Caminhos do
Coração introduz um tema
atípico nos folhetins brasileiros: a ficção científica
Marcelo
Marthe
Fotos
divulgação
A
cena do crime em Caminhos: a heroína como estátua viva
Povoada por criaturas mutantes, a novela Caminhos do Coração,
da Record, é ela própria uma espécie de mutação
no genoma das novelas brasileiras. Com personagens como uma garotinha dotada de
asas e um menino-lobo, o folhetim tem lá algum parentesco com o realismo
fantástico das tramas de um Dias Gomes. Mas o noveleiro Tiago Santiago
leva seu enredo a um campo inexplorado. O velho realismo fantástico calcava-se
na cultura popular. Já as matrizes de Caminhos do Coração
são a ficção científica e a cultura pop americana.
Suas crianças mutantes são primos pobres dos personagens do sucesso
dos quadrinhos X-Men ou da série Heroes. Além dos
já citados, há uma garota com dotes telecinéticos que quase
derrubou um Boeing, um adolescente que lê pensamentos e outra garota com
visão de águia. O irmão desta, por fim, corre como corisco
e tem capacidade de autocicatrização de Wolverine. Esses mutantes
seriam fruto de uma experiência genética conduzida por uma cientista
numa clínica no Guarujá. O caldeirão mental de Santiago é
mesmo espantoso. Ao explicar o que criou, ele cita de Alfred Hitchcock à
mitologia grega (o mutante-corredor se chama Aquiles, como o guerreiro invulnerável
da Ilíada). Mas ninguém pode negar: ausente até na
tradição literária brasileira, a ficção científica
acaba de ser colocada por ele na rota dos folhetins.
Gravação
do vôo da mutante: suspensa por cabos
A aposta de Santiago é arriscada. Temas assim funcionam bem num seriado
como Heroes, cujas temporadas têm pouco mais de vinte episódios.
É mais complicado manejá-los num horizonte de 200 capítulos.
Antes da estréia, o autor já admitia reduzir a participação
dos mutantes se eles causassem rejeição (daí a profusão
de subtramas: se o pior ocorrer, o autor tem saídas). Caminhos chegou
a marcar 20 pontos de média, mas depois passou a oscilar abaixo disso.
Mesmo que se confirme uma queda, contudo, seria preciso apurar se a causa são
os mutantes ou outro fator. Em meio à pirotecnia de ação
e efeitos especiais, ainda não sobrou espaço nem para apresentar
o par romântico da história. A trapezista Maria (Bianca Rinaldi)
e o policial federal Marcelo (Leonardo Vieira) só deverão se encontrar
lá pelo capítulo vinte. Santiago já deu mostras, aliás,
de que essa heroína vai pagar muito mico. Numa seqüência insólita,
ela foi presa por assassinato depois de ser achada desacordada (e vestida de estátua
viva) ao lado do cadáver do dono da tal clínica. "Maria tem superforça,
como a mulher brasileira", diz o noveleiro.
Santiago tem ao menos a tecnologia a seu favor, já que a Record investiu
um caminhão de dinheiro nisso. A menina que voa, por exemplo, é
filmada diante de um fundo neutro, pendurada por cabos, e todo o restante da cena
é composto digitalmente. A rede gastou quase 2 milhões de reais
no equipamento que permite esses efeitos. Ele é conhecido como "Inferno".
Por ibope, os bispos da Record não se importaram em cometer esse pequeno
sacrilégio.