Edição 1926 . 12 de outubro de 2005

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Brasil
Saga dos alvos mutantes

Agora, Lula tenta desprezar as denúncias,
mas é tamanha sua mudança de foco que
até os áulicos têm dificuldade de saber
em que Lula acredita


Otávio Cabral

 

Hélvio Romero/AE
O presidente: Helmut Kohl e Bettino Craxi tiveram um pouco mais de compostura

O presidente da República entrou numa nova fase na semana passada. Depois de incorporar em público figurinos tão díspares quanto o do líder autista, alheio à crise e a seus desdobramentos, e o da autoridade diligente, fiadora de investigações rigorosas e punições exemplares "doa a quem doer", o presidente Lula deu agora para desdenhar das denúncias que sangram seu governo. Entusiasmado com a trégua de novas acusações, e fortalecido pela eleição do deputado Aldo Rebelo ao comando da Câmara, Lula abriu uma temporada de declarações depreciativas. Primeiro, ao falar a empresários paulistas, disse que o país ficara à deriva do "denuncismo" por "quatro ou cinco meses". Depois, ironizou o trabalho da CPI dos Bingos, dizendo que nunca convocara "um bingueiro". Nesse caso, o presidente estava irritado com o fato de que a CPI chamara seu secretário Gilberto Carvalho para uma acareação sobre o assassinato do prefeito de Santo André. No outro caso, mais grave, Lula aderiu ao coro dos que pelejam para fabricar na opinião pública a impressão de que todas as denúncias são infundadas e as motivações dos investigadores – CPI, polícia, imprensa – são espúrias.

É natural que um presidente acossado por suspeitas, como tem acontecido com Lula, tente defender a si mesmo e a seu governo – mas é raro que, nesse afã, saia atirando contra instituições cuja missão é justamente investigar. Nas democracias mais sólidas, os chefes de governo, mesmo aqueles enlameados por suspeitas de corrupção, tendem a ter mais compostura. Helmut Kohl, ex-chanceler alemão, foi acusado de receber ilegalmente 1 milhão de dólares para seu partido e enfrentou as investigações fazendo tudo para provar sua inocência – em vão, ao final –, mas sem jamais desmerecer quem o investigava. Até Bettino Craxi, o ex-primeiro-ministro da Itália pilhado num monumental esquema de corrupção, esperneou quanto pôde se dizendo vítima de perseguição política e fugindo depois para a Tunísia, onde morreu, mas nunca acusou aqueles encarregados de investigá-lo. Aqui, é diferente. E olha que as "denúncias infundadas" já ceifaram a cabeça de um ministro, nove funcionários do governo e catorze executivos de estatais, além de ameaçar dezesseis deputados de cassação, fora um que já foi cassado e outros três que renunciaram...

Ed Ferreira/AE
Wagner e Bastos: será que esse cochicho é sobre o caixa dois?


Ao procurar desmoralizar denúncias e investigações, embora tenha, em outro momento, prometido apurações rigorosas, o presidente Lula provoca uma desorientação na opinião pública, tal a sua oscilação de foco. Afinal, no que o presidente realmente acredita? Acredita, como ele próprio já disse, que as denúncias são motivadas por preconceito da elite, que conspira para derrubá-lo? Ou acredita, como ele também já disse, que foi traído pelos próprios companheiros? Ou, como diz agora, que as denúncias são levianas e tudo não passa de jogo político? "Se eu fosse caridoso, diria que a mudança nos discursos de Lula é uma técnica de controle da opinião pública, comum na política, praticada com maior ou menor competência, dependendo do governante", analisa o filósofo Roberto Romano, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Como não sou caridoso, digo que Lula é um mestre da demagogia populista, da arte de arengar. Ele muda seu discurso na tentativa de desviar as pessoas da realidade."

A nova estratégia do desdém começou a ser posta em prática na semana passada, mas o presidente Lula não foi seu único ativista. Houve outros, dentro e fora do governo. O ministro Jaques Wagner, das Relações Institucionais, querendo aliviar a culpa do PT, que comprovadamente mantinha um caixa com dinheiro clandestino, disse que caixa dois é algo inofensivo como "jogo do bicho" ou "dólar paralelo". Esqueceu-se de combinar com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que antes dissera que caixa dois é coisa de "bandidos". O ministro da Justiça também apresentou uma criação de sua própria lavra para desacreditar as denúncias. Disse que a Polícia Federal já está investigando um "comércio da delação premiada", pelo qual advogados estimulariam seus clientes a superfaturar acusações em troca de redução de pena. A única suspeita de "comércio" da qual o ministro se lembrou foi o caso do doleiro Toninho da Barcelona, que – coincidentemente – acusou o próprio ministro. Em tempo: a Polícia Federal, desmentindo o ministro, informa que não há investigação sobre o assunto. Há apenas uma pesquisa – procedimento estranho à rotina da polícia – sobre casos de delação premiada no país.

Fora do governo, mas em seu auxílio, apareceu o presidente do Senado, Renan Calheiros, para dizer que as CPIs estariam "patinando" e "sem foco". Até o deputado José Dirceu, aquele que está "cada vez mais convencido" da própria inocência, resolveu pontificar, dizendo que as "CPIs perderam o foco" – e o mais espantoso, além da ironia de seu diagnóstico, é o fato de Dirceu supor que está autorizado a mudar de lugar no meio do jogo, trocando o banco dos réus pela cadeira dos jurados... O ex-ministro Tarso Genro é outro que enveredou para o caminho da crítica às CPIs na semana passada. Disse que haverá fundadas suspeitas de que as CPIs estão fazendo corpo mole caso não investiguem a origem do dinheiro que irrigou o valerioduto. Ora, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares jura que o dinheiro veio dos tais empréstimos contraídos por Marcos Valério nos bancos BMG e Rural. Ninguém acredita nisso, e agora se descobre que nem Tarso Genro acredita, mas é bom lembrá-lo, ele que cobra tanto resultado das CPIs, de que Delúbio Soares – o mentiroso, certo? – ainda não foi nem expulso do PT. Tarso Genro preside o PT.

 

 

 
 
 
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