"É TRISTE
ENVELHECER LONGE DOS AMIGOS." PAULO FRANCIS, NUM MOMENTO
DE GUARDA BAIXA, EM ENTREVISTA NO PARANÁ
Paulo
Francis, 10 anos depois
Imponente.
À proporção que a vida avançava,
Francis, fraco e delicado como era, ia sendo assumido por
ela e pelas circunstâncias, fingindo sempre o contrário,
enfunando o peito, olhando de cima, impostando arrogância.
Nos últimos 10 anos tinha crescido uns 10 centímetros.
Eu olhava e dizia: "Quem não te conhece é que
te compra", pois não apenas no fundo, freudianamente,
mas logo abaixo da superfície, era uma alma carente,
comprável por um afago verdadeiro, tipo, creiam...
familiar. Quem leu sua semibiografia verá isso presente
na figura de Irene. Irene, a mãe. A falta angustiada
da proteção essencial. A eterna busca. A perda
irredimível. Tudo, claro, dolorosamente camuflado.
O
sucesso foi uma substituição insuficiente para
essa sua ânsia, jamais revelada, revelo-a eu agora,
esperando com isso iluminar de modo mais belo essa personalidade
que de público cortejou sempre o gosto de chatear,
criar adversários, até mesmo alimentar ódios,
ser insuportavelmente odioso. Diante de alguns de seus acessos
comigo jamais demasiados eu zombava, parodiando,
comicamente, o Horácio final do Hamlet: "Dá-lhe,
sweet prince!".
Fallstaffiano na
forma e no conteúdo, ampliava o que sabia, o que lia,
o que via, enquanto o tempo, esse marcador de vidas do qual
ninguém escapa, nos mostrava que não era suficiente
para que lesse tantos livros, visse tantos filmes, fosse a
tantas exposições, escrevesse tanto. Mas quando,
no calor de uma conversa, surgia qualquer assunto, o último
livro, a última polêmica internacional, a última
exposição no MoMA, as contas que fazíamos
de seus exageros morriam. Ele expelia nomes e conceitos, citava
autores e fofocas políticas, com justeza e propriedade,
sem possibilidade de consulta, ao sabor do momento.
Calava-nos. Calávamos.
E zombávamos
também, os amigos, por trás ou pela frente,
dos seus erros de observação, factuais ou de
avaliação. Mas ele assumia o exagero, dava como
desprezíveis as próprias incongruências,
assim como assumia o grotesco na televisão, chutando
as canelas dos "rivais", e cantando com voz roufenha e razoavelmente
desafinada o Summertime ou, quem não viu não
verá mais, a chiquita bacana lá da Martinica.
E foi assim que criou um tipo, que ocasionalmente passou a
imitar, antes que outros cômicos o fizessem.
De uma pessoa de
tanto sucesso e tão disposta a atacar, justa ou injustamente,
tabus nacionalistas, feministas, literários e que tais,
com a capacidade intelectual amedrontadora que ele tinha,
é muito brasileiro será só brasileiro?
duvidar da masculinidade. Francis não escapou
dessa. Mas eu conheci, estou contando nos dedos, mais de uma
mão de mulheres belas e intelectualmente respeitáveis
combinação não muito comum, não
sei se sabem com quem ele se envolveu de maneira intensa
e algumas vezes dramática.
Falando apenas
do sucesso, sem discuti-lo, não conheço outro
jornalista que tenha tido o que ele teve. Foi sempre visível,
desde o tempo de suas impiedosas críticas teatrais,
passando pelo Pasquim, Folha de S.Paulo, O Globo, TV Globo,
e nesta, ultimamente, fazendo o que ele sabia fazer como ninguém
entrevistar personalidades famosas. Em inglês.
Tudo a bom preço, que fazia questão de ostentar,
materializando, nos grandes hotéis do mundo, na primeira
classe dos aviões, nos carros com motorista, no seu
ato existencial de todo dia, o "Sorry Periferia", do outrora
Ibrahim.
Tinha, na sua profissão,
chegado ao máximo, como repercussão, como compensação,
como satisfação. Não podia ir mais longe.
Me despedi: "Good night, sweet prince".