Em entrevista a VEJA,
advogado revela detalhes da
estranha associação entre o senador e um lobista
Diego Escosteguy
Ana Araujo
Bruno Lins transportou
dinheiro, testemunhou conversas e entregou propina a pedido
do lobista Luiz Garcia Coelho, seu ex-sogro, que apontava
Renan como "sócio"
O advogado Bruno
Brito Lins freqüentou durante anos a intimidade do lobista
Luiz Garcia Coelho. Na semana passada, VEJA revelou o teor
de um depoimento prestado por Bruno à polícia
no qual relata negociatas conduzidas pelo lobista em parceria
com o presidente do Senado, Renan Calheiros. Desde então,
por medo de represálias, Bruno dorme cada dia em um
endereço e desligou o celular. Na noite de terça-feira,
o advogado prestou um depoimento sigiloso à Polícia
Federal. Bruno contou em detalhes como sacou milhões
de reais no BMG a mando do lobista Luiz Coelho e como distribuiu
parte do dinheiro a um deputado federal. Na quarta-feira,
Bruno Lins recebeu VEJA para sua primeira entrevista sobre
o caso. Durante duas horas e meia, ele detalhou como funcionavam
os negócios clandestinos do lobista Coelho, seu ex-sogro,
a parceria que ele mantém com Renan Calheiros, a quem
chama de "chefe", e a intimidade que existe entre os dois.
Contou também minúcias da participação
do lobista em um dos mais nebulosos negócios do atual
governo, o crédito consignado para aposentados, e entregou
documentos para provar o que dizia. Bruno revelou ainda que
Flávia Coelho, sua ex-mulher, usa o gabinete e o prestígio
de Renan Calheiros para intermediar encontros do lobista com
funcionários do governo. Por fim, narrou como foi convidado
a participar de um golpe contra o fundo de pensão Postalis.
O CHEFE
Bruno conviveu
com o lobista Luiz Garcia Coelho desde que começou
a namorar sua filha, dez anos atrás. A convivência,
em alguns momentos muito intensa, consolidou nele a certeza
de que o ex-sogro e Renan Calheiros são muito mais
que simples amigos. São parceiros, sócios e
cúmplices em operações e negócios
que envolvem interesses dentro do governo. "O Luiz sempre
dizia que operava para o Renan", conta Bruno. É sabido
em Brasília que o presidente do Senado e Luiz Coelho
são amigos há pelo menos quinze anos. A intimidade
é tamanha que Coelho convidou Renan, em maio de 2000,
para ser padrinho do casamento de sua filha, funcionária
de confiança do senador. Há semanas em que os
dois chegam a se encontrar diariamente, sempre à noite,
no fim do expediente, na residência oficial da presidência
do Senado. Diz Bruno: "O Luiz sempre freqüentou a casa
do presidente do senado. Eu escutava ele dizendo: 'Estou indo
para a casa do chefe. Não tenho hora para voltar'.
Isso costumava ser no fim da noite. Às vezes, voltava
só de madrugada".
Quando você
soube pela primeira vez da relação de Renan
Calheiros com o seu sogro, Luiz Coelho? No meu casamento. Fiquei sabendo um mês antes que
ele seria padrinho, convidado pelo Luiz.
Por que você
diz que ele é homem de confiança de Renan Calheiros? Pelos comentários que ele vivia fazendo, de que
o "chefe" estava dando trabalho, estava dando dor de cabeça,
que o fazia trabalhar demais. Eu via o que estava acontecendo.
Os comentários sobre Renan eram recorrentes.
Ele trabalhava
em tempo integral para Renan? Ele sempre dizia que ia sair para resolver alguma coisa
para o Renan, ou para ir à casa do senador.
Como seu sogro
se referia a Renan? Na frente dos outros, ele quase nunca falava o nome do
senador. Em casa, Renan era chamado de chefe.
Bruno faz, inclusive,
uma nova revelação sobre as conexões
entre o presidente do Senado e o lobista Coelho. Segundo ele,
sua ex-mulher vale-se do cargo de assessora de Renan para
marcar audiências para "clientes" do pai com ministros
e autoridades do governo. Para isso, ela usa o e-mail do gabinete
e desfruta o prestígio do cargo de chefe de cerimonial
da Presidência. Explica Bruno: "O Luiz usa esse artifício
para marcar audiências no governo. Funciona perfeitamente.
Oficialmente, é um pedido do senador, mas quem vai
é o Luiz. Imagine se alguém vai recusar um pedido
de audiência feito em nome do presidente do Congresso".
O advogado não sabe se o senador tem conhecimento de
todas as audiências solicitadas em seu nome pela assessora,
mas não tem dúvida de que a ex-mulher tem carta-branca
para atuar. "Até onde eu sei, não é nada
escondido."
A NEGOCIATA
No começo
de 2005, Bruno testemunhou involuntariamente um dos negócios
mais nebulosos do governo Lula. Ele acompanhou de perto as
articulações do BMG com seu sogro para viabilizar
interesses do banco no Ministério da Previdência
até agora, não se sabe exatamente como
o BMG, um peixe pequeno do mercado financeiro, despontou com
tanta pujança na liderança do bilionário
mercado dos empréstimos consignados do INSS. O testemunho
do advogado a VEJA, rico em detalhes e episódios, começa
a esclarecer a história. Em fevereiro de 2005, Bruno
conta que estava jantando na casa do lobista e presenciou
uma reunião de três dirigentes do BMG com o ex-sogro.
Eles conversavam na sala de estar. Bruno, na sala ao lado,
escutava tudo. "Os quatro falavam sobre a necessidade de tirar
Amir Lando do Ministério da Previdência", conta
o advogado. Além de ter testemunhado essa reunião,
Bruno diz que também ouviu telefonemas de Coelho nos
quais o sogro conspirava para apear Lando do Ministério
da Previdência.
Quando começaram
as negociações entre Luiz Coelho e o BMG? Antes da posse do senador Renan Calheiros como presidente
do Senado, nunca tinham falado de crédito consignado,
de nada. Logo depois que Renan tomou posse, as conversas
sobre o BMG ficaram freqüentes, só se falava nisso.
Aliás, a cúpula do banco chegou a prestigiar
a posse do senador. Eu estava lá.
O que se falava? Eu presenciei conversas e ouvi telefonemas nos quais o
pessoal do BMG e o Luiz começaram a confabular para
tirar o Amir Lando da Previdência e colocar outra pessoa.
Quem? Eles falavam que tinham de nomear o senador Romero Jucá.
No começo
de março de 2005, um mês depois da posse de Renan
e poucos dias antes que Jucá efetivamente assumisse
o Ministério da Previdência, como era desejo
do grupo, Bruno conta que acompanhou Coelho até o hangar
da empresa Líder, no aeroporto de Brasília.
"Vamos buscar uns amigos meus", explicou o lobista, segundo
o relato de Bruno. Os dois seguiram no carro de Bruno. No
aeroporto, um Omega aguardava os três dirigentes do
BMG, que chegaram em um jatinho. Um deles era o presidente
do banco, Ricardo Guimarães. Os dirigentes do BMG e
Luiz Coelho foram até o gabinete do senador Romero
Jucá. "Eles ficaram por volta de uma hora e meia dentro
do gabinete", lembra o advogado. De lá, o carro que
transportava a cúpula do BMG retornou ao aeroporto.
O que um lobista e três banqueiros foram fazer no gabinete
de um senador? "O Luiz não comentou sobre o que se
falou lá dentro", diz Bruno. Nos dias que se seguiram,
as negociações entre Coelho e o BMG se intensificaram.
O advogado conta que o banco queria mudanças na instrução
normativa que regulava a concessão do crédito
consignado, permitindo o desconto em folha de compras feitas
com cartões de crédito. Durante as conversas
sobre as alterações, diretores do banco combinaram
de enviar a Luiz Coelho uma cópia da instrução
vigente, para que ele se inteirasse do assunto. Em nota, o
BMG sustenta que nunca tratou do tema crédito consignado
com Luiz Coelho. Uma intrigante mensagem eletrônica
foi enviada a Bruno Lins às 12h42 do dia 16 de março,
por Marcus Vinicius Vieira, um dos diretores jurídicos
do banco. VEJA teve acesso à mensagem. O e-mail desmente
a versão oficial do banco sobre a conversa a respeito
do crédito consignado. Dois dias depois da mensagem,
em 18 de março, o então presidente do INSS,
Carlos Bezerra, assinou uma instrução normativa
contendo as alterações que beneficiavam o BMG.
A PROPINA
Clique para ampiar
Em mensagem enviada a Bruno
Lins, o diretor do BMG trata de alterações na legislação
do crédito consignado
Felipe Barra
O período
em que Bezerra baixou a instrução e Romero Jucá
tomou posse na Previdência tudo que o BMG e Luiz
Coelho queriam e planejavam coincide com uma temporada
de saques em dinheiro vivo no banco e com a distribuição
de propina aos personagens envolvidos no caso. Bruno conta
que, entre o fim de março e o início de abril
de 2005, fez três saques no BMG, todos por ordem de
Luiz Coelho. O primeiro no valor de 300.000 reais, o segundo
de 1 milhão e o terceiro de 1,5 milhão. Seguindo
orientações do lobista, Bruno conta que foi
de carro a Belo Horizonte pegar uma "encomenda". No meio do
caminho, Coelho telefonou e lhe deu instruções:
"Você vai ligar para a Cremilda e pegar 150.000 reais".
Bruno ligou para a mulher, identificada como secretária
do BMG, e combinou o local da entrega: um posto, nas imediações
de Belo Horizonte. "Parei no posto e fiquei esperando", conta
Bruno. Logo depois, um motorista, chamado Adalmar, estacionou
um BMW escuro e desceu com uma sacola de papelão. "Aqui
tem 300.000", disse o motorista. Bruno, surpreso com a quantia,
ligou para Coelho para se certificar de que não havia
nenhum engano. No trajeto de volta, recebeu um telefonema
da secretária de Coelho, que lhe pediu para fazer um
depósito na conta de uma das empresas do sogro. Ele
não se recorda precisamente do valor total, mas garante
que não foi mais que 30 000 reais. Em Brasília,
o dinheiro foi entregue ao sogro, que o guardou num cofre
no quarto de sua casa, para, logo depois, começar a
distribuí-lo.
O dinheiro do
BMG teve que fim? Dois ou três dias depois, o Luiz me chamou na casa
dele e me pediu para levar 150 000 reais para o Carlos Bezerra,
no hotel Metropolitan.
Flávia Coelho: gabinete do senador
usado para os negócios do pai lobista
A que horas
ocorreu esse encontro? À tarde. Eu fui sozinho até o hotel. O próprio
Carlos Bezerra me atendeu. Estava de calça jeans, sapatos
e camisa social. Entreguei a sacola na porta do quarto, ele
agradeceu e eu fui embora.
Você fez
mais alguma entrega de dinheiro nesse dia? No mesmo dia, por volta das 9 da noite, Luiz me entregou
50.000 numa sacolinha, dessas de presente. Disse: "Dá
uma passadinha na casa do Leão (José Roberto
Leão, diretor da Dataprev) e deixa esse negócio
para ele". Fui à casa do Leão e entreguei a
sacola.
Três semanas
depois, já em abril, Coelho pediu pela segunda vez
ao genro que buscasse dinheiro no BMG. Dessa vez, numa agência
em Brasília, localizada num shopping. Coelho orientou
Bruno a procurar o gerente da agência. "Eram maços
de notas de 100, com cintas do Banco Central", relembra Bruno.
O gerente informou que o pacote continha 1 milhão de
reais. Cerca de um mês depois, Bruno recebeu a terceira
missão do sogro e foi novamente à agência
do BMG em Brasília buscar outro "envelope". Como da
vez anterior, Bruno recebeu o pacote das mãos do mesmo
funcionário, só que com 1,5 milhão de
reais. A mansão onde eram feitas as negociatas e guardada
a propina tem 1 000 metros quadrados e fica num bairro de
luxo da capital. O cofre-forte é cinza, mede cerca
de 1 metro quadrado e fica escondido na suíte de Coelho,
no 2º andar.
Glaucio Dettmar/CBPress
Celso Junior/AE
O deputado Carlos
Bezerra e Romero Jucá: propina de 150 000 paga em hotel
de Brasília e articulação para transformar o senador em
ministro
O GOLPE
Ana Araujo
A mansão do lobista: luxo, negócios
e um cofre cheio de dinheiro no quarto
Na Páscoa
de 2006, Bruno fez uma viagem de carro com o sogro a Arraial
d'Ajuda, na Bahia. O casamento dele com a assessora de Renan
já estava degringolando, mas Coelho fez uma proposta
ao genro. O lobista confidenciou que estava prestes a entrar
num grande negócio e queria que ele coordenasse o início
das operações. O plano de Coelho era construir
um resort de luxo em Trancoso, na Bahia, com dinheiro do fundo
de pensão dos Correios, o Postalis. O resort custaria
250 milhões de reais, mas a idéia era estimar
o investimento em 500 milhões de reais, para que o
fundo, ao arcar com aparentemente metade do empreendimento,
pagasse tudo. O banco BVA ficaria responsável por avalizar
o negócio. Bruno presenciou uma reunião na casa
do sogro em que o assunto foi discutido e na qual estavam
presentes o presidente do BVA, José Augusto dos Santos,
e o então presidente do Postalis. Segundo Bruno, o
lobista disse que Renan seria um dos sócios, por causa
da influência que o PMDB tinha junto aos fundos de pensão.
O negócio
não foi para a frente? Eles ainda estavam negociando a compra do terreno. O Luiz
me contou os planos, me convidou para participar, mas eu não
aceitei.
Carlos Moura/CB
Garcia Coelho: amizade e visitas
freqüentes ao senador Renan Calheiros
O Renan participaria
do negócio? Meu ex-sogro disse que ele poderia ser um dos sócios.
Bruno Lins conta
ainda que esteve com o senador Renan Calheiros no dia 28 de
junho passado, no escritório do advogado Eduardo Ferrão.
Explica que resolveu procurar o advogado quando começaram
a surgir rumores de que suas revelações estariam
sendo usadas por um conhecido estelionatário da cidade
para extorquir o senador. Estelionatário por coincidência
muito conhecido da família Garcia Coelho. Ele diz que
foi ao escritório para esclarecer que, pessoalmente,
nada tinha contra o senador Calheiros. Explicou ter narrado
à polícia as atividades de seu ex-sogro para
se defender das ameaças que vinha sofrendo desde que
decidiu se separar. Renan ouviu tudo atentamente e
nada falou. Nesta semana, o presidente do Congresso será
julgado em plenário pelo envolvimento com Cláudio
Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior, lobista que
pagava suas despesas pessoais.