BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2025

12 de setembro de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Lya Luft
Millôr
André Petry
Diogo Mainardi
Reinaldo Azevedo
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Cinema
A arte da mentira

O Vigarista do Ano reconstitui a incrível aventura do
escritor que forjou a autobiografia de Howard Hughes
e embaralhou para sempre fato e ficção


Isabela Boscov

VEJA TAMBÉM
Da internet
Trailer do filme

Em 1971, o americano Clifford Irving era um autor de algum prestígio, mas quase nenhuma projeção – condição que o incomodava. Sedutor e narcisista, Irving se acreditava destinado a grandes feitos. E, naquele ano, por alguns meses, ele conseguiu o que queria. Depois de ter mais um contrato de publicação cancelado às vésperas de assiná-lo, Irving invadiu o escritório de sua editora, Andrea Tate, da poderosa McGraw-Hill, dizendo ter em mãos o livro mais importante do século XX: a autobiografia de Howard Hughes. Como prova, mostrou três cartas manuscritas em papel amarelo e assinadas pelo bilionário recluso, nas quais este dizia que Irving era o homem ideal para a tarefa de redigir sua história pessoal. Naquela altura, contavam-se já treze anos desde a última aparição pública de Hughes, um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, e os boatos sobre seu comportamento errático haviam ganhado dimensão de mito. Uma autobiografia seria um abalo sísmico, razão pela qual a editora, em parceria com a Time-Life, pagou o equivalente a 5 milhões de dólares atuais pelos seus direitos. Ocorre que as cartas mostradas à McGraw-Hill haviam sido forjadas. "Uma criança perceberia que as assinaturas eram falsas", espanta-se Richard Gere, que em O Vigarista do Ano (The Hoax, Estados Unidos, 2006), em cartaz no país a partir de sexta-feira, interpreta o escritor com um apetite e uma vitalidade incomuns em seu trabalho – tão incomuns quanto a energia e o ritmo exibidos à direção pelo sueco Lasse Hallström, mais afeito a filmes brandos como Regras da Vida e Chocolate.

Lá pelo final, O Vigarista do Ano começa a se ocupar demais das teorias conspiratórias envolvidas nessa fraude extraordinária – a qual se ligaria até com o caso Watergate e a conseqüente renúncia do presidente Richard Nixon. Mas, até que o filme perca algo de seu viço, Gere, Hallström, o roteirista William Wheeler e Alfred Molina (no papel de Dick Suskind, melhor amigo e cúmplice do escritor) sustentam uma hora e meia de cinema dos mais jubilantes – um jogo de espelhos em que nada nem ninguém pode ser tomado de forma literal, e nenhum ponto de vista deve ser assumido como mais verdadeiro que o outro. Irving e Dick Suskind viajaram na sua farsa: amparados por uma extensa pesquisa, especialidade do segundo, inventavam a cada dia mais detalhes de seus supostos encontros com Hughes, tão bizarros que só poderiam ser genuínos. Ou assim, pelo menos, apressavam-se em concluir os editores da dupla, que a essa altura tinham seus próprios interesses, mais ou menos legítimos, a preservar. Chegou-se ao ponto em que (ao menos é o que se supõe) Hughes entrou de fato em contato com o escritor, para propor-lhe uma barganha faustiana. E, logo depois – isso ao menos é fato registrado –, concedeu uma das mais estranhas entrevistas coletivas da história: falou ao telefone com um punhado de jornalistas que o conheciam dos velhos tempos e poderiam comprovar que sua voz era sua mesmo, para desautorizar a suposta autobiografia. Dado o acúmulo de evidências, Irving pagou pela imaginação fértil e pela imprudência de mexer com gente muito mais graúda do que ele com dezesseis meses de encarceramento. Todos os exemplares impressos do livro foram recolhidos e destruídos.

Até hoje, Irving tenta republicar a "autobiografia". Porque, primeiro, está razoavelmente estabelecido que ele é um mentiroso compulsivo e um mitômano, e vez por outra se convence de que algumas de suas fabricações são verdades. Segundo, porque realmente desencavou um punhado de informações intrigantes sobre as atividades do magnata. E, finalmente, porque muitos dos dados contidos no livro – tanto os extraídos de pesquisa quanto os nascidos da criatividade do escritor – foram se incorporando ao que se sabe ou se pensa saber sobre Howard Hughes, de tal forma que hoje é impraticável separar fato de ficção no que toca à sua pessoa. Irving, em certa medida, terminou mesmo forjando uma biografia para Hughes. Essa é a beleza de O Vigarista do Ano: a maneira não só como evoca a euforia de Irving e Suskind durante as semanas em que por muito pouco não conseguiram sair ilesos de sua aventura, como também a inteligência com que o roteiro ostenta sempre seu estado de dúvida. Irving, como se vê no filme, estava longe de ser o único narrador inconfiável nessa história, nem foi o único escroque a participar dela. Seja qual for o assunto ou a ocasião, advoga o filme, a questão crucial não é em quem confiar. É a credulidade em sua essência.

 

UM DOCUMENTÁRIO FALSO
SOBRE DOIS FARSANTES

Antes de O Vigarista do Ano, o escritor Clifford Irving já havia sido personagem de um filme brilhante: Verdades e Mentiras, de 1974, no qual o cineasta Orson Welles, vestido de mágico, tenta desvendar outro feito de prestidigitação em que o autor esteve envolvido – a biografia de Elmyr de Hory, um dos maiores falsificadores de arte de que se tem notícia. Hory, que como Irving morava na ilha espanhola de Ibiza, era capaz de produzir em questão de horas Matisses, Picassos e Modiglianis, entre muitos outros, tão autênticos que alguns pintores chegaram a identificar quadros feitos pelo falsário como sendo de sua própria autoria. Muitas das telas de Hory foram parar em museus e coleções notáveis; todas elas avalizadas por especialistas. Quem é o falsário, então, num caso como esse, indaga Welles, antes de passar a outras duas questões – quanto se pode acreditar no que Hory diz de si mesmo, e quanto há de invenção do escritor em cima das lendas que o pintor propalava sobre si mesmo? Tecnicamente, Verdades e Mentiras (disponível no Brasil apenas numa cópia em DVD de péssima qualidade) é um documentário. Exceto pelo fato de que, quanto mais se tenta chegar à realidade aqui, mais rapidamente ela se evapora e se transforma.

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |