Ferramenta fundamental
na carreira e no crescimento pessoal, o português pode ser transformado
por um acordo ortográfico. Mas essa não é a única
revolução por que a língua está passando
Jerônimo
Teixeira
Lailson Santos
MEIA-SOLA
ORTOGRÁFICA
"Sou contra o acordo. Sei que isso é um tiro
no próprio pé, pois, se o acordo passar, vou ser chamado para fazer
muitas palestras. Mas não quero esse dinheiro, não. Com outro espírito,
outra proposta, uma unificação talvez fosse possível. Mas
esta é uma reforma meia-sola, que não unifica a escrita de fato
e mexe mal em pontos como o acento diferencial. Vamos enterrar dinheiro em uma
mudança que não trará efeitos positivos." Pasquale
Cipro Neto, professor de português
Engavetado desde sua assinatura, em 1990, voltou a assombrar o acordo ortográfico
que visa a unificar a escrita do português nos países que o adotam
como língua oficial. O Ministério da Educação chegou
a anunciar a entrada em vigor da reforma no Brasil já em 2008. Felizmente,
essa data foi postergada. Por mais modorrenta que seja, essa discussão
não deve se extinguir. Ela tem implicações profundas de ordem
técnica e comercial, além de provocar ainda mais ansiedade nos milhões
de brasileiros mergulhados em dúvidas no seu empenho diário para
falar e escrever bem. Dominar a norma culta de um idioma é plataforma mínima
de sucesso para profissionais de todas as áreas. Engenheiros, médicos,
economistas, contabilistas e administradores que falam e escrevem certo, com lógica
e riqueza vocabular, têm mais chance de chegar ao topo do que profissionais
tão qualificados quanto eles mas sem o mesmo domínio da palavra.
Por essa razão, as mudanças ortográficas interessam e trazem
dúvidas a todos. O acordo diz como se devem usar o hífen e o acento
agudo e outros desses minúsculos sinais gráficos que já fizeram
estatelar muitas reputações. A diferença entre um sucesso
e um vexame pode ser determinada por uma simples crase mal utilizada. Portanto,
não há como ignorar quando os sábios se reúnem para
determinar o que é certo e errado no uso do português.
Nas grandes corporações, os testes de admissão concedem à
competência lingüística dos candidatos, muitas vezes, o mesmo
peso dado à aptidão para trabalhar em grupo ou ao conhecimento de
matemática. Diversas pesquisas estabelecem correlações entre
tamanho de vocabulário e habilidade de comunicação, de um
lado, e ascensão profissional e ganhos salariais, de outro. Salte-se agora
do micro para o macro. Uma decisão aparentemente arcana sobre o uso correto
do trema, por exemplo, pode ganhar contornos bem mais amplos em um momento em
que os idiomas nacionais sofrem todo tipo de pressão desestabilizadora.
Como diz o lingüista britânico David Crystal (veja
entrevista), a globalização e a revolução
tecnológica da internet estão dando origem a um "novo mundo lingüístico".
Entre os fenômenos desse novo mundo estão as subversões da
ortografia presentes nos blogs e nas trocas de e-mails e o aumento no ritmo da
extinção de idiomas. Estima-se que um deles desapareça a
cada duas semanas. Cresce a consciência de que as línguas bem faladas,
protegidas por normas cultas, são ferramentas da cultura e também
armas da política, além de ser riquezas econômicas.
A reforma do português ora em curso vai se defrontar com um desafio inédito.
Outras mudanças foram feitas em situações em que era bem
menos intenso o ritmo de entrada de palavras e conceitos na corrente da vida cotidiana.
Em tempos de internet, as línguas, por natureza refratárias a arranjos
de gabinete e legislações impostas de cima para baixo, podem se
comportar como potros indomáveis. Quem vai ligar para as novas regras de
uso do hífen quando mantém longas e satisfatórias conversações
na internet usando apenas interjeições e símbolos gráficos
como os consagrados "emoticons" para alegre :-) ou triste :-(?
David Crystal cunhou o termo netspeak para designar as formas inéditas
de expressão escrita que a internet gerou. A inclusão de símbolos
audiovisuais, os links que permitem "saltos" de um texto para o outro nada
disso existia nas formas anteriores de comunicação. A comunicação
por escrito se tornou mais ágil e veloz, aproximando-se, nesse sentido,
da fala. "A necessidade de diminuir o tempo de escrita e se aproximar do tempo
da fala levou os usuários a ser cada vez mais objetivos e compactos", diz
o lingüista Antonio Carlos dos Santos Xavier, da Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE). Essa tendência é mais notória nas conversas
que os adolescentes mantêm através de programas como o MSN, com abreviações
como blz (beleza) e frases de sonoridade tribal como bora nu cinema
pod c as 8? (vamos ao cinema pode ser às 8?). Mas o
netspeak não é só para os imberbes. Até no âmbito
profissional a objetividade eletrônica está imperando. A carta comercial
que iniciava com a fórmula "vimos por meio desta" é peça
de museu. "Gêneros como a carta circular ou o requerimento estão
em extinção. O e-mail absorveu essas funções", observa
a lingüista Cilda Palma, que, em sua dissertação de mestrado
na UFPE, estudou a comunicação interna de uma empresa pública
um posto regional dos Correios e de uma empresa então recentemente
privatizada, a Petroflex. Ela constatou que a correspondência eletrônica
tornou a comunicação mais informal e que essa tendência
foi mais longe na empresa privada. Observa a pesquisadora: "Os Correios ainda
mantêm uma infra-estrutura anacrônica, que exige fotocópias
e carimbos nos comunicados internos".
Embora a língua sofra ataques deformadores diários nos blogs e chats,
a palavra escrita nunca foi usada tão intensamente antes. Os mais otimistas
apostam que os bate-papos da garotada travados com símbolos e interjeições
hoje podem ser a semente de uma comunicação escrita mais complexa,
assim como o balbuciar dos bebês denota a prontidão para a fala lógica
que se seguirá. Pode ser. Seria ótimo que fosse assim. Por enquanto,
uma maneira de se destacar na carreira e na vida é mostrar nas comunicações
formais perfeito domínio da tradicional norma culta do português.
Vários estudos demonstram a correlação positiva entre um
bom domínio do vocabulário e o nível de renda, mesmo que
não se possa traçar uma correlação direta e linear
entre uma coisa e outra. Além de conhecer as palavras, é preciso
que se tenha alguma coisa a dizer de forma lógica e racional. O vocabulário,
por si só, não garante precisão ou beleza na escrita. "Machado
de Assis compôs toda a sua obra com aproximadamente 12.000 vocábulos,
enquanto Coelho Neto, autor ilegível, teria empregado mais de 35.000 palavras
diferentes na sua longa e obscura carreira", lembra o professor de português
Cláudio Moreno. Mesmo que pareça meio quadrado na mesa do bar, quem
mais se distanciar do linguajar trivial dos chats nas comunicações
formais mais será notado pela competência.
É empobrecedor, porém, ignorar a revolução
cultural da internet. Como toda inovação tecnológica abrangente,
a civilização digital ampliou o léxico de muitos idiomas,
entre eles o português. E o fez, basicamente, pela incorporação
de palavras em inglês (site, download, hardware). Essas adições
causam horror aos puristas da linguagem. Bobagem. A maior fonte de enriquecimento
dos idiomas em todos os tempos é a incorporação de vocábulos
oriundos de línguas estrangeiras e de revoluções tecnológicas.
O português cresceu muito enquanto seus navegadores exploravam os "mares
nunca dantes navegados" cantados por Luís de Camões. "Calcula-se
que o português medieval tinha perto de 15 000 vocábulos. Em meados
do século XVI, com a expansão marítima, o total chegaria
a 30.000, 40.000", observa o filólogo Mauro Villar, do Dicionário
Houaiss. Nesse processo, é preciso levar em conta também a popularização
do vocabulário especializado, que em geral não entra nos dicionários.
Por mais abrangente que seja um dicionário, ele recolhe apenas algumas
centenas de milhares de palavras. O Houaiss tem perto de 230.000 verbetes.
O Oxford English Dictionary, o famoso OED, registra 615.000. Ambos são
recortes muito limitados de um universo em permanente expansão. Só
as palavras necessárias à prática da medicina estariam na
casa de 600.000. Eventualmente, uma grande virada em um desses campos científicos
puxa o vocabulário especializado mais para perto do chão dos dicionários.
DNA é um exemplo eloqüente: o acrônimo em inglês de ácido
desoxirribonucléico (componente fundamental do código genético)
saiu dos laboratórios e se incorporou ao dia-a-dia.
A internet é, além de tudo, um campo essencial na disputa pelo mercado
dos idiomas. O estudo da economia da língua é um campo promissor.
A Fundação Telefónica, da Espanha, está promovendo
um projeto de pesquisa que deve durar quatro anos e pretende aferir o peso econômico
do idioma espanhol no mundo. "O valor de uma língua se relaciona com sua
capacidade de incentivar os intercâmbios econômicos", explica o economista
José Luis García Delgado, coordenador do projeto. Embora não
seja possível atribuir uma cifra monetária a uma língua,
faz pleno sentido falar no valor relativo que ela tem na comparação
com outras línguas. O número total de falantes nativos é
um fator essencial. O espanhol tem cerca de 450 milhões, patamar semelhante
ao do inglês (o português fica em torno de 250 milhões). O
inglês, porém, domina a internet: de acordo com o Internet World
Stats, site que concentra números mundiais sobre a rede, 30% dos usuários
da rede são falantes nativos do idioma de Shakespeare, contra 9% de usuários
da língua de Cervantes. Mais importante, o inglês é forte
como segunda língua. O British Council estima que pelo menos 1 bilhão
de pessoas estão estudando inglês hoje no mundo.
"O inglês está destinado a ser uma língua
mundial em sentido mais amplo do que o latim foi na era passada e o francês
é na presente", dizia o presidente americano John Adams no século
XVIII. A profecia se cumpriu: o inglês é hoje a língua franca
da globalização. No extremo oposto da economia lingüística
mundial, estão as línguas de pequenas comunidades declinantes. Calcula-se
que hoje se falem de 6.000 a 7.000 línguas no mundo todo. Quase metade
delas deve desaparecer nos próximos 100 anos. A última edição
do Ethnologue o mais abrangente estudo sobre as línguas mundiais
, de 2005, listava 516 línguas em risco de extinção.
O português está
entre os vencedores da globalização. É uma língua
que vem crescendo na internet: nos últimos sete anos, o número de
falantes da língua portuguesa que navegam na rede aumentou em 525% (embora
ainda represente apenas 4% dos usuários). O acordo ortográfico tem
a intenção manifesta de incrementar o "valor de mercado" do português.
Desde o início criticada dos dois lados do Atlântico, a unificação
da língua portuguesa foi uma causa cara ao filólogo brasileiro Antônio
Houaiss, morto em 1999. O acordo foi firmado em 1990 pela Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa (CPLP), então com sete membros Brasil,
Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São
Tomé e Príncipe. Mais tarde, o Timor Leste também faria sua
adesão. Os prazos de implantação das novas regras estipulados
em 1990 nunca foram cumpridos, e a ratificação do acordo foi adiada
sucessivamente. Um novo acerto firmado em uma conferência de chefes de estado
da CPLP em 2004 determinou que bastaria a ratificação de três
membros para que o acordo entrasse em vigor, o que aconteceu no fim do ano passado.
O problema é que só os três países que ratificaram
Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe deram
mostras de querer levar a reforma adiante. Naturalmente, nenhuma unificação
ortográfica merece ser chamada assim se a matriz da língua, Portugal,
não a seguir. Autoridades portuguesas têm falado em esticar os prazos
de adaptação às novas regras em até dez anos.
VEJA ouviu quatro profissionais da língua portuguesa. O único que
considera a unificação importante do ponto de vista da política
da língua é o gramático Evanildo Bechara, da Academia Brasileira
de Letras. Mas ele faz restrições ao conteúdo da reforma,
que teria perdido a oportunidade de racionalizar algumas regras. Os outros três
especialistas são mais radicais na crítica. "É um acordo
meia-sola", avalia Pasquale Cipro Neto. Ele cita algumas palavras que continuam
sendo grafadas de duas formas, conforme a pronúncia ou as idiossincrasias
de cada país caso de "cómodo" (Portugal) e "cômodo"
(Brasil), ou de berinjela/beringela. "Essa idéia messiânica, utópica
de que a unificação vai transformar o português em uma língua
de relações internacionais é uma tolice", diz o professor
Cláudio Moreno. Sérgio Nogueira considera que só uma categoria
vai ganhar vantagens com o acordo: os professores que dão aulas e palestras
sobre língua portuguesa. "Se a reforma sair, vou ficar rico de tanta palestra
que vou dar", ironiza. As editoras em geral estariam no lado perdedor do acordo,
já que teriam de adequar seus catálogos à nova grafia. O
custo médio para a revisão e a preparação de um único
livro ficaria em torno de 5.000 reais. A revisão de enciclopédias
e dicionários seria ainda mais custosa. "Só a atualização
do nosso banco de dados ficaria entre 200.000 e 400.000 reais", calcula Breno
Lerner, diretor-geral da Melhoramentos, que publica os dicionários Michaelis.
As diferenças culturais
não se resolvem assim apenas com um golpe de pena. Mesmo com a ortografia
unificada, dificilmente uma dona-de-casa portuguesa vai comprar um livro de culinária
brasileiro que fala em "açougue" ("talho" em Portugal), e o carpinteiro
brasileiro com um manual português nas mãos talvez fique embasbacado
com a palavra "berbequim" (furadeira). De outro lado, a grafia cheia de letras
mudas tecto, facto, acto não impediu o português José
Saramago de ser best-seller no Brasil. Como a natureza, a arte e a inteligência
sempre encontram uma maneira de se manifestar. Com a ajuda de uma norma culta
e amplamente aceita, esse trabalho fica mais fácil.
Lailson Santos
MINHA
PÁTRIA, MINHA LÍNGUA
"Creio
que a unificação do português tem um sentido político
positivo. Aumenta o conceito da língua como nação. A adaptação
talvez seja difícil. Mas a língua é um organismo vivo e vai
seguir em frente. No meu trabalho de compositor, a ortografia repercute pouco.
Nas letras de rock, a gente trabalha com a informalidade, com a fala da rua." Tony Bellotto, músico da banda
Titãs, autor de Bellini e a Esfinge e apresentador do programa
Afinando a Língua
PREGUIÇA CÉTICA
"Encaro com grande ceticismo esse acordo ortográfico.
É uma reforma tímida, que não traz grandes inovações.
Mas não gostei. Queria que meus tremas ficassem onde estão. Os escritores
mais velhos e mais preguiçosos têm de confiar no pessoal da editoração
para fazer as mudanças necessárias no texto." João
Ubaldo Ribeiro, escritor, autor de Sargento Getúlio e Viva
o Povo Brasileiro
Oscar
Cabral
Ernani d'Almeida
MUDANÇA
TÍMIDA
"Do ponto de vista
político, a unificação ortográfica é importante.
Implica numa maior difusão da língua portuguesa nos seus textos
escritos. Mas a reforma poderia ter avançado mais e de forma mais inteligente
na racionalização dos acentos e do hífen. As regras ainda
são pouco acessíveis para o homem comum." Evanildo Bechara,
gramático, membro da Academia Brasileira de Letras
Mirian
Fichtner
SIMPLES
E CIVILIZADA
"A unificação
já devia ter ocorrido antes. É uma medida civilizada. A diferença
na escrita dos países que falam português atrapalha o intercâmbio
econômico e editorial. Como toda reforma, essa proposta tem suas falhas.
Mas acho ótimo, por exemplo, o fim do trema. Sou a favor de tudo que vai
no sentido da simplificação." Lya Luft, escritora,
autora de Perdas & Ganhos e colunista de VEJA
UMA REVOLUÇÃO
SEM GRAMÁTICA
Divulgação
David
Crystal: a política está sempre por perto das questões lingüísticas
Professor honorário
de lingüística da Universidade do País de Gales, em Bangor,
David Crystal, de 66 anos, é uma das maiores autoridades mundiais em linguagem.
Autor de A Revolução da Linguagem (Jorge Zahar), ele falou
a VEJA sobre as mudanças que a internet trouxe ao uso da língua
e sobre as línguas em extinção.
A INTERNET ESTÁ MUDANDO O CARÁTER
DAS LÍNGUAS? Em cinqüenta ou 100 anos, todas as línguas
que utilizam a internet serão diferentes. Está surgindo o que chamo
de netspeak, "fala da rede", ou comunicação mediada pelo
computador, em jargão acadêmico. Ainda é impossível
prever, no entanto, quais serão a forma e a extensão dessa mudança.
Leva muito tempo para que uma transformação efetiva se manifeste
numa língua. No inglês, por exemplo, notamos uma grande diferença
entre a linguagem de Chaucer e a de Shakespeare. Duzentos anos separam o nascimento
de um e de outro. Pergunte às pessoas quando foi a primeira vez em que
elas mandaram um e-mail. Foi há dez, talvez cinco anos. É algo recente
demais. Existem curiosos fenômenos de ortografia, o uso de sinais tipográficos
e dos chamados emoticons. Mas, se procurarmos por novas palavras ou uma nova gramática
na internet, não encontraremos muita coisa. O inglês é uma
língua com mais de 1 milhão de palavras, e somente umas poucas centenas
foram incorporadas a ela por causa da internet. Isso não altera o seu caráter.
A INFORMALIDADE
É UMA CARACTERÍSTICA CENTRAL DO NETSPEAK?
Sim, até o momento. Isso tudo começou com os nerds da internet,
há vinte, trinta anos. E eles eram rebeldes. Viam a rede como uma revolução,
uma alternativa democrática às formas de comunicação
mais formais. Esses pioneiros não pontuavam, não se preocupavam
com ortografia, criavam formas estranhas de grafar as palavras. Quando a internet
se espalhou, a informalidade se popularizou também. Nos anos 80 e 90, e-mails
se tornaram muito informais. Mas a idade média do usuário de internet
vem subindo, e com isso a comunicação está ficando mais formal
novamente. Acredito que os estudos sobre netspeak que virão daqui
por diante vão documentar um aumento da formalidade.
O SENHOR AFIRMA QUE, NO ATUAL RITMO DE EXTINÇÃO,
EM UM SÉCULO TEREMOS SO METADE DAS LÍNGUAS QUE SÃO FALADAS
NO PLANETA HOJE. POR QUE TANTAS LÍNGUAS ESTÃO DESAPARECENDO?
O principal motivo é a assimilação cultural por causa da
globalização. O crescimento das grandes línguas do mundo
funciona como um trator, esmagando os idiomas que se põem no caminho. Isso
não é um fenômeno restrito a duas ou três línguas.
Não é apenas o inglês que ameaça línguas nativas
na Austrália, ou o português que põe em perigo idiomas indígenas
no norte do Brasil. O chinês, o russo, o hindi, o suahili todas as
línguas majoritárias ameaçam idiomas de comunidades pequenas.
O futuro dessas línguas minoritárias está vinculado a políticas
regionais. Nos lugares onde elas sobrevivem, há uma série de práticas
políticas e econômicas que valorizam a diversidade.
O QUE SE PERDE QUANDO UMA LÍNGUA MORRE?
Quando me fazem essa pergunta, costumo rebater com outra: como seria o mundo se
a sua língua não houvesse existido? O que você teria perdido,
o que todos teríamos perdido se não existisse o português?
Se não houvesse o inglês, não teríamos Chaucer, Shakespeare,
Dickens. Quando colocamos as coisas nesses termos, as pessoas vêem. Uma
língua expressa uma visão peculiar do mundo. Não importa
se a comunidade que utiliza essa língua vive em uma selva, em um iceberg
ou na cidade, sua história, seu ambiente e seu modo de pensar não
têm igual. O único meio de comunicarmos a percepção
do que é ser humano em determinado ambiente é através da
linguagem.
NO BRASIL,
JÁ HOUVE TENTATIVAS DE RESTRINGIR LEGALMENTE O USO DE PALAVRAS ESTRANGEIRAS,
ESPECIALMENTE DO INGLÊS. O INGLÊS PODE SER CONSIDERADO EM ALGUMA MEDIDA
UMA AMEAÇA AO PORTUGUÊS? Não, de forma alguma. Esses
movimentos puristas aparecem no mundo todo. E o fato básico é que
todas as línguas tomam empréstimos das outras. Ao longo dos últimos
1.000 anos, o inglês incorporou palavras de mais de 350 línguas.
Só 20% das palavras do inglês atual remontam às origens anglo-saxônicas
e germânicas da língua. Essa incorporação de palavras
tornou o inglês uma língua expressiva e rica. Shakespeare não
poderia escrever o que escreveu se não contasse com um vocabulário
que era germânico, francês e latino. Palavras se incorporam a uma
língua não para destruí-la, mas para permitir novas oportunidades
de expressão. Se cada palavra que entra no português apagasse uma
palavra anterior, isso seria de fato um fenômeno estranho e indesejável.
Mas não é assim que funciona. A nova palavra não substitui
palavras preexistentes, ela passa a vigorar ao lado delas. A língua evolui
desse modo e alcança uma gama expressiva mais ampla.
COMO LIDAR COM A QUESTÃO DO VOCABULÁRIO
IMPORTADO AO EDUCAR AS CRIANÇAS? Os jovens gostam de usar palavras
estrangeiras, pois em geral elas soam inovadoras. Gostam também de empregar
gírias que eles próprios criam. Não se pode proibir jamais
crianças e adolescentes de utilizar suas formas particulares de linguagem.
É como dizer a eles: "Valorizem a linguagem mas não a sua
própria". É muito importante que, nas escolas, os estudantes aprendam
toda a gama de possibilidades da língua. Eles precisam descobrir que há
palavras tradicionais e palavras novas para as mesmas coisas. E devem saber também
a diferença estilística entre essas opções.
POR QUE O INGLÊS
É A LÍNGUA MAIS VISADA PELOS PURISTAS? Pela razão
simples de que é a língua mais globalizada. É sobretudo uma
questão política, que varia de região para região.
Quem fala quíchua, no Peru, não está preocupado com o inglês,
mas com vocábulos que remetem à história do domínio
espanhol sobre os povos indígenas. A política está sempre
por perto nessas questões.