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André
Petry
Greve de coerência
"Para o bispo, a vida é dom divino
quando
se trata de proibir o aborto e a eutanásia,
mas deixa de sê-lo quando o bispo quer
defender uma boa causa..."
O bispo Luiz Flávio Cappio, que fez
greve de fome por onze dias em protesto contra a transposição
das águas do Rio São Francisco, é um poço
de contradições. Ele afirma que toda a sua formação
ocorreu dentro dos parâmetros da Teologia da Libertação,
mas é um católico conservador, um admirador do papado
de João Paulo II. O bispo é, também, contra
o aborto e a eutanásia, tal como ensina a doutrina da Igreja
Católica. Confira o que disse o bispo em entrevista sobre
o assunto à repórter Julia Duailibi, no sertão
de Cabrobó:
Veja O que o senhor pensa
do aborto e da eutanásia, condenados pelo Vaticano?
Cappio Sou contra o aborto e a eutanásia. Sou
totalmente contra isso. Sou um seguidor dos princípios da
Igreja.
O bispo está coberto de razão.
Afinal, o dogma católico ensina que Deus dá a vida
e apenas Deus pode tirá-la. Por isso, os católicos
são em geral, mas isso está longe de ser uma
unanimidade contra o aborto e a eutanásia. O problema
é que a greve de fome a que o bispo se submeteu, anunciando
que a sustentaria "até a morte", se fosse preciso, atentava
contra sua própria vida. Atentava, portanto, contra aquilo
que é uma dádiva divina. Ou não?
Veja Conforme os princípios
da Igreja Católica, sua greve de fome não seria indefensável
já que, no limite, pode levá-lo à morte?
Cappio Isso é uma visão distorcida.
São vidas que se oferecem em nome de uma causa. Eu não
quero morrer. Quero viver. Estou defendendo uma causa. Essa é
uma visão distorcida, uma visão que não cabe
no momento.
É óbvio que há uma contradição
brutal na cabeça do bispo, e não seria correto atribuí-la
à escassez de comida. No fundo, talvez haja mais que contradição.
Talvez haja oportunismo. Ou, quem sabe, uma dose generosa de hipocrisia.
Seria bastante interessante se o bispo fizesse sua greve de fome
e, por coerência, também defendesse o aborto e a eutanásia.
Estaria, aí sim, abrindo um debate de profunda envergadura
dentro da Igreja. Mas não. Para o bispo, as coisas são
bem mais simplórias: a vida é um dom divino quando
se trata de censurar os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres,
proibindo-se o aborto, mas deixa de sê-lo no momento em que
o bispo quer defender uma boa causa... A vida é coisa de
Deus quando se quer impedir o sofrimento lancinante dos pacientes
terminais, interditando-se a eutanásia, mas deixa de sê-lo
quando o bispo acha que deve deixar de sê-lo...
Por tudo isso, a greve de fome de dom Cappio
parece adequar-se melhor ao picadeiro da palhaçada do que
à arena do protesto íntegro. Por tudo isso, sua greve
de fome foi encerrada com a mesma ligeireza com que se iniciou.
Começou sem que o bispo tivesse tentado qualquer contato
com o governo para apresentar seu pleito de adiar as obras do São
Francisco e, agora, terminou sem que tivesse qualquer garantia de
que o governo vai mesmo adiá-las.
E o fato de o governo ter-se envolvido até
os cabelos na greve de fome do bispo apenas reforça o aspecto
circense do episódio.
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