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Brasil Saga
dos alvos mutantes Agora, Lula tenta
desprezar as denúncias, mas é tamanha sua mudança de
foco que até os áulicos têm dificuldade de saber em
que Lula acredita  Otávio
Cabral Hélvio
Romero/AE
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presidente: Helmut Kohl e Bettino Craxi tiveram um pouco mais de compostura |
O
presidente da República entrou numa nova fase na semana passada. Depois
de incorporar em público figurinos tão díspares quanto o
do líder autista, alheio à crise e a seus desdobramentos, e o da
autoridade diligente, fiadora de investigações rigorosas e punições
exemplares "doa a quem doer", o presidente Lula deu agora para desdenhar das denúncias
que sangram seu governo. Entusiasmado com a trégua de novas acusações,
e fortalecido pela eleição do deputado Aldo Rebelo ao comando da
Câmara, Lula abriu uma temporada de declarações depreciativas.
Primeiro, ao falar a empresários paulistas, disse que o país ficara
à deriva do "denuncismo" por "quatro ou cinco meses". Depois, ironizou
o trabalho da CPI dos Bingos, dizendo que nunca convocara "um bingueiro". Nesse
caso, o presidente estava irritado com o fato de que a CPI chamara seu secretário
Gilberto Carvalho para uma acareação sobre o assassinato do prefeito
de Santo André. No outro caso, mais grave, Lula aderiu ao coro dos que
pelejam para fabricar na opinião pública a impressão de que
todas as denúncias são infundadas e as motivações
dos investigadores CPI, polícia, imprensa são espúrias.
É natural que um presidente
acossado por suspeitas, como tem acontecido com Lula, tente defender a si mesmo
e a seu governo mas é raro que, nesse afã, saia atirando
contra instituições cuja missão é justamente investigar.
Nas democracias mais sólidas, os chefes de governo, mesmo aqueles enlameados
por suspeitas de corrupção, tendem a ter mais compostura. Helmut
Kohl, ex-chanceler alemão, foi acusado de receber ilegalmente 1 milhão
de dólares para seu partido e enfrentou as investigações
fazendo tudo para provar sua inocência em vão, ao final ,
mas sem jamais desmerecer quem o investigava. Até Bettino Craxi, o ex-primeiro-ministro
da Itália pilhado num monumental esquema de corrupção, esperneou
quanto pôde se dizendo vítima de perseguição política
e fugindo depois para a Tunísia, onde morreu, mas nunca acusou aqueles
encarregados de investigá-lo. Aqui, é diferente. E olha que as "denúncias
infundadas" já ceifaram a cabeça de um ministro, nove funcionários
do governo e catorze executivos de estatais, além de ameaçar dezesseis
deputados de cassação, fora um que já foi cassado e outros
três que renunciaram...
Ed
Ferreira/AE
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e Bastos: será que esse cochicho é sobre o caixa dois? |
Ao
procurar desmoralizar denúncias e investigações, embora tenha,
em outro momento, prometido apurações rigorosas, o presidente Lula
provoca uma desorientação na opinião pública, tal
a sua oscilação de foco. Afinal, no que o presidente realmente acredita?
Acredita, como ele próprio já disse, que as denúncias são
motivadas por preconceito da elite, que conspira para derrubá-lo? Ou acredita,
como ele também já disse, que foi traído pelos próprios
companheiros? Ou, como diz agora, que as denúncias são levianas
e tudo não passa de jogo político? "Se eu fosse caridoso, diria
que a mudança nos discursos de Lula é uma técnica de controle
da opinião pública, comum na política, praticada com maior
ou menor competência, dependendo do governante", analisa o filósofo
Roberto Romano, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Como
não sou caridoso, digo que Lula é um mestre da demagogia populista,
da arte de arengar. Ele muda seu discurso na tentativa de desviar as pessoas da
realidade."
A nova estratégia
do desdém começou a ser posta em prática na semana passada,
mas o presidente Lula não foi seu único ativista. Houve outros,
dentro e fora do governo. O ministro Jaques Wagner, das Relações
Institucionais, querendo aliviar a culpa do PT, que comprovadamente mantinha um
caixa com dinheiro clandestino, disse que caixa dois é algo inofensivo
como "jogo do bicho" ou "dólar paralelo". Esqueceu-se de combinar com o
ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que antes dissera que
caixa dois é coisa de "bandidos". O ministro da Justiça também
apresentou uma criação de sua própria lavra para desacreditar
as denúncias. Disse que a Polícia Federal já está
investigando um "comércio da delação premiada", pelo qual
advogados estimulariam seus clientes a superfaturar acusações em
troca de redução de pena. A única suspeita de "comércio"
da qual o ministro se lembrou foi o caso do doleiro Toninho da Barcelona, que
coincidentemente acusou o próprio ministro. Em tempo: a Polícia
Federal, desmentindo o ministro, informa que não há investigação
sobre o assunto. Há apenas uma pesquisa procedimento estranho à
rotina da polícia sobre casos de delação premiada
no país. Fora do governo, mas
em seu auxílio, apareceu o presidente do Senado, Renan Calheiros, para
dizer que as CPIs estariam "patinando" e "sem foco". Até o deputado José
Dirceu, aquele que está "cada vez mais convencido" da própria inocência,
resolveu pontificar, dizendo que as "CPIs perderam o foco" e o mais espantoso,
além da ironia de seu diagnóstico, é o fato de Dirceu supor
que está autorizado a mudar de lugar no meio do jogo, trocando o banco
dos réus pela cadeira dos jurados... O ex-ministro Tarso Genro é
outro que enveredou para o caminho da crítica às CPIs na semana
passada. Disse que haverá fundadas suspeitas de que as CPIs estão
fazendo corpo mole caso não investiguem a origem do dinheiro que irrigou
o valerioduto. Ora, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares jura que o dinheiro
veio dos tais empréstimos contraídos por Marcos Valério nos
bancos BMG e Rural. Ninguém acredita nisso, e agora se descobre que nem
Tarso Genro acredita, mas é bom lembrá-lo, ele que cobra tanto resultado
das CPIs, de que Delúbio Soares o mentiroso, certo? ainda
não foi nem expulso do PT. Tarso Genro preside o PT. |