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Entrevista: Hebe
Camargo A rainha do palpite A
apresentadora conta como é envelhecer na frente das câmeras.
E dá suas opiniões sobre tudo e sobre todos 
Ricardo Valladares
| Antonio Milena  | "Outro
problema é a vida sexual. No momento, ela não existe. Hoje, tudo
o que faço é dormir com um travesseiro que tem um braço.
Eu abraço o travesseiro e ele me abraça" | |
A apresentadora Hebe Camargo, de 76
anos, é um verbete inescapável da história da TV brasileira.
No ar há 55 anos desde os primórdios do meio , ela
estabeleceu laços de fidelidade incomuns com o espectador. Figura exuberante
capaz de desconcertar um entrevistado ao se deitar em seu colo ou dar-lhe um beijo
na boca seja ele homem ou mulher , Hebe mistura de maneira única
o nonsense e o palpite sobre assuntos sérios em seu programa, exibido nas
noites de segunda-feira pelo SBT. "Não vou dizer que não tento mudar
a opinião das pessoas. Principalmente quando fica tudo tão confuso
no país", diz ela. Hebe já foi tema de incontáveis reflexões
sobre a televisão e até de tese acadêmica: lançado
originalmente em 1972, o livro A Noite da Madrinha, do sociólogo
Sergio Miceli, acaba de receber nova edição. Na semana passada,
a apresentadora, que embolsa um salário de 1,2 milhão por mês,
recebeu VEJA em sua casa num bairro nobre de São Paulo. Descalça
mas sem dispensar a maquiagem , ela falou sobre questões como
o envelhecimento e o aborto, além de refletir sobre seu papel de formadora
de opinião. Veja
Como é envelhecer na televisão? Hebe
É menos delicado que envelhecer na frente do espelho. Na televisão
quem me vê é o espectador, na frente do espelho sou eu mesma. Mas,
falando sério: eu não sinto o peso do tempo, não me sinto
uma mulher velha. Diria até que sou uma velhinha sem vergonha. O que não
mostro mais, na televisão ou fora dela, são meus braços.
Não saio mais na rua com roupa sem manga. Veja
A senhora está na televisão há 55 anos. A programação
está melhor ou pior? Hebe A televisão brasileira
decaiu muito. A apelação para coisas vulgares, como as pegadinhas
e os testes de fidelidade, me deixa triste. Leio a toda hora que essas coisas
são montadas, que as pessoas ganham para participar. Também estou
decepcionada com o pessoal do Pânico, da Rede TV!. A perseguição
que fizeram à Carolina Dieckmann foi um absurdo. Outro problema são
as imitações. Tem o programa de um tal Jacaré que é
uma cópia chula do Ratinho. A Record também não tem personalidade
própria, copia as novelas da Rede Globo. A Globo, aliás, apesar
de ainda fazer coisas boas, às vezes abusa nas cenas de mau gosto.
Veja A senhora se considera
uma formadora de opinião? Hebe O que eu mais sei
é fazer o auditório rir com minhas besteiras e ir para casa feliz.
Mas eu conheço o poder da minha palavra. Sei que os espectadores me vêem
como uma figura bem-sucedida e pensam: se deu certo com ela pode dar comigo também,
vou seguir suas opiniões. E não vou dizer que não tento mudar
a opinião das pessoas. Eu tento, sim. No caso da campanha do desarmamento,
por exemplo, tenho falado com as pessoinhas menos esclarecidas, para explicar
as coisas que não estão muito claras sobre o SIM e o NÃO.
Vou votar pelo NÃO, porque acho que não se pode desarmar a população
enquanto os bandidos estão estupidamente armados. Tudo está tão
confuso no país é crise política, é referendo.
Acho que, com meus palpites, posso ajudar. Acredito que penso mais no povo que
os próprios políticos, que deveriam estar fazendo isso.
Veja A senhora já
quis ser política? Hebe Já fui convidada
muitas vezes, mas não acho uma boa idéia. Não gosto quando
fico sabendo de artistas que passaram para o outro lado. O Moacyr Franco se elegeu,
não fez nada, se arrependeu. Do Gilberto Gil, como ministro, só
ouço queixas de que não faz coisas para a classe artística.
Silvio Santos, graças a Deus, caiu fora dessa. O artista domina o palco,
não o palanque. Veja
A senhora apoiou o ex-prefeito Paulo Maluf em várias eleições.
O que acha de sua prisão? Hebe Apoiei Maluf por convicção,
pois acho que ele fez coisas boas. Quando subi nos palanques dele, não
ganhei cachê, fiz por filosofia. Mas já faz tempo que me desliguei
do Maluf. Depois que anunciei que não ia mais participar de campanha política,
ele nunca mais me telefonou. Nem ele nem dona Sylvia. A amizade deles era interesseira.
Mas o que estão fazendo com ele é vingança, por ele ter sido
uma pessoa prepotente, como o Zé Dirceu (o ex-ministro José Dirceu).
Mais prepotente que o Zé Dirceu, aliás, nunca vi. Acho absurdo o
Maluf estar na cadeia e a Suzane Richthofen, aquela que matou a família
com o namorado, estar solta. As leis são antiquadas.
Veja A senhora não acredita na Justiça
brasileira? Hebe Acho que ela é lenta. Fiz um apelo
ao presidente do Supremo Tribunal Federal, o ministro Nelson Jobim, porque ele
ampliou o tempo de defesa de deputados na CPI. Mais tempo, eu não agüento.
Não acredito na CPI e duvido que esse povo vá para a cadeia. Eu
tenho 76 anos e nunca vi uma época tão imoral.
Veja Quando Paulo Maluf fazia política
não existiam irregularidades? Hebe Querido, a gente
não tem de se voltar para o passado. O presidente Lula só faz isso.
Toda vez que ele quer se justificar, fala do ex-presidente Fernando Henrique.
Tem de pensar no presente. Ele se propôs a criar milhões de empregos,
e ninguém vê esses empregos. O Fome Zero foi um engodo, mas lá
está o presidente carregando criancinha. Ele critica tanto a elite e agora
faz parte dela. Ando tão desesperada com este meu país.
Veja A senhora votou no
presidente Lula? Hebe Não. Não lembro em quem
votei, é um mal do brasileiro. Acho que foi no (José) Serra.
Veja Qual sua impressão
do presidente? Hebe Eu conheço o Lula dos tempos
em que ele era um humilde metalúrgico ou não era, porque
nunca ninguém ouviu falar que emprego ele teve, se trabalhava mesmo. Não
sou contra o Lula, não quero o impeachment. Até porque essa CPI
está parecendo mais a Escolinha do Professor Raimundo.
Veja Como é sua relação
com seu patrão, Silvio Santos? Hebe O Silvio é
uma pessoa difícil. Embora pareça ter mente aberta, vale o que ele
quer e não adianta discutir. Ele enfraqueceu o jornalismo do SBT ao perder
Boris Casoy, Lillian Witte Fibe, Marília Gabriela. Quando tive oportunidade,
falei isso para ele. Agora, Silvio tirou da grade o Fora do Ar (programa apresentado
por Hebe, Adriane Galisteu, Jorge Kajuru e Cacá Rosset). Alegou que
não tinha audiência e estava dando prejuízo. Ele é
assim, radical, não sei se por cisma com as pessoas. Fiquei muito triste.
Está certo que Silvio não quer ter prejuízo, mas não
precisa ser tão mão-fechada. Veja
A senhora chegou a flertar com a Rede Record. Por que a negociação
não deu certo? Hebe Quando tive a proposta fiquei
balançada, até falei com o Silvio. Mas a Record é da Igreja
Universal. A minha Nossa Senhora de Fátima não poderia entrar lá,
assim como a minha Nossa Senhora Aparecida. E eu sou muito amiga delas. Não
poderia deixá-las na porta. Eu às vezes me pergunto como as igrejas
evangélicas conseguem fazer lavagem cerebral em milhares de pessoas. Os
fiéis ficam completamente obcecados e não percebem que estão
deixando os pastores cada vez mais ricos à custa desse "mensalinho do demônio".
Eu não acredito absolutamente naquilo. Fé, a gente tem sem explicar.
O que eles fazem são promessas vazias, agem como os políticos.
Veja O apresentador Gugu
Liberato de sua emissora, o SBT pode recuperar a credibilidade depois
do escândalo da reportagem forjada sobre os criminosos do PCC? Hebe
Gugu perdeu uma oportunidade de dar explicações quando
foi ao meu programa. Ele deveria ter dito: "Errei, foi um ato impensado e peço
desculpas". Gosto do Gugu, mas naquele episódio ele pisou feio na bola.
Veja A senhora ganha
mais de 1 milhão de reais por mês. O que faz com tanto dinheiro?
Hebe Eu me faço feliz. Compro coisas para casa agora
mesmo estou fazendo uma reforma gigantesca. Também vou a leilões
de arte, compro objetos antigos e gosto de viajar. Veja
A senhora ficou viúva há cinco anos. Sente falta do
casamento? Hebe Sinto saudade do Lélio. Mas não
sei se sinto falta do casamento. As pessoas costumam dizer que quem casa não
pensa, pois quem pensa não casa. Eu concordo. O casamento é uma
prisão. Tanto o homem quanto a mulher têm de dar satisfação
de tudo. Acho que não casaria de novo. A liberdade não tem preço.
Outro problema é a vida sexual. No momento, ela não existe. Hoje,
tudo o que faço é dormir com um travesseiro especial, que tem um
braço de pano. Eu abraço o travesseiro e ele me abraça. É
triste. Mas não sou a favor de dar um beijo e já ir para a cama.
Veja Quantas plásticas
a senhora já fez? Hebe De rosto, seios e lipoaspiração,
já fiz duas de cada. Não vejo problema, não. Acho uma delícia
me ver melhor. E tenho obrigação de estar sempre bonita para trabalhar
na televisão. Só não dá, pela idade, para usar biquíni,
né? Quando vou à praia, visto maiô daqueles inteiros. Eu morro
de inveja dessas mulheres magérrimas, como a Gisele Bündchen.
Veja A senhora já
fez aborto. Ainda é a favor dessa prática? Hebe
Eu tinha entre 18 e 20 anos quando precisei fazer um aborto. Estava namorando
o Luiz Ramos, um empresário. Ele ficava comigo até as 4 horas da
manhã e depois ia embora para ficar com outra. Quando descobri, já
grávida, fiquei em desespero. Uma vizinha, a dona Zaíra, me levou
a uma clínica clandestina, sem minha mãe saber. Foi uma dor horrível.
Sou católica, mas defendo o aborto em alguns casos. A filha de uma conhecida
minha foi estuprada e a família não quis o aborto. Foi pior: o filho
nasceu com a cara do estuprador. É um estigma para o resto da vida. Num
caso desses, como a Igreja pode ser contra? Veja
A senhora já discutiu isso com os padres Antônio Maria
e Marcelo Rossi, seus amigos? Hebe Nunca tivemos tempo de
falar sobre isso. Mas um dia vou questioná-los por que a Igreja Católica
não permite o aborto nem quando se sabe que o bebê nascerá
com problemas graves. Veja
A senhora acha que a educação dos filhos é melhor hoje
do que antigamente? Hebe De modo algum. Apesar de liberal,
sou muito antiga na maneira de pensar. Acho um absurdo essas meninas saírem
de casa à meia-noite. É muita liberdade se a garota engravidar
aos 13 anos, a mãe não poderá reclamar, porque lhe deu a
oportunidade. Acho um pecado. E há também o problema das drogas.
Eu nunca fumei maconha, não tomo nem remédio para dormir. Uma vez,
aliás, falei para o Silvio Santos parar de tomar esses remédios.
Quando passava o efeito, ele ficava com depressão.
Veja A senhora já fez análise?
Hebe Nunca. Quando estou triste, vou para meu quarto e fico encolhida.
Sempre funciona. Veja A
senhora pensa na morte? Hebe Eu só penso na vida.
Se você pensa em doença, acaba atraindo. Tem gente que vê uma
verruguinha e já acha que é câncer. Vai lá, tira e
pronto. Veja Se
a senhora fosse começar de novo, o que faria? Hebe Minha
história é parecida com a da maioria dos brasileiros. Papai tocava
músicas de Bach e Chopin ao violino para me acordar. Mamãe tocava
piano de ouvido. Ele não me estimulou, a veia já era artística.
Meu pai não visava a dinheiro, ele fazia serenata a qualquer hora da noite,
tocava em cabaré. Saí aos 6 anos de Taubaté para São
Paulo, quando papai veio tocar na orquestra da rádio Difusora. Éramos
seis irmãos vivos. Estreei como profissional em 1944, era a mantenedora
da família. Os prêmios que ganhava nos programas de calouro mantinham
a casa. Nós não éramos tristes quando éramos pobres,
mesmo quando só tínhamos arroz para comer. Tenho uma história
bonita. Se fosse começar de novo, acho que gostaria de ser cantora, aqui
no Brasil mesmo. O melhor do Brasil são os brasileiros. Mas nem todos.
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