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Brasil Um
rio de dúvidas O governo se prepara
para se lançar em uma obra faraônica no São Francisco
cuja utilidade divide os especialistas  Ronaldo
França
"O São Francisco é um
erro da natureza", sustentava o ensaísta gaúcho Clodomir Vianna
Moog (1906-1988), para quem, se corresse de oeste para leste, o rio da integração
nacional teria realmente merecido esse nome. Correndo de sul a norte, paralelo
à costa, o São Francisco foi, na visão de Moog, mais uma
barreira para a interiorização do progresso do que uma via de escoamento
de riquezas. Eis um bom ponto do hoje quase esquecido escritor, que ocupou a cadeira
número 4 da Academia Brasileira de Letras uma pesquisa no Google
mostra que o escritor concorre em verbetes com a banda de rock Viana Moog. Sinal
dos tempos. Vianna Moog, o escritor, saiu de moda, mas o São Francisco
voltou às paradas. O governo aguarda apenas a última etapa do licenciamento
ambiental para ligar os tratores e começar o projeto de transposição
do Rio São Francisco, apontado, há um século e meio, como
solução para as secas do Nordeste.
Resolvidos todos os impasses jurídicos e messiânicos (veja
a reportagem anterior), estará tudo pronto para o início.
Nos últimos quatro meses, no entanto, cresceram contra a concretização
do projeto barreiras tão ou mais intransponíveis do que as dúvidas
técnicas que pairam sobre ele. As questões técnicas são
de monta. A transposição pode ser a maior obra de infra-estrutura
brasileira desde a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu,
na década de 80. A obra de transposição consiste na construção
dos dois canais de concreto que atravessarão, ao todo, 703 quilômetros
de sertão. Na maior parte de sua extensão, terão 25 metros
de largura por 5 de profundidade. A água será bombeada até
chegar aos rios e, de lá, aos açudes. No caminho, terá de
vencer morros e cortar o sertão em dois grandes eixos: o norte partirá
da cidade de Cabrobó, em Pernambuco, e, depois de vencer 180 metros de
altura na Chapada do Araripe, levará a água até os rios que
chegam a Fortaleza, abastecendo açudes e reservatórios pelo caminho.
O eixo leste começará na barragem de Itaparica, na divisa da Bahia
com Pernambuco, e subirá a uma altitude de 500 metros.
O semi-árido nordestino tem características únicas no mundo
que o tornam refém das secas, que ocorrem a intervalos de dez anos. Mesmo
nos períodos chuvosos, a água é rara em boa parte da região.
Na média anual, chove no sertão brasileiro mais do que em Paris,
Londres ou Roma, por exemplo. É quase a metade do que chove em São
Paulo, onde os efeitos das tempestades são conhecidos. É muita água.
Mas as chuvas são mal distribuídas. Caem torrencialmente por apenas
três ou quatro meses e param no resto do ano. Como o subsolo é rochoso
em boa parte da região, a chuva é impedida de penetrar na terra,
o que a faz correr direto para o mar. O calor intenso e os ventos fortes quase
o ano inteiro provocam a evaporação da água que sobrou nos
açudes e nas barragens. Não
se discute, portanto, a necessidade de resolver o problema de abastecimento do
semi-árido. A questão é se o projeto proposto funciona. Embora
o Ministério da Integração Nacional tenha feito uma série
de palestras, ainda restam dúvidas fundamentais entre alguns dos cientistas
e engenheiros mais respeitados do país. "O regime de chuvas no Nordeste
seco é coincidente com o do baixo e médio São Francisco,
quando ele atravessa a caatinga. Como vai ser possível jogar mais água
no semi-árido quando ela estaria mais escassa?", questiona o geógrafo
Aziz Ab'Saber, um dos mais prestigiados cientistas do país. "Não
está claro quais serão os reais beneficiários desse projeto.
Se a sociedade brasileira vai fazer esse investimento, e ele terá, em grande
parte, finalidade econômica, é preciso ver quem vai ganhar com isso
e de que forma vai pagar por isso", afirma Carlos Morelli Tucci, professor titular
do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. Há outras dúvidas,
inclusive sobre o risco de prejudicar o abastecimento de energia elétrica
no caso de uma seca como a que ocorreu em 2001, quando a barragem de Sobradinho
chegou a apenas 7% de sua capacidade. Outra questão no centro da polêmica
é o impacto ambiental na própria bacia do rio. Estudou-se o impacto
sobre a região onde vão passar os canais, mas não se sabe
o que acontecerá na própria bacia do São Francisco quando
houver a ligação com outras bacias hidrográficas. Essa foi
uma das razões pelas quais a juíza da 14ª Vara Cível
da Justiça Federal de Salvador concedeu uma liminar, na semana passada,
suspendendo os efeitos do processo de licenciamento. "Não há impacto
algum na bacia. A quantidade de água a ser retirada é ínfima",
afirma o coordenador do projeto, Pedro Brito. No entanto, os órgãos
competentes ainda não atestaram isso.
Uma questão ainda sem solução diz respeito ao pacto entre
os estados que receberão a água e os que a doarão
ou seja, aqueles por onde o leito do rio se estende hoje. Quanto maior o impacto,
maiores devem ser as compensações, mas esse assunto está
longe de ser resolvido. A oposição política, que já
era grande, aumentou na semana passada, quando o governador Ronaldo Lessa, de
Alagoas, retirou seu apoio ao projeto por não ver atendidas suas precondições.
O governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, não admite publicamente,
mas, embora tenha assinado um termo de compromisso com o governo federal, se mostra
contra o projeto nas conversas reservadas.
A desconfiança se estende a alguns números fundamentais. O governo
tem dito que o total de água a ser retirado é de apenas 1,4% da
vazão média do rio, o que é verdade e é pouco, se
comparado ao de outras transposições. A cidade de São Paulo,
por exemplo, consome 78% da água do Rio Piracicaba, que corre na região
de Campinas. O Rio de Janeiro fica com 63% da água do Rio Paraíba
do Sul. E, nesses casos, não há danos significativos. O que está
em xeque é a forma de analisar esse número. Os 65 metros cúbicos
de água por segundo que, em média, serão retirados do rio
correspondem a 25% do total permitido pela Agência Nacional de Águas.
O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco,
José Carlos Carvalho, aponta a existência de estudos segundo os quais
esse volume de água, se retirado, impedirá o desenvolvimento de
municípios localizados na própria bacia do rio. Mais uma razão
de desconfiança que deverá ser sanada antes da obra. Some-se a todas
as dúvidas técnicas a suspeição que paira sobre o
tratamento dado ao dinheiro público pelo atual governo e o que se tem é
a necessidade urgente de reavaliar a oportunidade desse projeto. Fernando
Vivas
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Represa de Sobradinho, em 2001, com 7% de sua capacidade: risco de faltar energia
elétrica |
Não
menos poderosa é a barreira da credibilidade do projeto. Pesa muito a revelação
de que integrantes do primeiro escalão do atual governo e do partido que
o sustenta, o PT, promoveram ou fizeram vista grossa a uma farra de irregularidades
sem precedentes na história brasileira. Quando a transposição
está mais perto de acontecer, o governo que a conduz talvez tenha perdido
a credibilidade necessária para levar adiante uma obra orçada em
4,5 bilhões de reais. O constrangimento se dá principalmente porque
ela estará sendo executada no auge do período eleitoral, quando
o calor da disputa pelos votos torna ainda mais insaciáveis os sempre vorazes
caixas de campanha. "A obra tem um sentido eleitoral e econômico. É
muito perigoso fazê-la em ano de eleições. Um governo sob
suspeita deveria, pelo menos, estar submetido a mecanismos adicionais de controle",
afirma o deputado Fernando Gabeira, do PV.
Não é uma preocupação sem sentido, como demonstra
a torrente de suspeitas acumuladas nos últimos meses, muitas delas já
comprovadas. A obra envolve números estratosféricos na contratação
de empreiteiras, compra de máquinas, apólices de seguro e tudo o
que monta o velho arsenal das chamadas "operações não contabilizadas",
para usar o termo com que o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares se refere
ao caixa dois das campanhas eleitorais. Toda vigilância é pouca para
que a obra não venha a ser um dia conhecida como uma formidável
operação de transposição de verbas. |