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Carta
ao leitor
O
nó da Justiça
Sebastião Moreira/AE
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| Policiais
recolhem provas contra juízes, em São Paulo: a reforma precisa
andar |
Os
poderes públicos precisam estar sempre submetidos a duas
linhas de vigilância. Uma é a ética, destinada
a evitar a entrada ou a permanência de corruptos em seus quadros.
A segunda deve medir os níveis de inoperância e fazer
soar um alarme sempre que a qualidade dos serviços cair.
No que diz respeito à eficiência, as melhorias não
foram muito notáveis. Mas no campo da ética a sociedade
brasileira colocou na mira nos últimos anos tanto o Executivo
quanto o Legislativo. Com a destituição de Fernando
Collor da Presidência da República, em 1992, o Poder
Executivo sentiu a força do repúdio popular ao comportamento
pouco ético dos governantes. Na mesma década, escândalos
depurativos sacudiram o Legislativo. Os integrantes do Judiciário,
porém, continuaram a viver em uma espécie de mundo
à parte, alheios às críticas e sentindo-se
imunes aos mecanismos punitivos a que se sujeitam os demais brasileiros.
VEJA publica na presente edição uma reportagem sobre
a Operação Anaconda, que desbaratou um grupo de juízes
e policiais federais de São Paulo acusados de vender sentenças
favoráveis a marginais, de tráfico de influência
e de falsificação de documentos. Por seu sucesso e
pela contundência das evidências reunidas, a operação
é uma forte lembrança aos corruptos do Judiciário
de que eles não estão fora do alcance das leis brasileiras.
À vigilância ética sobre o Judiciário
precisa agora se somar a cobrança de sua inoperância.
A máquina da Justiça brasileira está tão
emperrada que, mesmo que fosse possível livrá-la de
todos os malfeitores infiltrados em seus quadros, ainda assim ela
funcionaria mal. O Judiciário é o poder mais aquinhoado
da República. Seus integrantes têm a maior média
de salários e se aposentam com proventos integrais superiores
aos pagos no Legislativo e no Executivo. Um flagrante contraste
com a morosidade dos processos e o arcaísmo de sua estrutura.
O economista Ronald Coase, ganhador do Prêmio Nobel de 1991,
demonstrou que os custos de transação das empresas
em países com sistemas judiciais inoperantes geram ineficiências
enormes que destroem a capacidade delas de competir globalmente.
Com uma Justiça morosa, concluiu Coase, nenhum país
pode ter êxito em um mundo cada vez mais integrado e de competição
econômica quase selvagem. É imprescindível,
portanto, que a reforma do Judiciário em tramitação
no Congresso comece a ser tocada em um ritmo condizente com a urgência
que o país tem de seus esperados resultados.
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