Edição 1926 . 12 de outubro de 2005

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Livros
Nascidos para morrer

Romance de Kazuo Ishiguro fala
de um mundo em que clones são
gerados para doar órgãos


Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

Kazuo Ishiguro, de 50 anos, celebrizou-se com Os Resíduos do Dia, romance ganhador do prêmio Booker de 1989. Era uma história intimista sobre um mordomo que desperdiça a vida a serviço de um lorde inglês. A obra encaixava-se numa comportada tradição realista britânica – pense em Jane Austen, em Thomas Hardy, em Henry James (não importa que este seja americano de nascimento: o próprio Ishiguro é natural de Nagasaki, no Japão). Parecerá estranho que um autor tão "refinado" agora invista num gênero popularesco como a ficção científica. Mas foi isso que ocorreu: os personagens centrais de Não Me Abandone Jamais (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras; 344 páginas; 45 reais) são todos clones. "O clone abre possibilidades ricas para a ficção", disse o autor a VEJA. "É uma nova maneira de levantar velhas perguntas sobre a alma humana." Não se espere, portanto, que os personagens de Ishiguro tenham poderes extra-sensoriais ou força sobre-humana: essa é uma ficção científica discreta, em tom menor. Os clones, aliás, têm muito em comum com o mordomo de Os Resíduos do Dia: também chegam ao fim da vida com a sensação de tê-la desperdiçado.

A história tem como centro uma instituição tipicamente inglesa: a escola interna. A narradora, Kathy, guarda lembranças doces de Hailsham, o internato onde passou a infância e a adolescência ao lado dos amigos Ruth e Tommy. A palavra "clone" figura poucas vezes no livro e só aparece lá pelo meio da narrativa. Mesmo assim, desde a primeira página fica marcada a sensação de que Hailsham não é uma escola comum. Os professores são chamados de "guardiões" e os estudantes são preparados para se tornar "doadores" na vida adulta. É evidente que a doação em causa só pode ser de órgãos: os alunos de Hailsham estão destinados a morrer na mesa de cirurgia para oferecer a cura às pessoas "normais". A expectativa de vida deles fica em torno de 30 anos.

Mike Segar/Reuters
Ishiguro: "Não criamos clones, mas já existe mercado de órgãos"


Uma nota no início do romance localiza a ação na Inglaterra, no fim dos anos 90. É um mundo alternativo, no qual os avanços que só recentemente a biotecnologia alcançou começaram a aparecer logo depois da II Guerra. Não se trata de uma distopia à la Admirável Mundo Novo. "De certo modo, já vivemos em um mundo como o descrito na minha obra: ainda não criamos clones, mas já existe um mercado negro mundial de órgãos", diz Ishiguro. O livro não se demora na descrição dessa sociedade que replica seres humanos para o abate. Ishiguro está mais preocupado com o mundo íntimo do conflituoso triângulo amoroso formado por Kathy, Ruth e Tommy – suas justificadas angústias e suas esperanças irreais em relação ao futuro.

O efeito estético de Não Me Abandone Jamais repousa numa dissonância bem cultivada: o fato de que os personagens estão desde o início destinados a ser bancos de órgãos nunca se apresenta como aquilo que é – uma monstruosidade. O método narrativo de Ishiguro é de uma sutileza excruciante – as realidades mais duras sempre acobertadas por eufemismos e subentendidos. Fala-se muito nas "doações" dos diferentes personagens, mas nunca se informa que órgãos são retirados a cada operação. A narrativa, aliás, perde força quando abandona o meio-tom para dar explicações – o momento em que Kathy e Tommy confrontam os administradores de Hailsham em busca de respostas é seu ponto baixo.

O mais perturbador no livro é a submissão dos personagens. A idéia de fugir ou se revoltar nunca ocorre a nenhum deles. Ishiguro diz que quis escapar do esquema básico de filmes como A Ilha: o clone como uma versão moderna do escravo rebelde. "Eu queria que os clones representassem a impossibilidade humana de escapar de seu destino, a morte", diz. Em certa medida, a condição dos clones é mais simples: eles sabem por que foram colocados no mundo e o que esse mundo espera deles. Não Me Abandone Jamais, a despeito da melancolia de seus personagens, oferece algum consolo ao leitor: suas dúvidas existenciais serão sempre preferíveis às tristes certezas de um clone.

 
 
 
 
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