Armário abarrotado?
Troque roupas com as
amigas e abarrote o armário de coisas novas
Suzana Villaverde
Fabiano
Accorsi
Julia (de estampado)
e amigas: uma tarde inteira dedicada ao ritual do troca-troca
Guarda-roupa de mulher é como time europeu de primeira
linha: tem elementos excelentes que nunca saem do banco de
reservas. O excesso de peças que não entram
em campo é fruto de uma conhecida combinação
de razões. Número 1, o excessivo apego a roupas
que têm valor "sentimental", estão novas em folha
e algum dia hão de voltar à moda. Número
2, os abusos cometidos em liquidações, incluindo
a aquisição de calças que vão
fechar assim que aquele regime podar alguns quilinhos e sapatos
vermelho-bombeiro salto 15. Na era da abundância, dos
armários abarrotados, do hábito de adquirir
uma mala nova ao fim de cada viagem (para acomodar as comprinhas,
claro), da mulher que, segundo uma pesquisa inglesa, acumula
uma média de 111 bolsas ao longo da vida, ter e não
usar implode espaços preciosos e incomoda a consciência.
Mas a mesma sociedade que produz excessos encontra soluções.
A última, nesse campo, é a troca de roupas entre
amigas: cada uma chega com o que não quer mais e vai
embora com o que imagina ser necessário.
A produtora paulistana
Julia Nogueira, 27 anos, reúne-se uma vez a cada seis
meses com um punhado de amigas para o ritual. "Ficamos a tarde
toda experimentando coisas e conversando. Uma vez chamamos
até um cabeleireiro, para fazer cabelo e maquiagem
enquanto provávamos as peças", diz Julia, que
no mês passado organizou uma troca clothing
swap, no jargão do meio no quintal de sua
casa em São Paulo, com comidinhas, música e
tarô. Cada convidada levou uma sacola de roupas
ou mala, no caso da gerente de marca Camila Kishimoto, 27.
"Por trabalhar em loja, eu compro e ganho muita roupa. Estava
na hora de me livrar de algumas", diz Camila, que fez sucesso
por contribuir com peças de marcas famosas, algumas
ainda com etiqueta de preço. A artista plástica
Luisa Furman, 28, adepta do coturno e do preto, livrou-se
de peças nada básicas: um microvestido de onça,
outro de rendinha rosa e um top de lastex colorido que nunca
havia usado na vida. "Comprei tudo no mesmo bazar. Estava
tão barato", suspira. Fora do Brasil, as clothing
swaps, prática nascida nos Estados Unidos que tomou
conta da Europa e do Japão, chegam a reunir centenas
de pessoas em galpões industriais. Uma equipe separa
as peças em caixas (calças ali, blusas aqui),
para facilitar o processo. Tudo é de graça;
o que sobra vai para instituições de caridade.
"Fico feliz de ver que as pessoas estão menos apegadas
às suas coisas", teoriza Emily Tremayne, 39 anos, fundadora
da concorridíssima Swap-O-Rama-Rama, festa de troca-troca
promovida em diversas cidades americanas. Emily diz que não
ganha nada com isso, embora às vezes cobre ingresso
para cobrir despesas. "Antes das clothing swaps eu
comprava roupa como todo mundo. Hoje, só gasto com
meia e calcinha", brinca.