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12 de setembro de 2007
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Vaidade dá mais dinheiro

Essa é a razão pela qual tantos médicos deixam suas
especialidades para se dedicar à medicina estética


Rosana Zakabi

 
Fotos Fabiano Accorsi e Lailson Santos
A cirurgiã do aparelho digestivo Nathalie Yokana e o clínico geral Herbert Amaral em ação nos tratamentos de beleza: satisfação profissional e remuneração maiores do que antes

A médica paulista Nathalie Yokana saiu da faculdade em 2001 e se especializou em cirurgia do aparelho digestivo. Com essa qualificação, passou a tratar de lesões e tumores no esôfago, no estômago e no intestino. De três anos para cá, Nathalie adicionou novas competências à sua prática médica: passou a atender pacientes em busca de aplicações de Botox, de peeling e de outros tratamentos de beleza. Em breve, ela pretende abandonar de vez a cirurgia do aparelho digestivo para se dedicar à nova atividade. A mudança drástica empreendida por Nathalie em sua profissão está longe de ser um caso isolado. Hoje, é grande a quantidade de médicos, de todas as especialidades, que decidem migrar para a medicina estética. Calcula-se que existam atualmente 3.000 médicos trabalhando nas clínicas de beleza espalhadas pelo Brasil, o dobro do que havia há cinco anos. No início da década de 90, os profissionais que se dedicavam aos tratamentos de beleza eram quase todos dermatologistas e cirurgiões plásticos, especialidades de alguma forma relacionadas à estética. Agora eles representam apenas 30% do total. Setenta por cento migraram de outras especialidades médicas. Nathalie Yokana diz que lidar com beleza é uma atividade mais leve porque "o paciente já chega ao consultório alegre, disposto a melhorar sua auto-estima". O principal motivo que leva os médicos a procurar a medicina estética, no entanto, é um só: nessa área, a remuneração é muito mais atraente.

Hoje, a maioria dos médicos brasileiros precisa se desdobrar em vários empregos para fechar o orçamento no fim do mês. Cerca de 60% deles atendem pacientes dos planos de saúde, que lhes pagam entre 29 e 42 reais por consulta realizada, e 70% trabalham pelo menos parte do tempo em hospitais da rede pública. Um cirurgião que em seu consultório particular cobra 5.000 por uma cirurgia receberá apenas 400 reais se o mesmo procedimento for feito através de um plano de saúde e 115 reais se for feito no hospital público do SUS. "Não há saída senão trabalhar pelo menos sessenta horas por semana, fora os plantões noturnos. É muito cansativo e frustrante do ponto de vista profissional", diz o cirurgião vascular Miguel Francischelli Neto, da Santa Casa de Misericórdia de Limeira, no interior de São Paulo. O quadro é muito diferente para quem se dedica à medicina estética. Uma aplicação de Botox custa em torno de 1.200 reais – desse montante, 500 reais correspondem aos honorários do médico. Esse valor é, em média, o que cobram por uma consulta particular os especialistas mais festejados do país. A remuneração é semelhante em outros tratamentos de beleza, como técnicas de preenchimento de expressão e Subcision (pequena cirurgia com o objetivo de desfazer os nódulos de celulite). Como os planos de saúde não cobrem despesas com tratamentos feitos apenas por razões estéticas, todas as horas de trabalho do médico são remuneradas no mesmo patamar. Trabalho não falta: há hoje nada menos que 20.000 clínicas de beleza no país, e a maioria delas vive cheia.

"A medicina estética é um mercado em plena expansão, interessante tanto do ponto de vista profissional quanto do financeiro", diz o médico paraense Herbert Bastos Amaral, que se formou clínico geral e há um ano aplica tratamentos de beleza em São Paulo. Para mudar de área de atuação e se dedicar aos tratamentos de beleza, o médico precisa fazer um curso oferecido por algumas escolas de medicina que dura em média dois anos. Um deles, ministrado na Sociedade Brasileira de Medicina Estética, forma atualmente 270 alunos por ano – no fim da década passada, os formandos não passavam de noventa. Mesmo depois de fazerem o curso, os médicos, oficialmente, mantêm no registro sua especialidade original, já que a medicina estética não é reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina como especialidade médica.

Tradicionalmente, muitos médicos costumam se especializar em mais de uma área, mas em geral elegem especialidades próximas de seu campo de atuação. O ortopedista se especializa em fisiatria, o ginecologista, em reprodução humana, e assim por diante. Diz o cirurgião plástico Antonio Gonçalves Pinheiro, coordenador da Comissão Mista de Especialidades Médicas do Conselho Federal de Medicina: "O médico normalmente busca as especializações para se tornar um profissional mais qualificado dentro de seu campo de atividade. Mas a migração em massa para uma única área, como a medicina estética, nunca aconteceu".

 

A TURMA DO BOTOX

Há no Brasil 3 000 médicos que atuam em tratamentos estéticos, o dobro do que existia cinco anos atrás

70% deles migraram de outras especialidades médicas

Nas clínicas de estética, podem ganhar 10 vezes mais do que antes

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