Pelas idéias delirantes e pela tese de que o mensalão não
existiu, o congresso do PT parece coisa do mundo virtual
Otávio
Cabral
Montagem
com fotos Agliberto Lima-AE/Paulo Liebert-AE/ Ricardo Stuckert e Ed Ferreira-AE
Numa
realidade apenas virtual, o PT quer reestatizar empresas privadas, acabar com
o Senado e implantar o "socialismo sustentável". Na real, o objetivo é ter mais
poder
O Partido
dos Trabalhadores está vivendo um momento, digamos, Second Life,
aquela brincadeira da internet em que as pessoas criam para si mesmas avatares
com as qualidades que elas não possuem na vida real. Em sua Second Life,
o PT é um partido ético, suas lideranças estão acima
de qualquer suspeita e suas propostas têm legitimidade para resolver os
grandes problemas do país. O avatar José Dirceu é saudado
como o herói que volta de renhida batalha e os deputados acusados de corrupção
são vítimas de uma grande conspiração, um certo "mensalão",
que nunca existiu. O PT virtual pensa no futuro com magnanimidade, admitindo até
apoiar um candidato de outro partido para a sucessão presidencial. No 3º
Congresso Nacional do partido, encerrado na semana passada, em São Paulo,
a vida vicária dos petistas atingiu seu delírio máximo. Criou-se
ali um ambiente imaginário em que se aclamam virtudes que não existem
e se aniquilam problemas que podem trazer algum tipo de constrangimento. No avatar
petista, o passado recente foi expurgado e as perspectivas de futuro construídas
em cima de teses delirantes, como a reestatização de empresas, a
convocação de uma assembléia constituinte para fazer a reforma
política e a extinção do Senado. Foram três dias de
debates em que o petismo tentou recriar a realidade. Parecia a tela de um computador.
O congresso do PT aconteceu
na mesma semana em que o Supremo Tribunal Federal decidiu aceitar a denúncia
contra os quarenta acusados de integrar a maior e a mais bem organizada quadrilha
já descoberta agindo na estrutura de governo. Como se sabe, entre os acusados,
nove tinham posição de destaque no PT. O deputado José Genoíno,
processado por corrupção ativa e formação de quadrilha,
era o presidente do partido. Além dele, foram denunciados o ex-tesoureiro
Delúbio Soares, o ex-secretário Silvio Pereira, o ex-ministro Luiz
Gushiken, o ex-deputado José Dirceu, Professor Luizinho e João Magno
e os deputados João Paulo Cunha e Paulo Rocha.
Enquanto isso, na vida real...
O Brasil esperava que o partido, constrangido, no mínimo anunciasse alguma
medida contra a corrupção. Mas o PT, como resposta, decidiu apenas
adotar um código de ética para seus filiados, ainda assim somente
a partir do ano que vem. Ética pode esperar. Até o presidente Lula
incorporou seu avatar e deixou registrada uma contribuição para
reforçar a fantasia petista sobre os mensaleiros: "Sabemos que alguns companheiros
nossos foram indiciados pela Suprema Corte. Mas eu queria que os petistas tivessem
em mente uma coisa: até agora nenhum deles foi inocentado, mas também
nenhum deles foi culpado. É verdade que podemos ter cometido erros, e os
erros estão sendo apurados como precisam ser. Ninguém neste país
tem mais autoridade moral e ética do que nosso partido". O que Lula quis
dizer? Para o mundo real do petismo, foi uma moção de apoio aos
mensaleiros. Parece mesmo, mas também foi virtual.
No campo eleitoral, o mundo virtual petista também colocou em curso uma
realidade de faz-de-conta. O partido aprovou uma proposta na qual admite abrir
mão da candidatura própria à Presidência da República
em benefício de aliados, como Ciro Gomes, do PSB. É outra fantasia
travestida de nobreza. O PT quer sim ter seu próprio candidato à
sucessão de Lula. O problema é a falta de uma liderança.
Nomes apontados como possíveis sucessores de Lula, candidatos em potencial
a governador, senador ou prefeito de capital, caíram em desgraça
e saíram do jogo político. No mensalão, ou "erro", como os
petistas preferem, naufragaram José Dirceu, José Genoíno
e João Paulo Cunha. Ao quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo
Costa, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci se inviabilizou. Na compra do
dossiê contra os tucanos na eleição de 2006, Aloizio Mercadante
e Ricardo Berzoini foram atingidos. Já neste ano, Marta Suplicy e Marco
Aurélio Garcia sucumbiram à crise aérea. A primeira ao aconselhar
os passageiros a "relaxar e gozar" nas longas esperas nos aeroportos. O segundo
pelo famoso "top, top, top".
Na semana passada, ao comentar algumas das decisões do congresso do partido,
Lula, desta vez no mundo real, admitiu que o PT jogou para a platéia. Segundo
o presidente, o plebiscito para a reestatização da Vale do Rio Doce
era uma maneira de fazer média com os movimentos sociais historicamente
ligados ao partido. Ele garantiu que o governo não quer a reestatização
nem pretende discutir a idéia. Para quem ainda não compreendeu,
no mundo ideal o PT se diz um partido de esquerda, preocupado com as injustiças
sociais, cioso da ética e empenhado em implantar o "socialismo sustentável",
seja lá o que isso queira dizer. No mundo real, o PT tornou-se uma agremiação
política como outra qualquer, estrelado por deputados acusados de corrupção
e ocupados apenas com um objetivo: conquistar e manter o poder, se preciso à
custa de reinventar a realidade.