Edição 1926 . 12 de outubro de 2005

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O duplo estrago
do bispo-bomba

Dom Cappio embaralhou tanto
o projeto do São Francisco quanto
a doutrina católica sobre o suicídio

Os monges budistas que se opunham à presença dos Estados Unidos no Vietnã, nos anos 60, tiveram no suicídio sua arma. Eles surgiam de repente, em algum ponto de Saigon, a capital do então Vietnã do Sul, e formavam um círculo, com um deles no meio. Os que estavam em volta jogavam gasolina no do meio. Este sacava de um fósforo e ateava-se fogo. Os religiosos feitos línguas de fogo no meio da rua desempenharam papel decisivo na causa que levaria os americanos à derrota. Anos depois, o recurso ao suicídio foi retomado pelo Islã. Entraram na moda os homens-bomba que em nome de Alá se explodem em Israel e no Iraque, em Madri e em Londres. O grau de perversidade, na passagem de Buda para Maomé, aumentou esponencialmente. Os homens-bomba não se contentam em acabar com a própria vida, mas têm sua razão de ser em levar outros junto. A Igreja Católica fez seu ingresso no mundo do suicídio como instrumento de ação política nestes últimos dias, às margens do Rio São Francisco, na pessoa do bispo Luis Flávio Cappio.

Nada contra a causa do bispo. O arquivamento do projeto de transposição das águas do São Francisco, como queria dom Cappio, com a greve de fome "até a morte" que iniciou no dia 26, constitui-se, para o governo, na única saída possível para a encrenca em que se meteu. Há incertezas tanto quanto ao impacto ambiental da obra como quanto aos benefícios que ela se propõe a gerar. Num governo motivado pelo padrão Duda Mendonça de governança marqueteira, sobram razões para desconfiar de que motivos sobretudo propagandísticos e eleitoreiros conduziram à decisão de encetar, no semi-árido nordestino, uma empreitada que lembra alucinações faraônicas como a Transamazônica dos tempos do regime militar. Melhor para o governo, a essa altura, será dobrar o projeto, escondê-lo debaixo do braço e sair de fininho. E para isso o gesto de dom Cappio prestou bom serviço. Já quanto ao método... Pode um católico dar cabo à própria vida? Os suicidas, para a doutrina católica, são párias, a quem não se admite ser enterrados em cemitérios consagrados pela Igreja. Na Divina Comédia, de Dante, os suicidas, transformados em árvores, habitam o sétimo círculo do inferno, o mesmo reservado aos tiranos e assassinos.

A mensagem em que o bispo anunciou a decisão de fazer greve de fome "até a reversão" do projeto do governo balança entre o Altíssimo e a pragmática cartorial. Começa no Altíssimo, invocando "Jesus ressuscitado", e cede a detalhes como o de exigir do presidente da República um "documento assinado" revogando o projeto de transposição, ou como o de transcrever, abaixo da assinatura de dom Cappio, para bem assegurar os efeitos civis do documento, o número de seu RG (3.609.560) e o do CPF (291.828.835-72). O sagrado enlaçava-se à boa ordem tabeliã. A invocação às esferas sobrenaturais reforçava-se com a segurança das assinaturas e dos carimbos. Mais calculada busca de eficácia impossível. Ainda mais que se seguiu uma carta ao presidente Lula em que dom Cappio, depois de lhe expressar sua admiração, e de garantir que não havia em seu gesto nenhuma "atitude anti-Lula" (imagine-se se houvesse), passou-lhe o terrível recado, duro como um anátema: "Minha vida está em suas mãos". Não contente em enveredar pela trilha do suicídio, o bispo lançava a culpa em outro. Aos cuidados cartoriais com que revestiu a causa, acrescentava a arma insuperável da chantagem.

Dom Cappio provocou divisões na Igreja. O secretário-geral da CNBB, dom Odilo Scherer, considerou "moralmente inaceitável" a greve de fome. Mas dom Tomás Balduino, presidente da Comissão Pastoral da Terra, derreteu-se em elogios ao grevista da fome e seu "audacioso gesto", fruto de "heróica inspiração". O contra-ataque veio da parte do arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pagotto, que não só condenou a "atitude isolada" de dom Cappio, que "não se identifica com a opinião nem com a postura de muitos outros bispos brasileiros", como também – suprema heresia – se pôs ao lado do projeto do governo, a seu ver "uma bênção para o povo do semi-árido". Para quê? Dom Tomás Balduino respondeu com um tiro de canhão. Para ele, dom Pagotto abriga "o nefasto objetivo de dividir o episcopado brasileiro". E assim os bispos do Nordeste afundavam em bate-boca digno de CPI do Congresso.

Na quinta-feira, depois de receber uma carta do presidente Lula, entregue pessoalmente pelo ministro Jaques Wagner, dom Cappio suspendeu a greve de fome. O bispo-bomba ganhou a parada. O presidente não se comprometeu a arquivar o projeto, mas disse que ia "prolongar o diálogo", o que talvez signifique a mesma coisa. E assinou embaixo! Saiu perdendo a doutrina católica. Dom Cappio, dom Balduino e outros relativizaram a condenação que, até então, se supunha pairar sobre o suicídio. Quando a serviço de uma boa causa, vale. Espera-se que daqui para a frente os eclesiásticos que se filiam a essa linha de pensamento deixem de condenar a eutanásia e o aborto. Se o fizerem, incorrerão no pecado da hipocrisia.

 
 
 
 
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