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12 de setembro de 2007
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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O Brasil aos 185 anos

Usos, costumes, cacoetes e percepções do
país,
passadas e presentes, no seu aniversário

Ronaldinho é agora espanhol. O Ronaldinho em questão é aquele dentuço cabeludo que joga no Barcelona e de vez em quando aceita vestir a camisa da seleção brasileira. Duas semanas atrás ele compareceu perante um juiz em Barcelona e jurou fidelidade à Constituição espanhola. Foi o último trâmite do processo que o tornou súdito do rei Juan Carlos. Não se trata do fim do mundo. Em primeiro lugar, é mera manobra para facilitar a vida do clube em que joga, abrindo-lhe mais uma vaga na cota de jogadores estrangeiros que lhe será permitido contratar. Em segundo, a aquisição da nacionalidade espanhola não implica renúncia à brasileira. Os documentos espanhóis não o tornarão mais distante do Brasil do que já era. Ele apenas se converte em mais um na multidão de brasileiros de dupla nacionalidade. Mesmo assim...

Mesmo assim, é interessante que a notícia, salvo por notinhas obscuras, tenha passado despercebida. Se Pelé tivesse pedido a nacionalidade americana, quando foi jogar pelo Cosmos, seria de estremecer a pátria. Se Garrincha tivesse virado francês, ou talvez russo (aquela gente com quem ele queria que o técnico Feola combinasse como seriam as jogadas), seria de estarrecer. Hoje se recebe a notícia de que o melhor jogador do mundo virou espanhol com o mesmo bocejo de enfado com que se toma conhecimento de mais um senador acusado de falcatruas, ou de mais um morticínio no Morro do Alemão. Ou melhor: sem bocejo algum. Nem se recebe a notícia. E só um implicante rabugento extravagante emprestaria maior significado a tal não-evento pelo fato de ter ocorrido às vésperas do 7 de Setembro.

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Uma voz do passado: "Digamos a verdade e sejamos sinceros. A educação e o exemplo que recebemos de nossos antepassados, assim como o hábito que temos de mandar sobre escravos, nos tornarão bem difícil a direção de trabalhadores livres e no gozo dos mesmos direitos que nós". (João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, político do Império, várias vezes ministro e senador. A afirmação é de 1879, quando acumulava os cargos de presidente do Conselho e ministro da Agricultura.)

Um retrato do presente: "Enquanto a pobreza é mensurável, a expressão 'classe média' não é. O tipo de pessoa que chama a si mesma de classe média na América Latina tende a ocupar o topo da escala: prósperos profissionais com muitos empregados, filhos em escolas particulares e férias na Europa e em Miami". (Revista The Economist de 18-24 de agosto, em reportagem sobre a emergência de uma classe de pequenos empreendedores na América Latina, com ênfase em Brasil e México.)

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Depois de ter sido abordado por dois desconhecidos que fingiam necessitar de uma informação, o cineasta italiano Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso) foi empurrado, estapeado, golpeado na cabeça e teve roubados a carteira, o celular e o iPod, no mês passado. Sofreu traumatismo craniano e teve de ser internado em hospital.

Ufa, que alívio! Foi em Roma.

Os autores do crime, que desapareceram em seguida, pareciam estrangeiros. Dez dias depois, foram localizados e presos.

Ufa, que alívio! Eram romenos.

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Outra voz do passado: "Em 1º de junho voltei da América do Sul. Foi uma grande agitação sem interesse (...) Para achar a Europa alegre é preciso visitar a América. Na realidade, as pessoas de lá são desprovidas de preconceitos, mas elas são, na sua grande maioria, vazias e pouco interessantes, mais do que as daqui". (Albert Einstein, comentando, em carta, a visita que fez em 1925 ao Brasil, à Argentina e ao Uruguai.)

Voz do presente: "O que o Brasil precisa é de uma chuva de gasolina de três dias e depois alguém risca um fósforo". (Frase ouvida pelo antropólogo Roberto DaMatta na barca Rio–Niterói.)

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É mesmo... Por que a carga sobre o pobre Ronaldinho? Sua atitude tem um precedente ilustre na figura de Marisa Letícia Rocco Casa Lula da Silva. Já há dois anos, ela é italiana. Ela e os quatro filhos.

"Amanhã, eu não sou mais presidente, sabe onde eu vou estar?", disse o presidente Lula, num discurso recente. "Eu não vou fazer um curso em Paris. Não vou fazer um curso nos Estados Unidos. Eu vou é voltar para a minha gente." Já sua mulher, pelo sim, pelo não, pediu, e obteve em tempo bem mais curto do que o comum dos requerentes, o passaporte italiano.

Este é o segundo 7 de Setembro em que, no palanque, acompanha o presidente da República uma consorte possuidora de passaporte estrangeiro – obtido, segundo ela disse na ocasião, para "o caso de precisar". Nunca antes neste país.

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