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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O Brasil aos 185 anos
Usos,
costumes, cacoetes
e percepções do
país, passadas e presentes, no
seu aniversário
Ronaldinho é
agora espanhol. O Ronaldinho em questão é aquele
dentuço cabeludo que joga no Barcelona e de vez em
quando aceita vestir a camisa da seleção brasileira.
Duas semanas atrás ele compareceu perante um juiz em
Barcelona e jurou fidelidade à Constituição
espanhola. Foi o último trâmite do processo que
o tornou súdito do rei Juan Carlos. Não se trata
do fim do mundo. Em primeiro lugar, é mera manobra
para facilitar a vida do clube em que joga, abrindo-lhe mais
uma vaga na cota de jogadores estrangeiros que lhe será
permitido contratar. Em segundo, a aquisição
da nacionalidade espanhola não implica renúncia
à brasileira. Os documentos espanhóis não
o tornarão mais distante do Brasil do que já
era. Ele apenas se converte em mais um na multidão
de brasileiros de dupla nacionalidade. Mesmo assim...
Mesmo assim, é
interessante que a notícia, salvo por notinhas obscuras,
tenha passado despercebida. Se Pelé tivesse pedido
a nacionalidade americana, quando foi jogar pelo Cosmos, seria
de estremecer a pátria. Se Garrincha tivesse virado
francês, ou talvez russo (aquela gente com quem ele
queria que o técnico Feola combinasse como seriam as
jogadas), seria de estarrecer. Hoje se recebe a notícia
de que o melhor jogador do mundo virou espanhol com o mesmo
bocejo de enfado com que se toma conhecimento de mais um senador
acusado de falcatruas, ou de mais um morticínio no
Morro do Alemão. Ou melhor: sem bocejo algum. Nem se
recebe a notícia. E só um implicante rabugento
extravagante emprestaria maior significado a tal não-evento
pelo fato de ter ocorrido às vésperas do 7 de
Setembro.
Uma voz do passado:
"Digamos a verdade e sejamos sinceros. A educação
e o exemplo que recebemos de nossos antepassados, assim como
o hábito que temos de mandar sobre escravos, nos tornarão
bem difícil a direção de trabalhadores
livres e no gozo dos mesmos direitos que nós". (João
Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, político
do Império, várias vezes ministro e senador.
A afirmação é de 1879, quando acumulava
os cargos de presidente do Conselho e ministro da Agricultura.)
Um retrato do presente:
"Enquanto a pobreza é mensurável, a expressão
'classe média' não é. O tipo de pessoa
que chama a si mesma de classe média na América
Latina tende a ocupar o topo da escala: prósperos profissionais
com muitos empregados, filhos em escolas particulares e férias
na Europa e em Miami". (Revista The Economist de 18-24
de agosto, em reportagem sobre a emergência de uma classe
de pequenos empreendedores na América Latina, com ênfase
em Brasil e México.)
Depois de ter sido
abordado por dois desconhecidos que fingiam necessitar de
uma informação, o cineasta italiano Giuseppe
Tornatore (Cinema Paradiso) foi empurrado, estapeado,
golpeado na cabeça e teve roubados a carteira, o celular
e o iPod, no mês passado. Sofreu traumatismo craniano
e teve de ser internado em hospital.
Ufa, que alívio!
Foi em Roma.
Os autores do crime,
que desapareceram em seguida, pareciam estrangeiros. Dez dias
depois, foram localizados e presos.
Ufa, que alívio!
Eram romenos.
Outra voz do passado:
"Em 1º de junho voltei da América do Sul. Foi
uma grande agitação sem interesse (...) Para
achar a Europa alegre é preciso visitar a América.
Na realidade, as pessoas de lá são desprovidas
de preconceitos, mas elas são, na sua grande maioria,
vazias e pouco interessantes, mais do que as daqui". (Albert
Einstein, comentando, em carta, a visita que fez em 1925 ao
Brasil, à Argentina e ao Uruguai.)
Voz do presente:
"O que o Brasil precisa é de uma chuva de gasolina
de três dias e depois alguém risca um fósforo".
(Frase ouvida pelo antropólogo Roberto DaMatta na barca
RioNiterói.)
É mesmo...
Por que a carga sobre o pobre Ronaldinho? Sua atitude tem
um precedente ilustre na figura de Marisa Letícia Rocco
Casa Lula da Silva. Já há dois anos, ela é
italiana. Ela e os quatro filhos.
"Amanhã,
eu não sou mais presidente, sabe onde eu vou estar?",
disse o presidente Lula, num discurso recente. "Eu não
vou fazer um curso em Paris. Não vou fazer um curso
nos Estados Unidos. Eu vou é voltar para a minha gente."
Já sua mulher, pelo sim, pelo não, pediu, e
obteve em tempo bem mais curto do que o comum dos requerentes,
o passaporte italiano.
Este é o
segundo 7 de Setembro em que, no palanque, acompanha o presidente
da República uma consorte possuidora de passaporte
estrangeiro obtido, segundo ela disse na ocasião,
para "o caso de precisar". Nunca antes neste país.
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