Por trás do
cantor e ministro Gilberto Gil, há
uma enérgica e "tropicapitalista" mulher
Juliana Linhares
Fotos
Oscar Cabral e Álbum de família
Flora, em sua casa no Rio de
Janeiro e em uma das viagens com Gil: dos ternos às tranças
do ministro-cantor, controle total
Em outubro do ano passado, logo após ser reeleito,
o presidente Lula convocou o ministro da Cultura, Gilberto
Gil, ao Palácio do Planalto. Queria pedir que ele continuasse
à frente da pasta, mas sabia que a mulher do cantor,
Flora Gil, era contrária à permanência
do marido no cargo. Como sabia que a opinião dela tem
muito peso nas decisões do ministro, o presidente convidou-a
para a reunião, na esperança de que pudesse
fazê-la mudar de idéia. Lula acabou surpreendido
pela franqueza de Flora: "Ele já cumpriu o seu dever".
Firmou-se, então, um pacto: Gil ficaria no governo
até outubro de 2007. E agora que falta um mês
para o término desse prazo? "Ele permanece até
o fim do ano. Mas parei de falar nesse assunto para não
ficar bancando a chata", disse Flora a VEJA em agosto. Na
semana passada, Gil anunciou que fica à frente do ministério
"até janeiro de 2008". Só faltou completar que
foi com o sinal verde da mulher. Há quase trinta anos
Flora e Gil formam uma dupla. Ele canta, compõe e,
por ora, está à frente de um ministério
com orçamento anual de 1 bilhão de reais. Ela
administra tudo o que diz respeito ao marido da compra
dos ternos Armani ao controle dos direitos sobre a obra do
compositor, composta de cerca de 900 músicas. Também
não faltam os palpites na condução da
pasta da Cultura.
A parceria azeitou-se
bastante nos últimos anos. Em 2003, quando ingressou
no ministério, Gil vivia uma fase complicada. Enfrentava
problemas na garganta e desde 1997 não gravava um disco
inédito. Em quatro anos, ele não só soltou
a voz como engordou os bolsos. Seu cachê para shows
pulou de 70.000 reais para 200.000 reais. Quem gravita em
torno de Gil não tem dúvidas em apontar Flora
como o motor dessa arrancada. O casal se conheceu em 1979,
quando a então estudante, recém-saída
de um colégio de freiras, teve o seu primeiro encontro
com o cantor já famoso. Nessa ocasião, com 19
anos, Flora trabalhava como vendedora de uma loja de roupas
em São Paulo, sua cidade natal. Por ter sido a funcionária
do mês, ganhou do patrão uma viagem a Salvador.
Lá, foi assistir a um show de Baby Consuelo. À
saída do espetáculo, pôs-se a pedir carona
na rua. Acabou socorrida por Gil, então com 37 anos,
vinte de carreira, cinco filhos, duas ex-mulheres (casado
com a terceira) e uma prisão recente por porte de maconha.
No dia seguinte, Gil compôs a canção Flora.
Desde então, estão juntos na alegria
e na riqueza. Flora não demorou a tornar-se manager
do marido. Hoje, comanda a Gege Produções, que,
além de administrar os direitos das composições,
empresaria os shows e cuida, nos mínimos detalhes,
de todos os aspectos da vida artística do cantor. "Gil
não entra atrasado no palco, não cancela compromisso
e, melhor do que tudo isso, está rico. Quer melhor
prova do sucesso de Flora?", pergunta uma de suas sócias
na Gege.
Há uma década,
ela organiza o Expresso 2222, camarote no Carnaval de Salvador
que recebe 1.500 pessoas em cada uma das cinco noites de festa.
O camarote é, na verdade, um prédio de três
andares que oferece comida e bebida à vontade, salão
de beleza e massagistas. No Carnaval deste ano, passaram por
lá três governadores Jaques Wagner (PT-BA),
Sérgio Cabral (PMDB-RJ) e Eduardo Campos (PSB-PE).
Também já estiveram no camarote o governador
mineiro Aécio Neves e Bono Vox, vocalista do U2. Todos
requebrando ao lado de executivos do mercado financeiro e
de dirigentes de algumas das maiores empresas do país.
O sucesso extraordinário do camarote nos últimos
anos é prova de que ela soube aproveitar a circunstância
do marido ministro para promover uma salada, por assim dizer,
"tropicapitalista". Só no ano passado, dez marcas famosas
pagaram ao todo 3 milhões de reais para ter seu nome
associado ao camarote. Uma delas, a vodca Smirnoff, entrou
com pelo menos 1 milhão de reais.
Flora é
a versão menos apimentada de Paula Lavigne que,
como mulher de cantor baiano, mostrou ser apenas uma ótima
empresária. As duas não se bicam. Flora só
se refere a ela como "a outra". E recebe o mesmo tratamento
de Paula. Ao contrário da ex de Caetano Veloso, Flora
é um exemplo de adaptabilidade conjugal. Quando era
casado com Sandra Gadelha, Gil adquiriu o hábito de
forrar o chão do quarto com tatame. "Flora logo percebeu
que esse era um dos hábitos que meu pai queria manter
do outro casamento", diz Preta Gil, filha do músico.
Quando ele assumiu o ministério, Flora tratou de ir
a Brasília montar o quarto de Gil. Com direito ao tatame,
é claro. É ela também quem lava, seca
e trança os cabelos do ministro, apara suas sobrancelhas
e o maquia para os shows. Gil a chama de "Mãezinha".
Flora o trata por "Pê", homenagem a uma cachorra que
pertencia ao marido. E que, como Gil, "tinha as perninhas
finas", explica Flora. O que Mãezinha acha da experiência
do marido em Brasília? "Ele foi picado pelo bicho da
política, adorou essa coisa de fazer reunião,
ligar para senador. Eu quero que ele saia, mas Pê é
quem sabe", diz Flora, como se não soubesse que, em
casa, a última palavra certamente será dela.