. Naquele 30 de outubro, porém, a colheita mais farta
dos agentes federais aconteceu no apartamento de Norma Cunha, ex-mulher
do juiz Rocha Mattos e auditora aposentada da Receita Federal.
Depois de oito horas, ao deixarem o apartamento, os policiais levaram
Norma Cunha para a custódia da Polícia Federal, onde
permanecia detida até a noite de sexta-feira passada, e mais
1.353 itens apreendidos. Entre eles, havia 550.000 dólares
em dinheiro, 50.000 reais em ações, 2 quilos de ouro
em lingotes e um sofisticado aparelho de TV, que a polícia
suspeita ser fruto de contrabando, além de talões
de cheques, agendas, extratos telefônicos, correspondências
e, ainda, um pacote de fitas misteriosas na origem, no destino
e no conteúdo (veja
reportagem). Nas gravações,
depreende-se que Norma vivia às turras com seu ex-marido
Rocha Mattos. Numa delas, em conversa com Cesar Herman, ela acusa
Rocha Mattos de ser "quem rouba" e o ex-marido, em conversa
com um amigo, comenta que, perto dos problemas que Norma lhe causa,
"o demônio é fichinha". Em pelo menos uma ocasião,
Norma viajou à Suíça, mas a polícia
desconhece o motivo. Numa ligação de lá, ela
comentou com o filho: "Estou em uma montanha na Suíça,
de frente para o Mont Blanc, curtindo a paisagem maravilhosa e uma
rosa vermelha no jardim".
Em outro telefonema, de 3 de setembro do ano passado, Norma fala
da relação bastante próxima de seu ex-marido
com Toninho da Barcelona, considerado um dos maiores doleiros do
país. Na conversa telefônica, um interlocutor pede
a Norma que faça contato com o doleiro, ao que ela responde
dizendo que o próprio interlocutor poderia encontrá-lo
com facilidade naquele mesmo momento. "Ele acabou de entrar na Maranhão",
disse ela, numa referência ao apartamento de seu ex-marido,
situado na Rua Maranhão, no bairro de Higienópolis.
No despacho em que autoriza a devassa no apartamento de Norma e
no de Rocha Mattos, a desembargadora Therezinha Cazerta, com base
na denúncia do Ministério Público Federal,
descreve as suspeitas que pesam sobre a conduta do juiz e, entre
elas, menciona uma "ligação estável" com o
doleiro Toninho da Barcelona, assim conhecido por causa do nome
de sua casa de câmbio. A informação de Norma
no telefonema sugere que a denúncia do MP e a desembargadora
estavam certas.
Juízes, delegados, policiais, advogados, doleiros
todos suspeitos de integrar a suposta quadrilha mantêm
contatos freqüentes e exibem intimidade nas conversas. Depois
de abordar os negócios urgentes, eles costumam falar sobre
viagens, comentar os programas de fim de semana, os prazeres com
namoradas, problemas familiares e ocorrência de doenças,
item no qual o delegado José Augusto Bellini é campeão,
pela insistência com que reclama de dores no ombro fraturado,
não com um, mas com dois tombos dentro de casa de
tal modo que, ironicamente intrigado, o juiz Casem Mazloum pergunta
se espalharam azeite pelo chão da casa. As conversas também
são recheadas de expressões carinhosas "meu
amor", "um beijo para você", "um beijo forte". Chama atenção,
noutro sinal inequívoco de intimidade, a troca incessante
de palavrões, pronunciados com estrondosa sonoridade. Além
disso, geralmente às quartas e quintas, conforme constataram
os investigadores, alguns membros da turma almoçavam juntos
numa churrascaria em São Paulo a Angélica Grill.
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CONFORTO E DETENÇÃO
Vista aérea de uma chácara em Mairinque, no interior de São
Paulo, de propriedade do delegado Bellini: dores no ombro
e prisão na PF
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A
atuação em grupo que valeu a todos, sem exceção,
a denúncia por crime de formação de quadrilha
é evidente também nos projetos de futuro. Em
26 de dezembro do ano passado, às vésperas da virada
do ano, o juiz Rocha Mattos e o delegado José Augusto Bellini
comentam as perspectivas de 2003, com a previsível mudança
nos postos-chave da PF diante da troca de governo. Bellini aposta
que o diretor-geral da Polícia Federal será mesmo
o delegado Paulo Lacerda (acertou) e que a superintendência
em São Paulo ficaria a cargo do delegado Marco Antônio
Veronezzi (errou). "Ótimo", festeja o juiz Rocha Mattos.
Bellini retruca, mostrando que manterá seu poder mesmo atuando
apenas nos bastidores: "Eu sou o Golbery", diz ele, numa referência
ao general Golbery do Couto e Silva, o discreto e poderoso ministro
militar. O juiz Rocha Mattos, sem explicitar as suas razões,
diz que essa é a melhor posição para o amigo.
"Você é o Golbery, é. Mas é melhor mandar
por trás, estar por trás, viu?"
Ex-secretário de Segurança Pública do Espírito
Santo, José Augusto Bellini ficou conhecido pelo rigor na
luta contra narcotraficantes e consumidores de entorpecentes. Em
1986, ele foi o responsável pela prisão dos titãs
Tony Bellotto e Arnaldo Antunes, acusados de porte de drogas. Oito
anos depois, por coincidência, Bellotto escreveu o livro Bellini
e a Esfinge, em cujo enredo Bellini era um detetive negligente,
carrancudo, cínico e plantonista do meretrício da
noite de São Paulo. Hoje, como responsável pelo setor
de emissão de passaportes da Polícia Federal, cargo
do qual foi afastado na sexta-feira passada, Bellini atingiu um
excelente nível de vida. É dono, por exemplo, de uma
monumental chácara na cidade de Mairinque, no interior de
São Paulo, com piscina, quadra de esportes e verde abundante.
Por ora, não pode usufruir seu patrimônio. Assim como
o agente Cesar Herman, o delegado Jorge Luiz Bezerra da Silva, a
aposentada Norma Cunha, o juiz Rocha Mattos e outros quatro denunciados,
Bellini está preso, sob a custódia da Polícia
Federal. Até sexta-feira passada, nenhum deles dera entrevista,
mas os três juízes federais fizeram questão
de frisar sua inocência.
"Incluíram meu nome em um bolo genérico
foram pinçando vários casos, envolvendo várias
pessoas, para colocar meu nome nesse absurdo. Não vou ficar
quieto. É uma tremenda armação", diz o juiz
Ali Mazloum, titular da 7ª Vara Criminal de São Paulo,
com a vantagem de ser alvo das denúncias mais frágeis
até agora. O Ministério Público Federal o denunciou
por "formação de quadrilha, abuso de autoridade e
ameaça".
"Meus dados bancários e fiscais estão à
disposição. Se encontrarem alguma coisa, peço
demissão do cargo", desafia o juiz Casem Mazloum, da 1ª
Vara Criminal. No documento do Ministério Público,
ele é acusado de "formação de quadrilha, falsidade
ideológica e interceptação ilegal de comunicação".
"Não temo nada, não tenho nenhum temor. Nem
sei do que estou sendo acusado. Mas estou aqui à disposição,
até para ser preso, se for o caso", afirmou o juiz João
Carlos da Rocha Mattos, titular da 4ª Vara antes de ser afastado
do cargo e levado à prisão por agentes federais na
sexta-feira passada. O Ministério Público denunciou-o
por "formação de quadrilha, falsidade ideológica,
peculato e prevaricação".
Sebastião Moreira/AE
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O
SALDO
Policial carrega saco plástico com as apreensões: só no apartamento
de Norma, foram 1.353 itens
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É
dramática a suspeita de que juízes e policiais possam
ter formado uma quadrilha para cometer diversos crimes, minando
inclusive as decisões da Justiça. Mas a investigação
policial e seu mais recente desdobramento prático, com a
prisão dos nove suspeitos e a devassa na residência
dos denunciados pelo Ministério Público, têm
um aspecto alentador o rompimento das barreiras do corporativismo.
Afinal, a Justiça Federal autorizou a instalação
de escutas nos telefones de juízes federais. A Justiça
Federal também permitiu a devassa na residência de
um juiz federal e, depois, sua prisão. Coube, de outro lado,
à Polícia Federal investigar com afinco, e sob um
sigilo que surpreendentemente não foi violado, as suspeitas
em torno de membros da própria corporação.
Por fim, foi a própria Polícia Federal que organizou
e executou a operação que resultou na prisão
de um agente e dois delegados, um aposentado e outro da ativa. Sempre
que cai uma escora do corporativismo quem ganha é a sociedade
em geral o exemplo está aí.
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"Oito
paus de verde"
No
dia 14 de maio de 2003, o delegado José Augusto
Bellini, preso desde a semana passada, liga para um
empresário amigo, Wagner Rocha, que assessorou
uma corretora de valores cujos donos estiveram envolvidos
numa fraude com títulos públicos e acabaram
inocentados pelo juiz João Carlos da Rocha Mattos.
Na conversa, Rocha informa ao delegado Bellini que o
juiz Rocha Mattos, chamado de "Jotinha", foi flagrado
com 8 milhões de dólares na Suíça.
E ambos concluem que, no fundo, não há
surpresa na descoberta. A seguir, o trecho em que se
fala do assunto:
Rocha
C..., rapaz, eu tô sabendo de uma aí
que arrepia os cabelos dos negos aí.
Bellini É?
Rocha É, pegaram uma do Jotinha
de 8 paus de verde.
Bellini Jotinha? Ué...
Rocha Suíça.
Bellini Suíça? Ué,
mas quem pegou?
Rocha Não sei, o pessoal lá
que tá investigando aí.
Bellini É mesmo, é? Esquisito,
heim? Esquisito não, né?
Rocha É, não, é verdade.
Bellini Esquisito não é.
É de um a zero é nove, né?
Rocha É isso aí.
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Clonando
celulares
Em
21 de novembro de 2002, o agente Cesar Herman, da Polícia
Federal, que trabalha como segurança do juiz
João Carlos da Rocha Mattos, liga para o chefe.
Diz que seu aparelho de clonar celulares está
enguiçado e mandará consertá-lo.
E pergunta se o juiz também quer arrumar seu
próprio aparelho de clonagem de modo a habilitá-lo
a fazer interurbanos. O trecho da conversa:
Rocha Mattos Oi, Cesar, fala.
Herman Meu aparelhinho igual àquele
que o doutor Casem te passou parou de funcionar
Rocha Mattos Ah.
Herman E eu vou ligar para o cara para
ele me arrumar. Você não quer que eu mande
arrumar aquele pra voltar a fazer o normal e o longa
distância também, quando precisar?
Rocha Mattos Quero, quero, quero.
(....)
Herman Porque, já que eu vou mandar
um, aí já mando os dois de uma vez.
Rocha Mattos Pra ficar interurbano, né?
Herman É, porque interurbano acho
que pra nós é melhor ainda.
Três
semanas depois, em 12 de dezembro, o aparelho de clonagem
estava pronto. O agente Cesar Herman infoma ao juiz
que, agora, fará até ligações
internacionais.
Rocha
Mattos Escuta, deixou o celular lá
com elas ou não?
Herman Deixei, deixei lá do lado
do seu telefone.
Rocha Mattos Ah, então tá
bom.
(...)
Herman Deixei, tá funcionando direitinho,
tá fazendo até internacional, viu?
Rocha Mattos Ah, legal, ótimo.
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Placas
frias
Em
26 de dezembro de 2002, o delegado José Augusto
Bellini discute com o juiz João Carlos da Rocha
Mattos uma estratégia de defesa no caso em que
são acusados de usar placas privativas da Polícia
Federal em seus carros particulares. Outros dois juízes,
Casem Mazloum e Adriana Pileggi Soveral, recentemente
afastada do cargo em razão de outra investigação,
também usavam as placas frias, segundo descoberta
dos investigadores federais.
Rocha Mattos Você recebeu aquela
p... da intimação, né? Tem que
se reunir. Mas calma, tem calma. A linha é aquela.
Bellini A linha é a que você
mandar.
Rocha Mattos É o seguinte: nunca
ninguém usou. Eu pedi, mas acabei não
usando.
Bellini Não, mas eu tô usando...
Rocha Mattos Não, mas você
fala que não está, que está usando
na polícia.
(...)
Bellini Eu tô zerado, veja bem.
Agora o que eu quero, é evidente que nós
vamos sentar, você, o Casem, comigo, e com o...
Rocha Mattos Isso, o Casem me ligou hoje,
eu falei vamos marcar...
(...)
Bellini Eu vou falar o que nós
determinarmos numa mesa. O resto eu caio fora, digo
"eu não lembro", "eu não sei".
Rocha Mattos Inclusive porque o tribunal
c... de medo de polícia, viu?
Bellini Eu, mas, moço, deixa comigo.
Agora, eu quero sentar antes com você, né?
Rocha Mattos Lógico.
Dias
antes, em 17 de dezembro, o juiz Rocha Mattos, em conversa
com o agente Cesar Herman, interessa-se por um recurso
contra multas aplicadas em radares. E explica que seu
interesse se deve, agora, ao fato de que não
dispõe mais de placas privativas da Polícia
Federal.
Herman
Vou te mandar uma cópia de um recurso
que eu fiz aí, de multa. Pra acabar com o radar,
viu?
Rocha Mattos Ah, é?
Herman Um recurso dessas multas que eu
fiz aí de radar. Eu fiz um recurso, vou te mandar
ele.
Rocha Mattos Ah, manda. Eu também
quero usar quando tiver.
Herman Olha, mata a pau, viu? Você
vai ler o recurso, é indefensável.
Rocha Mattos Manda uma cópia pra
mim amanhã. Agora eu não tenho mais placa
reservada, né? Manda pra mim uma cópia
amanhã.
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