O
ensino religioso remonta aos primórdios do Brasil colonial.
Foram os padres jesuítas, patrocinados pela coroa portuguesa,
os fundadores de algumas das primeiras escolas brasileiras
no século XVI. A educação, no Brasil
de então, se prestava basicamente a disseminar o catolicismo
e arrebanhar fiéis. Nos séculos seguintes, outras
ordens religiosas vieram movidas pelo mesmo propósito:
elas esparramaram tantas escolas pelo país que, juntas,
chegaram a concentrar 80% das matrículas do ensino
médio nos colégios particulares, como revela
um censo do início do século XX. Reinaram sem
concorrência na elite do ensino até a década
de 60, quando uma leva de escolas privadas começou
a lhes roubar espaço, e elas tiveram de se reformular
pela primeira vez para sobreviver aos novos tempos. Foi aí
que os colégios confessionais se aproximaram dos laicos,
ao se tornar menos doutrinários e desobrigar os estudantes
de velhos hábitos, como ir à missa ou comungar.
A segunda mudança nessas escolas é recente,
e está sendo impulsionada por outro fenômeno
de mercado: o surgimento de grupos privados de ensino, mais
profissionais na gestão e tão ou mais eficientes
nos resultados acadêmicos. Resume o especialista Claudio
de Moura Castro: "Ninguém mais matricula o filho numa
escola só porque ela ensina religião, como ocorria
antes, mas, sim, por oferecer um conjunto de bons serviços".
É justamente
nesse quesito que muitas das escolas confessionais têm
falhado, segundo mostra uma nova pesquisa sobre o assunto.
De acordo com os dados do Ministério da Educação
(MEC), as matrículas nos colégios católicos
chegaram a cair 20% ao longo da última década.
Estabilizaram-se, mas hoje não saem do lugar. O trabalho
revela que, no mesmo período, crescia a um ritmo surpreendente
um outro tipo de escola religiosa: os colégios comandados
pelos adventistas, egressos de um ramo protestante dos mais
tradicionais da igreja evangélica. O fato chamou a
atenção dos especialistas. Já são
318 dessas escolas no país, com 37% mais alunos do
que dez anos atrás. Elas sobressaem em meio a milhares
de outras não só porque proliferam rapidamente,
mas também por seu bom nível acadêmico,
aferido por medidores objetivos: algumas das escolas adventistas
já aparecem entre as melhores do país nos rankings
de ensino do MEC.
Reprodução
Jesuítas catequizam índios
no Brasil colonial: predomínio do ensino religioso
Os especialistas
são unânimes em afirmar que um dos fatores que
impulsionam essas e as outras escolas religiosas que dão
certo no Brasil são valores que os pais acreditam ver
nelas reunidos. É algo difícil de mensurar,
mas foi bem mapeado por uma nova pesquisa que ouviu 15 000
pais de estudantes brasileiros de colégios religiosos.
Ao justificarem sua escolha por uma escola confessional, eles
foram específicos: acham que esses colégios
são mais capazes de difundir valores "éticos",
"morais" e "cristãos" (mesmo que eles próprios
não sejam seguidores de nenhum credo). Um exemplo concreto
do que agrada aos familiares, no caso das escolas adventistas:
o incentivo local ao convívio das crianças com
a natureza. Em vários dos colégios, cachorros
transitam livremente pelas salas de aula e, num deles, o contato
estende-se ao Pequeno Éden, um pátio por onde
perambulam pôneis e galinhas. Em Embu das Artes, cidade
de São Paulo onde fica a escola que sedia o tal "Éden",
a diretora explica que a idéia é reproduzir
o "clima do paraíso". O que também agrada a
pais de todos os credos são as regras conservadoras
ali aplicadas, entre elas a proibição de brincos
e colares, para as meninas, e cabelo comprido, para os meninos.
"Quero minha filha num ambiente onde se cultivem a disciplina
e os bons hábitos", resume a secretária Vanda
Balestra, mãe de Ludmila, de 16 anos. A jovem é
católica e compõe o grupo dos 70% de estudantes
matriculados em escolas adventistas que não seguem
a religião.
Carol
Carquejeiro
A estudante Ludmila Balestra:
como ela, 70% dos alunos nos colégios adventistas
não seguem a religião
Em sala de aula, onde se acompanha o currículo do MEC,
são basicamente dois os momentos em que essas escolas
se diferenciam das demais. O primeiro é nas classes
de religião, muitas vezes diárias, durante as
quais são entoados, com vigor fora do comum, cantos
bíblicos como "A Bíblia é palavra
de vida / Um canto de amor que Deus escreveu para mim" e crianças
de 4 anos, como a pequena Larissa Conrado, manuseiam a versão
infantil do Velho Testamento. Outra diferença aparece
nas aulas de ciências, nas quais os estudantes são
apresentados, sem nenhuma espécie de visão crítica,
à explicação criacionista do mundo, segundo
a qual homens e animais foram criados por Deus, tal como está
na Bíblia. Esse, sim, é um evidente atraso.
Historicamente, o criacionismo vigorou no meio acadêmico
até o século XIX, quando foi superado pela teoria
da evolução de Charles Darwin, que pela primeira
vez esclareceu a origem dos seres vivos com base em evidências
científicas. Em escolas de estados mais conservadores
nos Estados Unidos, ainda hoje o criacionismo predomina
e Darwin é banido do currículo. No caso dos
colégios adventistas brasileiros, as crianças
aprendem as duas versões. A diretora de uma das escolas,
Ivany Queiroga da Silva, explica como a coisa funciona: "Deixamos
claro nosso ponto de vista, criacionista, mas damos a chance
de os alunos conhecerem os dois lados". Por quê? "Respeitamos
todos os nossos clientes. Além disso, eles precisam
conhecer Darwin para passar no vestibular."
Carol do Valle
O Pequeno Éden, numa
escola adventista de São Paulo:
a idéia é reproduzir o "clima do paraíso"
no pátio
Esse pragmatismo
dos adventistas é outro fator que ajuda a explicar
o sucesso de suas escolas. Enquanto muitos dos colégios
católicos ainda são administrados de modo mais
antiquado, tal qual um século atrás, os adventistas
implantaram um novo conjunto de medidas para profissionalizar
a gestão. Do primeiro colégio, inaugurado em
1896 na cidade de Curitiba, foi-se das aulas dadas por pastores
no quintal da igreja às atuais unidades, nas quais
diretores freqüentam cursos superiores de administração
escolar e os melhores professores recebem bônus no salário.
Reconhecidos pelo mérito, eles rendem mais em sala
de aula algo básico, mas ainda raro no Brasil.
Para traçarem seu plano de expansão, os adventistas,
que já são donos de seis universidades e uma
editora de livros didáticos, também não
hesitaram ao contratar consultores para definir "as demandas
do mercado". Foi decisivo para saber onde abrir novas unidades.
Em 2008, eles pretendem inaugurar uma universidade e mais
vinte escolas. Conclui o professor Orlando Mário Ritter,
um dos diretores da rede adventista: "Para nós, encarar
a educação como negócio não é
sacrilégio. Estamos, afinal, no século XXI".
Falta ainda a essas escolas, no entanto, entender que o criacionismo
foi superado pela ciência há mais de um século.