Em 1971, o americano
Clifford Irving era um autor de algum prestígio, mas
quase nenhuma projeção condição
que o incomodava. Sedutor e narcisista, Irving se acreditava
destinado a grandes feitos. E, naquele ano, por alguns meses,
ele conseguiu o que queria. Depois de ter mais um contrato
de publicação cancelado às vésperas
de assiná-lo, Irving invadiu o escritório de
sua editora, Andrea Tate, da poderosa McGraw-Hill, dizendo
ter em mãos o livro mais importante do século
XX: a autobiografia de Howard Hughes. Como prova, mostrou
três cartas manuscritas em papel amarelo e assinadas
pelo bilionário recluso, nas quais este dizia que Irving
era o homem ideal para a tarefa de redigir sua história
pessoal. Naquela altura, contavam-se já treze anos
desde a última aparição pública
de Hughes, um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos,
e os boatos sobre seu comportamento errático haviam
ganhado dimensão de mito. Uma autobiografia seria um
abalo sísmico, razão pela qual a editora, em
parceria com a Time-Life, pagou o equivalente a 5 milhões
de dólares atuais pelos seus direitos. Ocorre que as
cartas mostradas à McGraw-Hill haviam sido forjadas.
"Uma criança perceberia que as assinaturas eram falsas",
espanta-se Richard Gere, que em O Vigarista do Ano (The
Hoax, Estados Unidos, 2006), em cartaz no país
a partir de sexta-feira, interpreta o escritor com um apetite
e uma vitalidade incomuns em seu trabalho tão
incomuns quanto a energia e o ritmo exibidos à direção
pelo sueco Lasse Hallström, mais afeito a filmes brandos
como Regras da Vida e Chocolate.
Lá
pelo final, O Vigarista do Ano começa a se ocupar demais das teorias
conspiratórias envolvidas nessa fraude extraordinária a qual
se ligaria até com o caso Watergate e a conseqüente renúncia
do presidente Richard Nixon. Mas, até que o filme perca algo de seu viço,
Gere, Hallström, o roteirista William Wheeler e Alfred Molina (no papel de
Dick Suskind, melhor amigo e cúmplice do escritor) sustentam uma hora e
meia de cinema dos mais jubilantes um jogo de espelhos em que nada nem
ninguém pode ser tomado de forma literal, e nenhum ponto de vista deve
ser assumido como mais verdadeiro que o outro. Irving e Dick Suskind viajaram
na sua farsa: amparados por uma extensa pesquisa, especialidade do segundo, inventavam
a cada dia mais detalhes de seus supostos encontros com Hughes, tão bizarros
que só poderiam ser genuínos. Ou assim, pelo menos, apressavam-se
em concluir os editores da dupla, que a essa altura tinham seus próprios
interesses, mais ou menos legítimos, a preservar. Chegou-se ao ponto em
que (ao menos é o que se supõe) Hughes entrou de fato em contato
com o escritor, para propor-lhe uma barganha faustiana. E, logo depois
isso ao menos é fato registrado , concedeu uma das mais estranhas
entrevistas coletivas da história: falou ao telefone com um punhado de
jornalistas que o conheciam dos velhos tempos e poderiam comprovar que sua voz
era sua mesmo, para desautorizar a suposta autobiografia. Dado o acúmulo
de evidências, Irving pagou pela imaginação fértil
e pela imprudência de mexer com gente muito mais graúda do que ele
com dezesseis meses de encarceramento. Todos os exemplares impressos do livro
foram recolhidos e destruídos.
Até hoje, Irving tenta republicar a "autobiografia". Porque, primeiro,
está razoavelmente estabelecido que ele é um mentiroso compulsivo
e um mitômano, e vez por outra se convence de que algumas de suas fabricações
são verdades. Segundo, porque realmente desencavou um punhado de informações
intrigantes sobre as atividades do magnata. E, finalmente, porque muitos dos dados
contidos no livro tanto os extraídos de pesquisa quanto os nascidos
da criatividade do escritor foram se incorporando ao que se sabe ou se
pensa saber sobre Howard Hughes, de tal forma que hoje é impraticável
separar fato de ficção no que toca à sua pessoa. Irving,
em certa medida, terminou mesmo forjando uma biografia para Hughes. Essa é
a beleza de O Vigarista do Ano: a maneira não só como evoca
a euforia de Irving e Suskind durante as semanas em que por muito pouco não
conseguiram sair ilesos de sua aventura, como também a inteligência
com que o roteiro ostenta sempre seu estado de dúvida. Irving, como se
vê no filme, estava longe de ser o único narrador inconfiável
nessa história, nem foi o único escroque a participar dela. Seja
qual for o assunto ou a ocasião, advoga o filme, a questão crucial
não é em quem confiar. É a credulidade em sua essência.
UM DOCUMENTÁRIO FALSO
SOBRE DOIS FARSANTES
Antes de O
Vigarista do Ano, o escritor Clifford Irving já havia sido personagem
de um filme brilhante: Verdades e Mentiras, de 1974, no qual o cineasta
Orson Welles, vestido de mágico, tenta desvendar outro feito de prestidigitação
em que o autor esteve envolvido a biografia de Elmyr de Hory, um dos maiores
falsificadores de arte de que se tem notícia. Hory, que como Irving morava
na ilha espanhola de Ibiza, era capaz de produzir em questão de horas Matisses,
Picassos e Modiglianis, entre muitos outros, tão autênticos que alguns
pintores chegaram a identificar quadros feitos pelo falsário como sendo
de sua própria autoria. Muitas das telas de Hory foram parar em museus
e coleções notáveis; todas elas avalizadas por especialistas.
Quem é o falsário, então, num caso como esse, indaga Welles,
antes de passar a outras duas questões quanto se pode acreditar
no que Hory diz de si mesmo, e quanto há de invenção do escritor
em cima das lendas que o pintor propalava sobre si mesmo? Tecnicamente, Verdades
e Mentiras (disponível no Brasil apenas numa cópia em DVD de
péssima qualidade) é um documentário. Exceto pelo fato de
que, quanto mais se tenta chegar à realidade aqui, mais rapidamente ela
se evapora e se transforma.