Essa é a razão
pela qual tantos médicos deixam suas
especialidades para se dedicar à medicina estética
Rosana Zakabi
Fotos Fabiano Accorsi
e Lailson Santos
A cirurgiã do aparelho
digestivo Nathalie Yokana e o clínico geral Herbert
Amaral em ação nos tratamentos de beleza:
satisfação profissional e remuneração
maiores do que antes
A
médica paulista Nathalie Yokana saiu da faculdade em
2001 e se especializou em cirurgia do aparelho digestivo.
Com essa qualificação, passou a tratar de lesões
e tumores no esôfago, no estômago e no intestino.
De três anos para cá, Nathalie adicionou novas
competências à sua prática médica:
passou a atender pacientes em busca de aplicações
de Botox, de peeling e de outros tratamentos de beleza. Em
breve, ela pretende abandonar de vez a cirurgia do aparelho
digestivo para se dedicar à nova atividade. A mudança
drástica empreendida por Nathalie em sua profissão
está longe de ser um caso isolado. Hoje, é grande
a quantidade de médicos, de todas as especialidades,
que decidem migrar para a medicina estética. Calcula-se
que existam atualmente 3.000 médicos trabalhando nas
clínicas de beleza espalhadas pelo Brasil, o dobro
do que havia há cinco anos. No início da década
de 90, os profissionais que se dedicavam aos tratamentos de
beleza eram quase todos dermatologistas e cirurgiões
plásticos, especialidades de alguma forma relacionadas
à estética. Agora eles representam apenas 30%
do total. Setenta por cento migraram de outras especialidades
médicas. Nathalie Yokana diz que lidar com beleza é
uma atividade mais leve porque "o paciente já chega
ao consultório alegre, disposto a melhorar sua auto-estima".
O principal motivo que leva os médicos a procurar a
medicina estética, no entanto, é um só:
nessa área, a remuneração é muito
mais atraente.
Hoje, a maioria
dos médicos brasileiros precisa se desdobrar em vários
empregos para fechar o orçamento no fim do mês.
Cerca de 60% deles atendem pacientes dos planos de saúde,
que lhes pagam entre 29 e 42 reais por consulta realizada,
e 70% trabalham pelo menos parte do tempo em hospitais da
rede pública. Um cirurgião que em seu consultório
particular cobra 5.000 por uma cirurgia receberá apenas
400 reais se o mesmo procedimento for feito através
de um plano de saúde e 115 reais se for feito no hospital
público do SUS. "Não há saída
senão trabalhar pelo menos sessenta horas por semana,
fora os plantões noturnos. É muito cansativo
e frustrante do ponto de vista profissional", diz o cirurgião
vascular Miguel Francischelli Neto, da Santa Casa de Misericórdia
de Limeira, no interior de São Paulo. O quadro é
muito diferente para quem se dedica à medicina estética.
Uma aplicação de Botox custa em torno de 1.200
reais desse montante, 500 reais correspondem aos honorários
do médico. Esse valor é, em média, o
que cobram por uma consulta particular os especialistas mais
festejados do país. A remuneração é
semelhante em outros tratamentos de beleza, como técnicas
de preenchimento de expressão e Subcision (pequena
cirurgia com o objetivo de desfazer os nódulos de celulite).
Como os planos de saúde não cobrem despesas
com tratamentos feitos apenas por razões estéticas,
todas as horas de trabalho do médico são remuneradas
no mesmo patamar. Trabalho não falta: há hoje
nada menos que 20.000 clínicas de beleza no país,
e a maioria delas vive cheia.
"A medicina estética
é um mercado em plena expansão, interessante
tanto do ponto de vista profissional quanto do financeiro",
diz o médico paraense Herbert Bastos Amaral, que se
formou clínico geral e há um ano aplica tratamentos
de beleza em São Paulo. Para mudar de área de
atuação e se dedicar aos tratamentos de beleza,
o médico precisa fazer um curso oferecido por algumas
escolas de medicina que dura em média dois anos. Um
deles, ministrado na Sociedade Brasileira de Medicina Estética,
forma atualmente 270 alunos por ano no fim da década
passada, os formandos não passavam de noventa. Mesmo
depois de fazerem o curso, os médicos, oficialmente,
mantêm no registro sua especialidade original, já
que a medicina estética não é reconhecida
pelo Conselho Federal de Medicina como especialidade médica.
Tradicionalmente,
muitos médicos costumam se especializar em mais de
uma área, mas em geral elegem especialidades próximas
de seu campo de atuação. O ortopedista se especializa
em fisiatria, o ginecologista, em reprodução
humana, e assim por diante. Diz o cirurgião plástico
Antonio Gonçalves Pinheiro, coordenador da Comissão
Mista de Especialidades Médicas do Conselho Federal
de Medicina: "O médico normalmente busca as especializações
para se tornar um profissional mais qualificado dentro de
seu campo de atividade. Mas a migração em massa
para uma única área, como a medicina estética,
nunca aconteceu".
A TURMA DO BOTOX
Há
no Brasil 3 000 médicos que atuam em tratamentos
estéticos, o dobro do que existia cinco anos
atrás
70%
deles migraram de outras especialidades médicas
Nas clínicas
de estética, podem ganhar 10 vezes mais
do que antes