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12 de setembro de 2007
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Novela mutante

Caminhos do Coração introduz um tema atípico
nos folhetins brasileiros: a ficção científica


Marcelo Marthe

 
Fotos divulgação
A cena do crime em Caminhos: a heroína como estátua viva

Povoada por criaturas mutantes, a novela Caminhos do Coração, da Record, é ela própria uma espécie de mutação no genoma das novelas brasileiras. Com personagens como uma garotinha dotada de asas e um menino-lobo, o folhetim tem lá algum parentesco com o realismo fantástico das tramas de um Dias Gomes. Mas o noveleiro Tiago Santiago leva seu enredo a um campo inexplorado. O velho realismo fantástico calcava-se na cultura popular. Já as matrizes de Caminhos do Coração são a ficção científica e a cultura pop americana. Suas crianças mutantes são primos pobres dos personagens do sucesso dos quadrinhos X-Men ou da série Heroes. Além dos já citados, há uma garota com dotes telecinéticos que quase derrubou um Boeing, um adolescente que lê pensamentos e outra garota com visão de águia. O irmão desta, por fim, corre como corisco e tem capacidade de autocicatrização de Wolverine. Esses mutantes seriam fruto de uma experiência genética conduzida por uma cientista numa clínica no Guarujá. O caldeirão mental de Santiago é mesmo espantoso. Ao explicar o que criou, ele cita de Alfred Hitchcock à mitologia grega (o mutante-corredor se chama Aquiles, como o guerreiro invulnerável da Ilíada). Mas ninguém pode negar: ausente até na tradição literária brasileira, a ficção científica acaba de ser colocada por ele na rota dos folhetins.

 

Gravação do vôo da mutante: suspensa por cabos

A aposta de Santiago é arriscada. Temas assim funcionam bem num seriado como Heroes, cujas temporadas têm pouco mais de vinte episódios. É mais complicado manejá-los num horizonte de 200 capítulos. Antes da estréia, o autor já admitia reduzir a participação dos mutantes se eles causassem rejeição (daí a profusão de subtramas: se o pior ocorrer, o autor tem saídas). Caminhos chegou a marcar 20 pontos de média, mas depois passou a oscilar abaixo disso. Mesmo que se confirme uma queda, contudo, seria preciso apurar se a causa são os mutantes ou outro fator. Em meio à pirotecnia de ação e efeitos especiais, ainda não sobrou espaço nem para apresentar o par romântico da história. A trapezista Maria (Bianca Rinaldi) e o policial federal Marcelo (Leonardo Vieira) só deverão se encontrar lá pelo capítulo vinte. Santiago já deu mostras, aliás, de que essa heroína vai pagar muito mico. Numa seqüência insólita, ela foi presa por assassinato depois de ser achada desacordada (e vestida de estátua viva) ao lado do cadáver do dono da tal clínica. "Maria tem superforça, como a mulher brasileira", diz o noveleiro.

Santiago tem ao menos a tecnologia a seu favor, já que a Record investiu um caminhão de dinheiro nisso. A menina que voa, por exemplo, é filmada diante de um fundo neutro, pendurada por cabos, e todo o restante da cena é composto digitalmente. A rede gastou quase 2 milhões de reais no equipamento que permite esses efeitos. Ele é conhecido como "Inferno". Por ibope, os bispos da Record não se importaram em cometer esse pequeno sacrilégio.

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