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Brasil
Greve do barulho
Bispo fica sem comer, atrai muita
atenção e nenhum resultado,
mas faz o país se lembrar
de seus grotões pobres

Julia Duailibi, de Cabrobó
Jamil Bittar/Reuters
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| O bispo, à beira do São Francisco:
o fim do jejum veio com base em promessas aéreas e vagas
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A greve de fome do bispo Luiz Flávio
Cappio, de 59 anos, durou dez dias, custou-lhe 4 quilos, rendeu-lhe
uma notável popularidade e não produziu resultado
algum. No dia 26 de setembro, dom Cappio começou a greve
de fome com o objetivo de impedir o início das obras de transposição
do Rio São Francisco, empreitada de 4,5 bilhões de
reais em torno da qual gira um imenso carrossel de dúvidas
quanto à sua viabilidade (veja
reportagem). Na quinta-feira passada, depois de negociar
durante cinco horas com o ministro Jaques Wagner, que se deslocou
até a zona rural de Cabrobó, no sertão pernambucano,
para negociar o fim da greve de fome, dom Cappio encerrou seu protesto
com as mãos abanando. O governo prometeu liberar 300 milhões
de reais por ano para revitalizar o São Francisco, ofereceu
ao bispo uma audiência com o presidente Lula e, indo ao ponto
central, disse que vai "prolongar o debate" sobre a obra, sem dar
nenhuma garantia de que adiará seu início. A greve
de dom Cappio não serviu para nada. Ou quase nada: no fundo,
voltou a lembrar o país da existência dos grotões
de miséria, desesperança e ilusões míticas.
A comunidade em que dom Cappio fez sua greve
de fome é paupérrima. Ele passou os dias de jejum
dentro de uma modesta capela, encravada num sítio cuja casa
não tem água encanada nem esgoto e cujo piso é
de terra batida. A capela fica a uns 300 metros da beira do São
Francisco, cujas águas, embora resplandecentemente azuis,
exalam um odor de urina. Em apenas dez dias, em razão de
seu gesto, o bispo Cappio passou a ser alvo do fervor religioso,
que naquelas bandas é sempre muito ativo o que muda
é o santo. Os habitantes locais começaram a compará-lo
ao padre Cícero, o grande mito religioso do Nordeste. "Ele
é santo. Vim aqui para me abençoar", disse Maria da
América da Silva, 74 anos, referindo-se ao bispo em greve
de fome. "Bem que padinho Ciço avisou para tomar cuidado
que o rio ia dar cacimba", diz Isaura Pereira da Silva, 67 anos,
fazendo uso da expressão "dar cacimba" que significa
virar um laguinho. A rotina do lugar foi subitamente quebrada pela
greve, com a atração de emissoras de televisão,
romaria de devotos e de políticos em busca de exposição,
jornalistas e helicópteros...
Xando Pereira/AE
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| O povo: o bispo "é um santo" |
Na região em torno da capela do bispo,
Cabrobó virou uma atração. As moças,
perfumadas, com batom nos lábios e sapatos de saltos altos,
indiferentes à poeira alaranjada do sertão, apareciam
nas redondezas para paquerar. Ou, como diz Lucineide Gonçalves,
22 anos, para "ver gente". As crianças, com suas roupas de
domingo, eram levadas por parentes e corriam, brincavam, choravam,
na algazarra amena das aglomerações em que todos conhecem
todos. Com pouco mais de 20 000 habitantes, a cidadezinha de Cabrobó
só viu tempos movimentados assim entre 1999 e 2000, período
em que agentes da Polícia Federal executaram a operação
para combater as vastas plantações de maconha da região.
Era uma época, porém, em que Cabrobó, dizem
os moradores, só aparecia na televisão como "coisa
ruim". Agora, não. "Quando acabar isso tudo, vai ser é
triste demais", dizia Benildo Pereira da Silva, 27 anos, pouco antes
da notícia de que o bispo suspendera a greve de fome. "Eu
acho que aqui vai virar um ponto turístico", dizia, otimista,
Leonilda Farias, 29 anos, estudante de matemática.
A greve de fome do bispo Cappio, embora não
tenha resultado em nada, acabou sendo um bom negócio para
todos. O governo vendeu uma imagem de tolerante, ainda que não
tenha selado nenhum compromisso claro. O bispo deu uma reforçada
em sua aura de santidade, por oferecer a vida pelo rio e pelas populações
ribeirinhas que vivem dele. E a cidade de Cabrobó teve com
que se divertir durante quase duas semanas. Na quinta-feira à
tarde, quando anunciou o fim da greve, Cappio foi aplaudido pelos
presentes. Para comunicar sua desistência, o bispo, homem
vaidoso e consciente do espetáculo que protagonizava, pegou
um microfone e leu sua decisão para o povo. Disse que acreditava
na proposta do presidente Lula, de adiar o início das obras.
Ao fim, talvez açoitado pela dúvida, arrematou: "Se
acontecer isso (se Lula não cumprir a promessa de revitalizar
o rio antes de iniciar as obras), eu volto para Cabrobó".
Certo. O show não pode parar.
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