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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
duplo estrago do bispo-bomba
Dom Cappio
embaralhou tanto o projeto do São Francisco quanto a
doutrina católica sobre o suicídio
Os monges budistas que se opunham à presença dos Estados Unidos
no Vietnã, nos anos 60, tiveram no suicídio sua arma. Eles surgiam
de repente, em algum ponto de Saigon, a capital do então Vietnã
do Sul, e formavam um círculo, com um deles no meio. Os que estavam em
volta jogavam gasolina no do meio. Este sacava de um fósforo e ateava-se
fogo. Os religiosos feitos línguas de fogo no meio da rua desempenharam
papel decisivo na causa que levaria os americanos à derrota. Anos depois,
o recurso ao suicídio foi retomado pelo Islã. Entraram na moda os
homens-bomba que em nome de Alá se explodem em Israel e no Iraque, em Madri
e em Londres. O grau de perversidade, na passagem de Buda para Maomé, aumentou
esponencialmente. Os homens-bomba não se contentam em acabar com a própria
vida, mas têm sua razão de ser em levar outros junto. A Igreja Católica
fez seu ingresso no mundo do suicídio como instrumento de ação
política nestes últimos dias, às margens do Rio São
Francisco, na pessoa do bispo Luis Flávio Cappio.
Nada contra a causa do bispo. O arquivamento do projeto de transposição
das águas do São Francisco, como queria dom Cappio, com a greve
de fome "até a morte" que iniciou no dia 26, constitui-se, para o governo,
na única saída possível para a encrenca em que se meteu.
Há incertezas tanto quanto ao impacto ambiental da obra como quanto aos
benefícios que ela se propõe a gerar. Num governo motivado pelo
padrão Duda Mendonça de governança marqueteira, sobram razões
para desconfiar de que motivos sobretudo propagandísticos e eleitoreiros
conduziram à decisão de encetar, no semi-árido nordestino,
uma empreitada que lembra alucinações faraônicas como a Transamazônica
dos tempos do regime militar. Melhor para o governo, a essa altura, será
dobrar o projeto, escondê-lo debaixo do braço e sair de fininho.
E para isso o gesto de dom Cappio prestou bom serviço. Já quanto
ao método... Pode um católico dar cabo à própria vida?
Os suicidas, para a doutrina católica, são párias, a quem
não se admite ser enterrados em cemitérios consagrados pela Igreja.
Na Divina Comédia, de Dante, os suicidas, transformados em árvores,
habitam o sétimo círculo do inferno, o mesmo reservado aos tiranos
e assassinos. A mensagem em que o bispo anunciou
a decisão de fazer greve de fome "até a reversão" do projeto
do governo balança entre o Altíssimo e a pragmática cartorial.
Começa no Altíssimo, invocando "Jesus ressuscitado", e cede a detalhes
como o de exigir do presidente da República um "documento assinado" revogando
o projeto de transposição, ou como o de transcrever, abaixo da assinatura
de dom Cappio, para bem assegurar os efeitos civis do documento, o número
de seu RG (3.609.560) e o do CPF (291.828.835-72). O sagrado enlaçava-se
à boa ordem tabeliã. A invocação às esferas
sobrenaturais reforçava-se com a segurança das assinaturas e dos
carimbos. Mais calculada busca de eficácia impossível. Ainda mais
que se seguiu uma carta ao presidente Lula em que dom Cappio, depois de lhe expressar
sua admiração, e de garantir que não havia em seu gesto nenhuma
"atitude anti-Lula" (imagine-se se houvesse), passou-lhe o terrível recado,
duro como um anátema: "Minha vida está em suas mãos". Não
contente em enveredar pela trilha do suicídio, o bispo lançava a
culpa em outro. Aos cuidados cartoriais com que revestiu a causa, acrescentava
a arma insuperável da chantagem. Dom Cappio
provocou divisões na Igreja. O secretário-geral da CNBB, dom Odilo
Scherer, considerou "moralmente inaceitável" a greve de fome. Mas dom Tomás
Balduino, presidente da Comissão Pastoral da Terra, derreteu-se em elogios
ao grevista da fome e seu "audacioso gesto", fruto de "heróica inspiração".
O contra-ataque veio da parte do arcebispo da Paraíba, dom Aldo Pagotto,
que não só condenou a "atitude isolada" de dom Cappio, que "não
se identifica com a opinião nem com a postura de muitos outros bispos brasileiros",
como também suprema heresia se pôs ao lado do projeto
do governo, a seu ver "uma bênção para o povo do semi-árido".
Para quê? Dom Tomás Balduino respondeu com um tiro de canhão.
Para ele, dom Pagotto abriga "o nefasto objetivo de dividir o episcopado brasileiro".
E assim os bispos do Nordeste afundavam em bate-boca digno de CPI do Congresso.
Na quinta-feira, depois de receber uma carta do
presidente Lula, entregue pessoalmente pelo ministro Jaques Wagner, dom Cappio
suspendeu a greve de fome. O bispo-bomba ganhou a parada. O presidente não
se comprometeu a arquivar o projeto, mas disse que ia "prolongar o diálogo",
o que talvez signifique a mesma coisa. E assinou embaixo! Saiu perdendo a doutrina
católica. Dom Cappio, dom Balduino e outros relativizaram a condenação
que, até então, se supunha pairar sobre o suicídio. Quando
a serviço de uma boa causa, vale. Espera-se que daqui para a frente os
eclesiásticos que se filiam a essa linha de pensamento deixem de condenar
a eutanásia e o aborto. Se o fizerem, incorrerão no pecado da hipocrisia.
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