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12 de setembro de 2007
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OS PODERES DA
SUPER-FLORA

Por trás do cantor e ministro Gilberto Gil, há
uma enérgica – e "tropicapitalista" – mulher


Juliana Linhares

Fotos Oscar Cabral e Álbum de família
Flora, em sua casa no Rio de Janeiro e em uma das viagens com Gil: dos ternos às tranças do ministro-cantor, controle total


Em outubro do ano passado, logo após ser reeleito, o presidente Lula convocou o ministro da Cultura, Gilberto Gil, ao Palácio do Planalto. Queria pedir que ele continuasse à frente da pasta, mas sabia que a mulher do cantor, Flora Gil, era contrária à permanência do marido no cargo. Como sabia que a opinião dela tem muito peso nas decisões do ministro, o presidente convidou-a para a reunião, na esperança de que pudesse fazê-la mudar de idéia. Lula acabou surpreendido pela franqueza de Flora: "Ele já cumpriu o seu dever". Firmou-se, então, um pacto: Gil ficaria no governo até outubro de 2007. E agora que falta um mês para o término desse prazo? "Ele permanece até o fim do ano. Mas parei de falar nesse assunto para não ficar bancando a chata", disse Flora a VEJA em agosto. Na semana passada, Gil anunciou que fica à frente do ministério "até janeiro de 2008". Só faltou completar que foi com o sinal verde da mulher. Há quase trinta anos Flora e Gil formam uma dupla. Ele canta, compõe e, por ora, está à frente de um ministério com orçamento anual de 1 bilhão de reais. Ela administra tudo o que diz respeito ao marido – da compra dos ternos Armani ao controle dos direitos sobre a obra do compositor, composta de cerca de 900 músicas. Também não faltam os palpites na condução da pasta da Cultura.

A parceria azeitou-se bastante nos últimos anos. Em 2003, quando ingressou no ministério, Gil vivia uma fase complicada. Enfrentava problemas na garganta e desde 1997 não gravava um disco inédito. Em quatro anos, ele não só soltou a voz como engordou os bolsos. Seu cachê para shows pulou de 70.000 reais para 200.000 reais. Quem gravita em torno de Gil não tem dúvidas em apontar Flora como o motor dessa arrancada. O casal se conheceu em 1979, quando a então estudante, recém-saída de um colégio de freiras, teve o seu primeiro encontro com o cantor já famoso. Nessa ocasião, com 19 anos, Flora trabalhava como vendedora de uma loja de roupas em São Paulo, sua cidade natal. Por ter sido a funcionária do mês, ganhou do patrão uma viagem a Salvador. Lá, foi assistir a um show de Baby Consuelo. À saída do espetáculo, pôs-se a pedir carona na rua. Acabou socorrida por Gil, então com 37 anos, vinte de carreira, cinco filhos, duas ex-mulheres (casado com a terceira) e uma prisão recente por porte de maconha. No dia seguinte, Gil compôs a canção Flora. Desde então, estão juntos – na alegria e na riqueza. Flora não demorou a tornar-se manager do marido. Hoje, comanda a Gege Produções, que, além de administrar os direitos das composições, empresaria os shows e cuida, nos mínimos detalhes, de todos os aspectos da vida artística do cantor. "Gil não entra atrasado no palco, não cancela compromisso e, melhor do que tudo isso, está rico. Quer melhor prova do sucesso de Flora?", pergunta uma de suas sócias na Gege.

Há uma década, ela organiza o Expresso 2222, camarote no Carnaval de Salvador que recebe 1.500 pessoas em cada uma das cinco noites de festa. O camarote é, na verdade, um prédio de três andares que oferece comida e bebida à vontade, salão de beleza e massagistas. No Carnaval deste ano, passaram por lá três governadores – Jaques Wagner (PT-BA), Sérgio Cabral (PMDB-RJ) e Eduardo Campos (PSB-PE). Também já estiveram no camarote o governador mineiro Aécio Neves e Bono Vox, vocalista do U2. Todos requebrando ao lado de executivos do mercado financeiro e de dirigentes de algumas das maiores empresas do país. O sucesso extraordinário do camarote nos últimos anos é prova de que ela soube aproveitar a circunstância do marido ministro para promover uma salada, por assim dizer, "tropicapitalista". Só no ano passado, dez marcas famosas pagaram ao todo 3 milhões de reais para ter seu nome associado ao camarote. Uma delas, a vodca Smirnoff, entrou com pelo menos 1 milhão de reais.

Flora é a versão menos apimentada de Paula Lavigne – que, como mulher de cantor baiano, mostrou ser apenas uma ótima empresária. As duas não se bicam. Flora só se refere a ela como "a outra". E recebe o mesmo tratamento de Paula. Ao contrário da ex de Caetano Veloso, Flora é um exemplo de adaptabilidade conjugal. Quando era casado com Sandra Gadelha, Gil adquiriu o hábito de forrar o chão do quarto com tatame. "Flora logo percebeu que esse era um dos hábitos que meu pai queria manter do outro casamento", diz Preta Gil, filha do músico. Quando ele assumiu o ministério, Flora tratou de ir a Brasília montar o quarto de Gil. Com direito ao tatame, é claro. É ela também quem lava, seca e trança os cabelos do ministro, apara suas sobrancelhas e o maquia para os shows. Gil a chama de "Mãezinha". Flora o trata por "Pê", homenagem a uma cachorra que pertencia ao marido. E que, como Gil, "tinha as perninhas finas", explica Flora. O que Mãezinha acha da experiência do marido em Brasília? "Ele foi picado pelo bicho da política, adorou essa coisa de fazer reunião, ligar para senador. Eu quero que ele saia, mas Pê é quem sabe", diz Flora, como se não soubesse que, em casa, a última palavra certamente será dela.

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