|
|
Livros Nascidos
para morrer Romance de Kazuo Ishiguro fala de
um mundo em que clones são gerados para doar órgãos  Jerônimo
Teixeira
 | |
Kazuo Ishiguro, de 50 anos,
celebrizou-se com Os Resíduos do Dia, romance ganhador do prêmio
Booker de 1989. Era uma história intimista sobre um mordomo que desperdiça
a vida a serviço de um lorde inglês. A obra encaixava-se numa comportada
tradição realista britânica pense em Jane Austen, em
Thomas Hardy, em Henry James (não importa que este seja americano de nascimento:
o próprio Ishiguro é natural de Nagasaki, no Japão). Parecerá
estranho que um autor tão "refinado" agora invista num gênero popularesco
como a ficção científica. Mas foi isso que ocorreu: os personagens
centrais de Não Me Abandone Jamais (tradução
de Beth Vieira; Companhia das Letras; 344 páginas; 45 reais) são
todos clones. "O clone abre possibilidades ricas para a ficção",
disse o autor a VEJA. "É uma nova maneira de levantar velhas perguntas
sobre a alma humana." Não se espere, portanto, que os personagens de Ishiguro
tenham poderes extra-sensoriais ou força sobre-humana: essa é uma
ficção científica discreta, em tom menor. Os clones, aliás,
têm muito em comum com o mordomo de Os Resíduos do Dia: também
chegam ao fim da vida com a sensação de tê-la desperdiçado.
A história tem como centro uma instituição
tipicamente inglesa: a escola interna. A narradora, Kathy, guarda lembranças
doces de Hailsham, o internato onde passou a infância e a adolescência
ao lado dos amigos Ruth e Tommy. A palavra "clone" figura poucas vezes no livro
e só aparece lá pelo meio da narrativa. Mesmo assim, desde a primeira
página fica marcada a sensação de que Hailsham não
é uma escola comum. Os professores são chamados de "guardiões"
e os estudantes são preparados para se tornar "doadores" na vida adulta.
É evidente que a doação em causa só pode ser de órgãos:
os alunos de Hailsham estão destinados a morrer na mesa de cirurgia para
oferecer a cura às pessoas "normais". A expectativa de vida deles fica
em torno de 30 anos.
Mike
Segar/Reuters
 | | Ishiguro:
"Não criamos clones, mas já existe mercado de órgãos"
|
Uma nota no início do romance
localiza a ação na Inglaterra, no fim dos anos 90. É um mundo
alternativo, no qual os avanços que só recentemente a biotecnologia
alcançou começaram a aparecer logo depois da II Guerra. Não
se trata de uma distopia à la Admirável Mundo Novo. "De certo
modo, já vivemos em um mundo como o descrito na minha obra: ainda não
criamos clones, mas já existe um mercado negro mundial de órgãos",
diz Ishiguro. O livro não se demora na descrição dessa sociedade
que replica seres humanos para o abate. Ishiguro está mais preocupado com
o mundo íntimo do conflituoso triângulo amoroso formado por Kathy,
Ruth e Tommy suas justificadas angústias e suas esperanças
irreais em relação ao futuro.
O efeito
estético de Não Me Abandone Jamais repousa numa dissonância
bem cultivada: o fato de que os personagens estão desde o início
destinados a ser bancos de órgãos nunca se apresenta como aquilo
que é uma monstruosidade. O método narrativo de Ishiguro
é de uma sutileza excruciante as realidades mais duras sempre acobertadas
por eufemismos e subentendidos. Fala-se muito nas "doações" dos
diferentes personagens, mas nunca se informa que órgãos são
retirados a cada operação. A narrativa, aliás, perde força
quando abandona o meio-tom para dar explicações o momento
em que Kathy e Tommy confrontam os administradores de Hailsham em busca de respostas
é seu ponto baixo. O mais perturbador no
livro é a submissão dos personagens. A idéia de fugir ou
se revoltar nunca ocorre a nenhum deles. Ishiguro diz que quis escapar do esquema
básico de filmes como A Ilha: o clone como uma versão moderna
do escravo rebelde. "Eu queria que os clones representassem a impossibilidade
humana de escapar de seu destino, a morte", diz. Em certa medida, a condição
dos clones é mais simples: eles sabem por que foram colocados no mundo
e o que esse mundo espera deles. Não Me Abandone Jamais, a despeito
da melancolia de seus personagens, oferece algum consolo ao leitor: suas dúvidas
existenciais serão sempre preferíveis às tristes certezas
de um clone. |