Edição 1926 . 12 de outubro de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

André Petry
Greve de coerência

"Para o bispo, a vida é dom divino quando
se trata de proibir o aborto e a eutanásia,
mas deixa de sê-lo quando o bispo quer
defender uma boa causa..."

O bispo Luiz Flávio Cappio, que fez greve de fome por onze dias em protesto contra a transposição das águas do Rio São Francisco, é um poço de contradições. Ele afirma que toda a sua formação ocorreu dentro dos parâmetros da Teologia da Libertação, mas é um católico conservador, um admirador do papado de João Paulo II. O bispo é, também, contra o aborto e a eutanásia, tal como ensina a doutrina da Igreja Católica. Confira o que disse o bispo em entrevista sobre o assunto à repórter Julia Duailibi, no sertão de Cabrobó:

Veja – O que o senhor pensa do aborto e da eutanásia, condenados pelo Vaticano?
Cappio –Sou contra o aborto e a eutanásia. Sou totalmente contra isso. Sou um seguidor dos princípios da Igreja.

O bispo está coberto de razão. Afinal, o dogma católico ensina que Deus dá a vida e apenas Deus pode tirá-la. Por isso, os católicos são –em geral, mas isso está longe de ser uma unanimidade –contra o aborto e a eutanásia. O problema é que a greve de fome a que o bispo se submeteu, anunciando que a sustentaria "até a morte", se fosse preciso, atentava contra sua própria vida. Atentava, portanto, contra aquilo que é uma dádiva divina. Ou não?

Veja – Conforme os princípios da Igreja Católica, sua greve de fome não seria indefensável já que, no limite, pode levá-lo à morte?
Cappio – Isso é uma visão distorcida. São vidas que se oferecem em nome de uma causa. Eu não quero morrer. Quero viver. Estou defendendo uma causa. Essa é uma visão distorcida, uma visão que não cabe no momento.

É óbvio que há uma contradição brutal na cabeça do bispo, e não seria correto atribuí-la à escassez de comida. No fundo, talvez haja mais que contradição. Talvez haja oportunismo. Ou, quem sabe, uma dose generosa de hipocrisia. Seria bastante interessante se o bispo fizesse sua greve de fome e, por coerência, também defendesse o aborto e a eutanásia. Estaria, aí sim, abrindo um debate de profunda envergadura dentro da Igreja. Mas não. Para o bispo, as coisas são bem mais simplórias: a vida é um dom divino quando se trata de censurar os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, proibindo-se o aborto, mas deixa de sê-lo no momento em que o bispo quer defender uma boa causa... A vida é coisa de Deus quando se quer impedir o sofrimento lancinante dos pacientes terminais, interditando-se a eutanásia, mas deixa de sê-lo quando o bispo acha que deve deixar de sê-lo...

Por tudo isso, a greve de fome de dom Cappio parece adequar-se melhor ao picadeiro da palhaçada do que à arena do protesto íntegro. Por tudo isso, sua greve de fome foi encerrada com a mesma ligeireza com que se iniciou. Começou sem que o bispo tivesse tentado qualquer contato com o governo para apresentar seu pleito de adiar as obras do São Francisco e, agora, terminou sem que tivesse qualquer garantia de que o governo vai mesmo adiá-las.

E o fato de o governo ter-se envolvido até os cabelos na greve de fome do bispo apenas reforça o aspecto circense do episódio.

 
 
 
 
topovoltar