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Em
foco: Gustavo Franco
Precariedade
tributária
"Melhor
não confundir informalidade com
ilegalidade, sendo esse um pequeno tributo
que o vício paga à virtude"
Os
economistas de esquerda usam muito a expressão "precariedade"
para se referir às relações de trabalho que
não estão totalmente de acordo com as leis trabalhistas:
carteira assinada, encargos, benefícios, garantias e formalidades
atendidas. À precariedade levada ao limite se dá o
nome de "informalidade", uma distorção antiga e conhecida
no mundo do trabalho e decorrente, como é bem sabido, do
alto custo do emprego dito formal quando visto do ponto de vista
dos empregadores.
Tenho
certeza de que isso não é novidade para o leitor.
O que é menos observado é que o mesmo fenômeno
vem ocorrendo crescentemente no tocante a tributos.
Com
a passagem do tempo, nosso sistema tributário adquiriu tal
complexidade, e tamanho peso, especialmente quando se trata de impostos
sobre o faturamento, que aumenta a cada "pacote" o tamanho da "precariedade"
tributária. Mais e mais empresas, especialmente pequenas
e médias, desistem ou não conseguem mais manter uma
vida tributária livre de alguma "precariedade" e, em grau
variável, experimentam o que já foi descrito pelo
economista Pedro Bodin como uma "favelização tributária"¹.
Tudo
começa com uma empresa sem fôlego, ou iniciante, que
faz um "puxadinho tributário" aqui, outro lá, seja
porque errou, seja porque estava necessitada, seja porque um pacote
tributário a pegou de través, e, como a concorrência
faz igual ou pior, percebe que não há condição
de competir e simultaneamente manter comportamento exemplar diante
do Fisco. O casebre vira barraco, que logo traz outro e mais outro,
e subitamente se criou uma favelinha, uma pequena comunidade "precária",
na verdade muitas delas, em toda parte.
Parece
reproduzir-se no mundo dos tributos o mesmo que se passa no mundo
do trabalho: um setor "formal", integrado por poucas e grandes empresas
com capacidade para viver em paz com o Fisco, pois têm a escala
para suportar os custos fixos elevados de sua "administração
tributária", e o resto, a imensa maioria, congregando empresas
que, em grau variável, têm "pendências", dificuldades,
má vontade, ou que, depois do primeiro erro, não conseguem
mais retornar à virtude em matéria de impostos.
O
fato é que essa situação estaria a indicar
que algo de muito errado se passa com nosso sistema tributário.
No
mundo do trabalho, a precariedade é amplamente tolerada,
inclusive admitida explicitamente em estatísticas do IBGE
que nos dizem que mais de um terço do emprego é "informal"
e outro tanto é "por conta própria", ou seja, uns
60% de "trabalho precário", proporção que é
muito maior no setor de serviços, em que está a maior
parte do emprego.
No
mundo do trabalho, o poder público tem pouca capacidade de
interferir quando as partes concordam em constituir uma relação
de trabalho "precária". Ambas fazem economia, o trabalhador
abre mão de direitos e recebe um emprego que de outra forma
não existiria, e os encargos não são pagos.
Se o governo interferir, vai multar a empresa, gerar um problema
na Justiça do Trabalho e destruir postos de trabalho. Melhor
não confundir informalidade com ilegalidade, sendo esse um
pequeno tributo que o vício paga à virtude.
No
mundo dos tributos, o poder público é bem mais diretamente
prejudicado quando se constituem relações "precárias"
no setor privado, pois a resultante é perda de arrecadação.
O Fisco não pode deixar de interferir e, ao fazê-lo,
praticamente extingue as empresas transgressoras. A pequena empresa
informal e lucrativa precisa ficar "abaixo do radar" e está
condenada a não crescer, porque se o fizer se tornará
visível e vulnerável. Cresce a favela e desaparece
a média empresa.
O
sistema precisaria caminhar para uma simplificação
não menos que brutal, mudar sua natureza, mas infelizmente
não é essa a filosofia da chamada "reforma tributária",
e menos ainda do "pacote" mais recente, que modificou a Cofins,
que avança de forma notável no sentido de favelizar
o setor de serviços, em que estão dois terços
do emprego.
¹"Favelização
da indústria", O Estado de S. Paulo, 2/5/03.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central
(gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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