Há quatro
anos a economista paranaense Helena Pereira de Oliveira convive
com um tumor maligno no tórax. Ao receber o diagnóstico,
ela foi informada de que, dados o tipo de câncer e o
fato de ser incipiente, não seria necessário
passar por nenhum tratamento. Bastava monitorar. No início,
a economista sentiu-se desconfortável com a idéia
de não atacar o inimigo, mas apenas observá-lo.
"Eu queria quanto antes me livrar daquilo", conta.
"É muito estranho você saber que tem um câncer
contra o qual não é preciso fazer nada." Passados
a surpresa e o desconforto, hoje, aos 55 anos, ela enfrenta
a doença com confiança e serenidade. O tumor
não avançou e a economista foi poupada da quimioterapia
e suas reações adversas náuseas,
vômitos, diarréia, letargia, queda de cabelo,
entre outras. Até pouco tempo atrás, um câncer
só era deixado a seu próprio curso nos casos
terminais, quando não havia mais nada a ser feito.
Atualmente, pacientes como Helena são comuns nas clínicas
e hospitais brasileiros. Eles estão sob a chamada vigilância
ativa.
Conhecida no jargão
médico pelo nome inglês, active surveillance,
a conduta consiste no acompanhamento e avaliação
constantes do tumor. A idéia é preservar o paciente,
o máximo de tempo possível, dos violentos efeitos
colaterais das cirurgias e sessões de químio
e radioterapia. "Não há necessidade de indicarmos
tratamentos agressivos, que comprometerão a qualidade
de vida dos pacientes, se podemos esperar e agir apenas quando
e se o tumor se tornar de fato um perigo", diz
Paulo Hoff, diretor do centro de oncologia do Hospital Sírio-Libanês.
A vigilância ativa era usada inicialmente com os pacientes
de câncer de próstata. Recentemente ela foi ampliada
para outros tipos de tumor.
Fabiano Accorsi
José Altman: rotina inalterada
A decisão de colocar um doente sob vigilância
ativa obedece a protocolos rigorosos. Basicamente, a doença
tem de estar em estágio inicial e deve ser de progressão
lenta. O nódulo da economista Helena, por exemplo,
foi diagnosticado precocemente e pertence ao grupo dos carcinóides,
tumores que atacam as células produtoras de algumas
proteínas e hormônios. Um carcinóide costuma
passar anos sem sofrer nenhuma alteração de
tamanho. Outros cânceres que tendem a se desenvolver
vagarosamente são o de próstata e a leucemia
linfóide crônica, associada a metade de todos
os casos de leucemia (veja
quadro). Sob vigilância ativa, o paciente é
submetido de três em três meses, em média,
a uma extensa e minuciosa bateria de exames, de modo a manter
o controle da evolução da doença. Um
homem com câncer de próstata tem de fazer repetidas
dosagens de PSA e biópsias para medir a agressividade
do tumor. Num paciente com leucemia, é rotina a análise
da quantidade de plaquetas, estrutura básica do sangue
responsável pela coagulação. Quando apenas
um desses parâmetros se revela alterado, é sinal
de que o câncer escapou ao cerco. Os médicos,
então, partem para o ataque tradicional.
A vigilância
ativa é conseqüência direta do aperfeiçoamento
dos métodos de diagnóstico e do aprofundamento
no conhecimento sobre as características dos tumores.
"Quanto mais dados obtivermos da biologia dos cânceres,
mais seguro será incluir pacientes nesse monitoramento",
diz Celso Gromatzky, chefe do departamento de andrologia da
Sociedade Brasileira de Urologia. Do total de novos casos
de câncer registrados anualmente no Brasil, estima-se
que cerca de 1,5% é passível de ser incluído
nos protocolos de vigilância ativa o que representa
7.000 novos pacientes todos os anos. Pode parecer pouco, mas
há dez anos era metade disso. E a tendência é
de crescimento.
Mesmo com a segurança
dos exames de controle, um grande número de pacientes
reluta em se submeter à vigilância ativa. É
compreensível. Para a maioria das pessoas, o câncer
ainda representa uma inapelável sentença de
morte e, portanto, é inconcebível a idéia
de ter um tumor maligno e simplesmente deixá-lo quieto.
Um estudo conduzido por urologistas do Weill Cornell Medical
Center, em Nova York, divulgado recentemente, revela um dado
impressionante a respeito dessa dificuldade. Seis de cada
dez homens com câncer de próstata optam pela
cirurgia radical, mesmo quando poderiam escolher a vigilância
ativa. "Quando proponho esse tipo de conduta, muitos acham
que se trata de um artifício para esconder o que seria
a sua má condição de saúde", diz
o urologista Gustavo Cardoso Guimarães, do departamento
de cirurgia pélvica do Hospital do Câncer.
No momento de decidirem
se um paciente está apto a ficar sob vigilância
ativa, os médicos não devem levar em conta apenas
a saúde física. Precisa ser avaliada também
a sua condição psicológica. "Algumas
pessoas ficam tão ansiosas em relação
à doença que passam a associar qualquer desconforto
físico, como uma dor de cabeça, com o câncer",
diz a psicóloga Flávia Chwartzmann, especialista
em oncologia do Hospital das Clínicas de São
Paulo. Nesses casos, a vigilância ativa, que deveria
representar um alívio para o paciente, transforma-se
num verdadeiro tormento. Há um padrão usado
na oncologia que serve para determinar se o paciente tem condições
emocionais de lidar bem com o monitoramento. Os sentimentos
negativos em relação ao câncer, como medo,
depressão e ansiedade, não devem comprometer
a rotina do doente por mais de três meses. José
Altman, de 81 anos, teve calma e tranqüilidade suficientes
para enfrentar o diagnóstico de câncer na próstata,
em 2003. Quando o médico lhe sugeriu a vigilância
ativa, ele não titubeou. "Eu já vi como um tratamento
contra o câncer pode comprometer a vida de um homem",
diz Altman. "Ter a opção de não fazer
nada foi a melhor notícia que eu poderia ter recebido."
O cigarro carimba
o DNA
Quando parecia
praticamente impossível acrescentar mais um item
ao já extenso rol dos malefícios do cigarro,
eis que a ciência descobre que o tabagismo causa
danos irreversíveis aos pulmões. Isso
significa que, ao contrário do que se pensava,
os ex-fumantes continuam sob um risco maior do que a
média de desenvolver câncer de pulmão.
A explicação para tamanho estrago está
nos genes. É como se o cigarro carimbasse o DNA
das células do sistema respiratório, promovendo
uma alteração genética indelével.
A descoberta foi feita por pesquisadores do British
Columbia Cancer Research Centre, no Canadá, e
publicada na revista científica BMC Genomics.
Seus resultados dão embasamento científico
a uma constatação da prática clínica:
metade dos novos casos de tumores de pulmão aparece
em ex-fumantes.
Liderada
pelo médico Raj Chari, a equipe canadense analisou
o tecido pulmonar de oito fumantes, doze ex-fumantes
e quatro voluntários que nunca fumaram. Ao mapearem
e compararem o perfil genético deles, os pesquisadores
verificaram que, apesar de alguns genes modificados
pelo fumo terem voltado ao normal, pelo menos 124 deles
permaneciam alterados todos associados à
produção de proteínas envolvidas
no câncer de pulmão. Acredita-se que, quanto
maior a exposição ao cigarro, mais extensas
serão as alterações genéticas.
Os ex-fumantes que participaram do estudo consumiam
pelo menos um maço por dia e tinham parado de
fumar havia um ano, no mínimo, após três
décadas de baforadas.
O trabalho
canadense derruba a tese segundo a qual, uma vez abandonado
o vício, o organismo conseguiria se recuperar
totalmente dos malefícios do cigarro. "Ocorre
uma recuperação, mas apenas em relação
ao maior perigo de ocorrência de outros problemas,
como infarto, derrame e enfisema", diz o oncologista
Jefferson Luiz Gross, do Hospital do Câncer A.C.
Camargo. Sabe-se, por exemplo, que, depois de quinze
anos sem fumar, um ex-fumante corre o mesmo risco de
apresentar doença cardiovascular que um não-fumante.
A ciência mostra agora que, no caso do câncer
de pulmão, o perigo nunca é zerado. "Mesmo
assim, depois de dez anos de abandonado o vício,
o risco de desenvolver câncer de pulmão
cai drasticamente", diz Gross. O câncer de pulmão
é o mais letal de todos os cânceres
e, em 85% dos diagnósticos, a culpa é
do cigarro.