"Nem tudo o que é
novo é positivo, nem
tudo o que é tradicional é melhor. Ou ainda
acenderíamos fogo esfregando pedrinhas,
no fundo obscuro de alguma caverna"
Linguagens são
códigos, e com eles nos comunicamos. Vivemos segundo
alguns, também, na vida diária. Segundo códigos
de ética que no momento são objeto de verdadeira
guerra entre nós. Se de um lado andamos de cabeça
mais erguida nestes dias, porque ao menos um passo foi dado
e temos quatro dezenas de réus em falcatruas variadas
e graves, paira ainda certo receio de que tudo seja turvado
por interesses políticos e artimanhas de compadres.
Mas estamos mais esperançosos de que a verdade e a
Justiça culpem os culpados e absolvam os inocentes.
Ilustração
Atômica Studio
Isso dito, vamos ao código que aqui me interessa, o
da linguagem. O da comunicação, que na verdade
é múltiplo, é muitos. Linguagem de cegos,
linguagem de surdos, linguagem de namorados, as linguagens
das famílias em que determinadas palavras evocam
cenas hilariantes ou tristes. Linguagens técnicas,
linguagens profissionais, o jargão dos médicos,
dos advogados, que precisa eventualmente ser traduzido para
o comum mortal. Sem falar na linguagem das siglas que dominam
o mundo, para as quais até dicionários já
existem. E a linguagem técnica ligada às mais
variadas ciências e meandros do universo tecnológico,
no vasto e interessantíssimo leque das nossas capacidades
e curiosidades.
Agora, surge uma
preocupação com a linguagem abreviada e de caráter
fonético usada em mensagens de computador, como nos
chats. Os catastrofistas, de cabelo em pé, empunham
a vassoura da faxina crítica. O receio é que
os jovens, usando desse recurso que tem a ver com velocidade
e economia, haveriam de desaprender, ou nunca aprender direito,
o código do próprio idioma escrito. Receio infundado:
somos capazes de dominar, na fala e na escrita, várias
linguagens ao mesmo tempo e transitar entre elas com habilidade
e até elegância em certos casos. Na escrita,
lembrem-se, não há perigo de sotaque. Se pudéssemos
dominar apenas um sistema de sinais escritos, aquele que aprendesse
taquigrafia haveria de cometer mais erros de ortografia. Longe
disso. Ao contrário, acredito e os lingüistas
talvez confirmem que, de quanto mais recursos dispomos,
melhor os usamos em cada ocasião.
Linguagem é
a roupa da mente: não falamos em casa como falamos
num discurso em ocasião solene nem falamos numa entrevista
para conseguir emprego como falamos brincando com nossa turma
na escola. E não falamos com um bebê de 2 anos
como falamos com o médico ao qual estamos expondo nossos
males. Somos melhores do que se pensa, mais hábeis
e mais capazes, embora em geral a gente não tenha nem
dê essa impressão de nós mesmos. Escrever
com abreviaturas, siglas, formas enigmáticas aos desavisados
é apenas uma maneira divertida, rápida, inteligente,
econômica, criativa e, sim, um pouco secreta de estabelecer
e cultivar laços cibernéticos, que podem confirmar
amizades já existentes (falo com amigos distantes mais
freqüentemente do que com o que mora no mesmo edifício)
ou abrir a porta para novas relações. Que nem
sempre são o lobo mau, embora crianças devam
ser controladas e alertadas para doenças como pedofilia
e outros males nesta nossa enferma sociedade. Conheço
casais felizes que se encontraram num chat, e casais extraordinariamente
infelizes que conviveram desde a adolescência.
É preciso
dar uma chance às novidades e inovações,
em lugar de criticar de saída ou prevenir-se contra,
como se tudo o que é novo fosse primariamente mau.
É como se fora da língua culta, a língua-padrão
que é e deve ser usada em momentos mais sérios,
todas as demais formas de comunicação fossem
espúrias. Não sejamos chatíssimos senhores
com odor de naftalina, ou damas enfiadas no espartilho do
preconceito: sem ginga, sem alegria, sem abertura para o novo
e o bom, por isso mesmo sem discernimento para o verdadeiramente
mau.
Além de
tudo, a língua, como os costumes, a vida, a sociedade
e as culturas, no bom e no negativo, segue uma evolução
que independe de nós, dos moralistas, dos puristas,
dos gramáticos, dos donos da verdade, dos que seguram
o facho da razão numa das mãos e na outra o
chicote da censura. Nem tudo o que é novo é
positivo, nem tudo o que é tradicional é melhor.
Ou ainda acenderíamos fogo esfregando pedrinhas, no
fundo obscuro de alguma caverna.