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Ponto
de vista: Stephen Kanitz A
favor dos videogames "Os jogos eletrônicos
são uma ótima forma de estimular o cérebro da criança,
além de ensinar planejamento, paciência, disciplina e raciocínio"
O cérebro humano é um órgão
que absorve quase 25% da glicose que consumimos e 20% do oxigênio que respiramos.
Carregar neurônios ou sinapses que interligam os neurônios em demasia
é uma desvantagem evolutiva, e não uma vantagem, como se costuma
afirmar. Todos nós nascemos com muito mais
sinapses do que precisamos. Aqueles que crescem em ambientes seguros e tranqüilos
vão perdendo essas sinapses, que acabam não se conectando entre
si, fenômeno chamado de regressão sináptica.
Portanto, toda criança nasce com inteligência, mas aquelas que não
a usam vão perdendo-a com o tempo. Por isso, menino de rua é mais
esperto do que filho de classe média que fica tranqüilamente assistindo
às aulas de um professor. Estimular o cérebro da criança
desde cedo é uma das tarefas mais importantes de toda mãe e todo
pai modernos. Sempre fui a favor de videogames,
considerados uma praga pela maioria dos educadores e pedagogos. Só que
bons videogames impedem a regressão sináptica, porque enganam o
cérebro fazendo-o achar que seus filhos nasceram num ambiente hostil e
perigoso, sinal de que vão precisar de todas as sinapses disponíveis.
O truque é encontrar bons jogos, mas não é tarefa impossível.
Ilustração
Ale Setti
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O
primeiro videogame que comprei para meus filhos foi o famoso SimCity, um
jogo em que você é o prefeito de uma pequena vila, e, dependendo
de suas decisões, ela pode se tornar uma megalópole ou não.
Se você for um péssimo prefeito, a população se mudará
para a cidade vizinha, e fim do jogo. Em vez de eleger prefeitos, seria muito
melhor se empossássemos o vencedor do campeonato de SimCity em cada
cidade.
Um dia eu estava brincando de "prefeito"
quando meus filhos de 11 e 13 anos de idade, analisando meu "planejamento urbano"
inicial, balançaram a cabeça em desaprovação: "Tsk,
tsk, tsk. Pai, daqui a cinqüenta anos você vai dar com os burros n'água".
Eu, literalmente, caí da cadeira. Quantos de nós, aos 11 anos, tínhamos
consciência de que atos feitos na época poderiam ter conseqüências
nefastas cinqüenta anos depois? Quantos de nós pensaríamos
em prever um futuro para dali a cinqüenta anos?
A lição que me deram com o famoso videogame Mario Brothers
foi ainda melhor. Não tendo a paciência de meus filhos, eu vivia
cortando caminho pelos vários atalhos existentes no jogo, quando novamente
me deram o seguinte conselho: "Não se podem queimar etapas, senão
você não adquire a experiência e a competência necessárias
para as situações mais difíceis que estão por vir".
A frase não foi exatamente essa, mas foi o suficiente para me deixar com
os cabelos em pé. Dois garotos estavam me ensinando que cada etapa da vida
tem seu tempo e aprendizado, e nela não se pode ser um apressado.
No jogo Médico, as crianças aprendem a fazer um diagnóstico
diferencial, a pior das alternativas sendo uma apendicite. Nesses casos, elas
têm de operar "virtualmente" o paciente seguindo condutas médicas
corretas. Um dos procedimentos é a assepsia da pele, e ai de quem não
escovar o peito do paciente, com o mouse nesse caso, por três minutos, o
que é uma eternidade num videogame e para uma criança. Quem gasta
menos do que isso é sumariamente expulso do hospital por erro médico.
Que matéria ou professor ensina esse tipo de autodisciplina?
Em A-Train, o jogador é um administrador de empresa ferroviária.
A criança tem de investir enormes somas colocando trilhos e locomotivas
sem contar com muitos passageiros no início das operações.
Aprende-se logo cedo que uma empresa começa com prejuízo social
e tem de ter recursos para suportar os vários anos deficitários.
Aos 12 anos, meus filhos já tinham noção
de que os primeiros anos de um negócio são os mais difíceis,
e controlar o capital de giro é essencial. Avaliar riscos e administrar
o capital de giro, nem grandes empresários sabem fazer isso até
hoje. Como em tudo na vida, é necessário
ter moderação nas horas devotadas ao videogame. Mas ele é
uma ótima forma de estimular o cérebro da criança e impedir
sua regressão sináptica, além de ensinar planejamento, paciência,
disciplina e raciocínio, algo que nem sempre se aprende numa sala de aula.
Stephen Kanitz é administrador
por Harvard (www.kanitz.com.br)
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