Os militares
brasileiros pacificaram o Haiti e o Haiti deu-lhes uma grande oportunidade
Victor
De Martino, do Haiti
Fotos
Victor de Martino
Acima,
o ministro Nelson Jobim em sua visita a Porto Príncipe. Abaixo, a base
com os contêineres italianos que servem de alojamento: segundo a ONU, 78%
dos haitianos aprovam o trabalho do Brasil
As tropas brasileiras
encontraram um país totalmente conflagrado quando chegaram
ao Haiti, em junho de 2004, com mandato da Organização
das Nações Unidas (ONU). Os tiroteios ocorriam
à luz do dia. À noite, nas regiões mais
violentas, vigorava o toque de recolher imposto por milícias
clandestinas. Em áreas como a de Cité Soleil,
a cidade mais convulsionada, os militares não se aventuravam
a entrar nem em tanques de guerra. VEJA esteve no Haiti pouco
antes da visita feita pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim,
aos 1.200 soldados brasileiros lá baseados. Encontrou
uma nação pacificada. No início deste
ano, o Exército e a Marinha do Brasil desbarataram
as últimas gangues que permaneciam em ação.
Hoje, patrulham a Cité Soleil à noite e a pé.
Os haitianos, que se trancavam em casa ao pôr-do-sol,
agora assistem nas ruas à passagem dos soldados. Uma
pesquisa feita pela ONU mostra que 78% da população
local aprova a missão de paz levada a cabo pelos brasileiros.
Trata-se de um índice de aprovação jamais
atingido pelas quatro missões anteriores, comandadas
por americanos, canadenses e franceses. "Se tivemos êxito,
ele se deve à relação de confiança
que os brasileiros estabeleceram com a população",
diz o diplomata Edmond Mulet, que chefiou a missão
por catorze meses.
As milícias foram desmanteladas, mas os militares brasileiros continuam
enfrentando rotinas pesadas de patrulhas, serviços de guarda na base e
tarefas administrativas. No Brasil, um soldado trabalha, em média, 44 horas
por semana. Lá, os expedientes semanais ultrapassam sessenta horas. Apesar
disso, ser escalado para trabalhar no Haiti equivale a receber um prêmio.
Em alguns casos, o soldo é quadruplicado. Um soldado, que no Brasil ganha
618 reais por mês, embolsa mais 972 dólares pagos pela ONU. Um capitão,
que normalmente recebe 3 600 reais, tem o salário aumentado em 3 250 dólares.
A maioria economiza o dinheiro extra para comprar um carro ou dar entrada em uma
casa. Além disso, quem vai para o Haiti tem prioridade nas promoções.
A base em Porto Príncipe,
a capital do país, é também muito mais confortável
do que os quartéis nacionais. Os militares dispõem de internet,
telefone, cineminha, academia de musculação e quadras esportivas.
Dormem em contêineres italianos fabricados especialmente para fins de alojamento,
equipados com ar-condicionado e frigobar. Muitos têm televisão, aparelho
de DVD e videogame. Os soldados têm uma folga por semana e, a cada mês,
fazem jus a uma licença de três dias. A maioria aproveita esses dias
em Kaliko, uma praia a duas horas de Porto Príncipe. A permanência
no Haiti dura no máximo seis meses prazo que inclui vinte dias de
férias. O soldado goiano Eraldo Neto, que nunca tinha visto o mar, aproveitou
para descansar num resort da vizinha República Dominicana. Os oficiais,
que ganham mais, costumam passar esse período no Brasil. O capitão
Rodrigo Silveira deverá vir em outubro, para escolher o nome de seu primeiro
filho. "Enquanto isso, acompanho a gravidez da Leriane, que já está
com cinco meses, pela webcam", diz ele.
O governo já gastou 430 milhões de reais na missão e, em
2008, despenderá mais 134 milhões. É o caso de perguntar
se, apesar de toda a contribuição para a paz no Haiti, não
teria sido melhor gastar esse dinheiro para reequipar a polícia brasileira.
Outra pergunta: se foram tão competentes para pacificar o país caribenho,
os militares não poderiam fazer o mesmo nas metrópoles nacionais
atormentadas pelo crime? "Se o Exército fizer nas favelas cariocas o que
fez no Haiti, as gangues acabam", diz o coronel Geraldo Cavagnari, do Núcleo
de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas. O Exército,
no entanto, abomina a idéia, porque sabe que, numa operação
desse tipo, baixas civis são inevitáveis. Ou seja, isto aqui continuará
sendo um Haiti. Já o Haiti, quanta diferença...
QUARTEL CINCO-ESTRELAS
Os
soldados dispõem de dormitórios com ar-condicionado e frigobar, sala de musculação,
internet, DVD e até mesmo um cineminha...
...para
agüentar as longas patrulhas nas favelas haitianas e as horas de guarda na base
militar de Porto Príncipe