Mais um caso
de desvio de conduta mostra
anarquia em instituições policiais do Rio
Ronaldo Soares
Fabio Gonçalves/AG.
O DIA
Erthal: falsa operação
e ajuda da noiva na delegacia
No rol dos tormentos urbanos
causados pela insegurança, a falsa blitz ocupa um lugar
de destaque. Ela é uma armadilha inescapável.
Ao ser parado por um indivíduo vestido de policial,
não há para o cidadão a opção
de fugir. É assustador. Apesar disso, elas continuam
surgindo como pragas nas ruas do Rio de Janeiro. Na semana
passada, um grupo de policiais fora do horário de expediente
e de sua jurisdição usou carros da própria
polícia para simular blitze nas ruas de Niterói,
na região metropolitana do Rio. Não queriam
necessariamente roubar. Estavam se "divertindo", conforme
alegou em seu depoimento o mais graduado entre eles, o delegado
de polícia civil Célio Erthal, lotado em uma
delegacia distante 100 quilômetros de onde estava naquele
momento. O divertimento a que se referiu foi um festival de
arbitrariedades: truculência, intimidação,
violência física e abuso de autoridade. Um motorista
chegou a afirmar que teve o dinheiro roubado. Os policiais
foram identificados e presos por uma equipe da Polícia
Militar. Quando se imaginava um desfecho com uma punição
à altura, mais uma vez se fez presente a anarquia que
mina a eficiência da polícia fluminense. Na delegacia
onde o grupo de policiais foi autuado, a delegada Raíssa
Cellis, noiva de Erthal, não se deu por impedida no
caso. Tentou convencer os policiais militares responsáveis
pela prisão a amenizar as acusações.
Luis Alvarenga / Ag. O
Globo
Neto: vítima de atentado,
o delegado se notabilizou por denunciar maus policiais
Se cenas desse tipo já
são suficientemente assustadoras, pior quando se olha
o entorno e se vê o número de crimes quase simultâneos
cometidos por policiais. Ainda na semana passada, a polícia
fluminense -- a parte que trabalha dentro da lei, fique claro
-- prendeu uma quadrilha formada por um PM, um bombeiro e
um guarda municipal acusada de praticar seqüestros e
extorsões. Na lista de seqüestrados do grupo incluem-se
um comerciante e a mulher de um traficante preso. Quando se
imaginava que era uma semana ruim, ela ficou pior. Um delegado,
Alexandre Neto, sofreu um atentado a tiros. A razão,
segundo ele mesmo, teria sido a série de denúncias
que fez contra integrantes da cúpula da Polícia
Civil no governo passado. Neto responsabilizou nominalmente
o ex-chefe de polícia e hoje deputado estadual Álvaro
Lins (PMDB-RJ) e a deputada federal Marina Maggessi (PPS-RJ),
ex-chefe de investigação da delegacia de entorpecentes.
Não custa lembrar o caso,
ocorrido no mês passado, dos dois cabos do Corpo de
Bombeiros que tentaram seqüestrar um empresário
à luz do dia na Barra da Tijuca. Estavam vestidos de
policiais federais. "Muitas pessoas que chegam à polícia
não têm uma formação apropriada.
Por isso se valem da carteira, do distintivo, para cometer
crimes e arbitrariedades", diz a corregedora da Polícia
Civil do Rio, Ivanete de Araújo. Trata-se de um evidente
problema de gestão. Enquanto não expulsar os
bandidos infiltrados nas corporações e criar
mecanismos verdadeiramente eficientes de seleção
e formação, a polícia do Rio será
como uma falsa blitz: parece de verdade, mas não é.