Entrevista: João
Geraldo Piquet Carneiro Menor e melhor
Com equilíbrio fiscal
e arrecadação recorde, chegou a hora de diminuir a burocracia
Cíntia
Borsato
Ricardo Benicchio
"A
herança ibérica já não explica o atraso brasileiro.
Em Portugal e na Espanha, é possível abrir uma empresa em um dia"
O presidente Lula
tem a oportunidade única de reverter a teia burocrática que transforma
os brasileiros em súditos de um estado ineficiente e cartorial. Quem diz
isso é o advogado João Geraldo Piquet Carneiro, 66 anos, talvez
o único brasileiro a dedicar integralmente sua rotina à eliminação
de uma das mais nefastas burocracias do mundo contemporâneo. Piquet preside
o Instituto Helio Beltrão, uma organização cujo objetivo
é propor iniciativas para ampliar a eficiência da administração
pública e reduzir a interferência excessiva do governo na vida dos
cidadãos e das empresas. Entre 1979 e 1986, Piquet foi braço-direito
do advogado e economista Helio Beltrão no Programa Nacional de Desburocratização.
Morto em 1997, Beltrão lamentava o renascimento de quase todas as exigências
eliminadas à época de seu programa. Segundo Piquet, a arrecadação
fiscal recorde dá agora ao governo a rara chance de simplificar a gestão
pública. Piquet concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
Por que o senhor considera possível reduzir a burocracia
a curto prazo?
Piquet Nunca houve momento tão favorável
para isso na história recente do país. Nas últimas
décadas, o grande álibi por trás do controle
asfixiante dos cidadãos pelo estado foi a necessidade
de elevar a arrecadação tributária e
atacar a crise fiscal. Hoje, ao contrário, as contas
públicas estão equilibradas. É a melhor
hora para fazer uma mudança em favor do contribuinte.
A menos, obviamente, que uma crise fiscal desabe e toda essa
bonança financeira desapareça o que certamente
não está no radar. O governo ainda não
percebeu que, se permitir a livre criação de
riquezas, ganhará mais dinheiro, porque a base de contribuição
dos tributos também crescerá. Da maneira como
as coisas estão hoje, poucos conseguem estar em dia
com todas as dívidas e normas tributárias. A
resposta da sociedade vem na forma de aumento da informalidade.
Quem permanece na legalidade acaba pagando mais impostos e
lida com uma burocracia ainda maior e mais opressora.
Veja
Como se dá a relação de causa e efeito
entre voracidade fiscal e burocracia? Piquet
A Receita Federal precisa arrecadar cada vez mais e apertar as exigências
impostas aos contribuintes para manter a receita tributária ascendente.
Isso porque as despesas públicas aumentam ano sim e outro também.
A produção em massa de legislações e normas tributárias
é subproduto dessa voracidade arrecadatória. Criou-se a cultura
da desconfiança. O poder público não confia no cidadão,
que aceita isso e se torna submisso aos caprichos do estado. Uma relação
de submissão na qual somos os súditos. Trata-se de uma mentalidade
cartorial. Por que devo ir ao cartório, colocar um carimbo para provar
que a cópia é igual ao original? Por causa de uma minoria de não
mais que 5% de falsários, afeta-se a vida de 95% das pessoas. Por que devo
obter certidões para provar que nada devo se quem me deve é o estado?
O Congresso entra na onda, não consegue perceber que essa superestrutura
fiscalizatória e de arrecadação requer mais funcionários
públicos e mais gastos.
Veja
O que poderia ser feito de imediato para aliviar a burocracia
no país? Piquet Várias coisas. Veja o absurdo
das certidões emitidas por cartórios ou por repartições
públicas para comprovar que as empresas e as pessoas estão em dia
com o governo ou seja, que elas não devem nada ao Fisco, ao INSS
ou ao Ministério do Trabalho, por exemplo. Sem essas certidões,
uma empresa não pode participar de concorrências e licitações
nem assinar nenhum contrato com o governo. Sem esses documentos, uma pessoa não
tem o direito de se inscrever para um concurso público. Nos anos 80, foi
implementado o certificado de regularidade jurídico-fiscal, que unificava
todas as certidões e valia por um ano. Isso retrocedeu. Hoje muitas delas
valem apenas por um mês. Assim, pessoas e empresas se vêem obrigadas
a emitir constantemente uma papelada para dizer que não devem nada ao estado.
O governo mantém um mar de funcionários só para examinar
esses papéis. Uma inutilidade que dá combustível à
corrupção e pode desaparecer com uma simples canetada. Já
há pessoas no governo pensando nisso. Seria uma medida fantástica.
Veja
E o receio da Receita de que isso eleve a inadimplência? Piquet
É infundado. Com mais prazo, as empresas conseguem mais contratos,
produzem mais riqueza e acumulam mais condições para pagar suas
dívidas. Do jeito que está, é quase impossível manter-se
em dia com o estado. Sempre se deve algo. Criou-se uma deformação
que enrijeceu ao infinito a regularidade fiscal. A pessoa precisa viver 100% em
estado virginal. Não pode ter nenhum pecadinho. Senão, vira um pária.
Veja
Quais seriam as outras iniciativas?
Piquet É preciso proibir a exigência
de firma reconhecida e da cópia autenticada em cartórios.
Em qualquer país decente, basta que o funcionário
público constate que a cópia confere com o original,
e as assinaturas feitas na presença dos funcionários
têm o mesmo valor da firma reconhecida. É preciso
abolir isso o mais rápido possível. A nossa
maior derrota, quando fizemos as reformas de desburocratização,
ocorreu justamente quando propusemos a simplificação
das escrituras para a compra de imóveis. Isso cria
um enorme mercado de intermediação cartorial,
uma das misérias da administração pública
brasileira. Não conheço nenhum outro país
no mundo com exigências semelhantes. Há profissões
e até ramos de negócios que se criaram em torno
disso. Poucos países têm tantos contabilistas
e contadores como o Brasil são 450 000 ao todo,
contra 60 000 economistas, 250 000 administradores de empresas
e 300 000 professores universitários.
Veja
A internet não simplificou essas exigências?
Piquet Ao contrário, complicou
em muitos aspectos. Ela vem sendo usada para apertar ainda
mais o contribuinte. Com a informática, existe a fiscalização
cruzada de vários tributos. O governo muitas vezes
obriga o contribuinte a usar a internet, como se ela fosse
um bem universal e de domínio de toda a população.
Não é. Certas certidões da Receita Federal
e da Previdência Social só podem ser pedidas
pela internet. Mais uma vez, fez-se uma imposição
autoritária, a serviço unicamente do controle
da condição fiscal dos indivíduos. A
internet, no Brasil, tem servido para incrementar e preservar
a burocracia, não para reduzi-la.
Veja
Como nos tornamos líderes mundiais da burocracia? Piquet Há três momentos
para entendermos esse fenômeno. O primeiro deles é
histórico, argumento esse aliás usado muitas
vezes para deixar as coisas como estão. Quando a família
real portuguesa chegou ao Brasil, em 1808, desembarcou com
a burocracia de sua corte na bagagem. A administração
pública já nasceu, portanto, burocratizada.
A segunda fase de aumento da burocracia ocorreu por causa
da crise fiscal, a partir de meados dos anos 80. Com o avanço
das despesas do setor público, a preocupação
em arrecadar mais impostos foi tamanha que o atendimento ao
cidadão deixou de ser importante. O cidadão,
sobretudo aquele que caminha na legalidade, é punido
duplamente: paga mais tributos e vê diminuir a qualidade
do serviço público. O terceiro momento é
aquele que vivemos hoje, que chamo de barroco burocrático.
A cada dia são criadas leis e normas difíceis
de cumprir, herméticas e passíveis de interpretações
dúbias.
Veja
A herança ibérica tem tanta culpa assim?
Piquet Não mais, pois Portugal e Espanha
evoluíram muito. Nesses países, já é
possível abrir uma empresa em um único dia,
num processo todo informatizado, usando uma espécie
de caixa eletrônico. Lá, as empresas recém-criadas
só são fiscalizadas pela Receita depois de dois
anos de atividade. Há um período de tolerância,
para que o empreendimento se viabilize. O conceito é
o seguinte: quanto mais negócios forem abertos, maior
será a criação de riquezas para a sociedade
e para o governo. No Brasil, com sorte, consegue-se abrir
uma empresa em quinze dias, mas isso pode levar dois meses
ou mais. O incrível é que regredimos. Nos anos
80, eram necessárias apenas 72 horas. O Brasil é
o último remanescente de uma cultura centralizadora
que funcionou bem por um período em Portugal, uma nação
de dimensões territoriais pequenas. Os portugueses
tentaram fazer o mesmo na administração do Brasil,
mas isso é impraticável. A ironia é que
hoje Portugal já está desburocratizado e o Brasil
continua assim, como nos tempos em que o monarca autorizava
a abertura de uma loja.
Veja
A carga tributária alcançou 35% do produto
interno bruto (PIB). Até quando a sociedade suportará
mais e mais impostos?
Piquet Infelizmente, como a arrecadação
sobe a cada ano, tem-se a impressão de que não
chegamos a um limite. O que ocorre é que só
permanecem na legalidade os poucos que ainda conseguem vencer
as barreiras absurdas. Mas são poucos, se comparados
ao resto da sociedade. Uma pesquisa realizada em 2003 pelo
Instituto Helio Beltrão em cinco municípios
do Rio de Janeiro mostrou que 70% das empresas eram informais.
A carga tributária é tão alta que o contribuinte
é expelido do sistema. Sem falar na própria
burocracia, toda essa dificuldade para recolher os tributos
devidos. Oito em cada dez empresas do país têm
alguma pendência tributária. Se um pequeno empresário
entrar em falência, o Fisco cobrará todos os
impostos. Dificilmente esse microempresário conseguirá
se reerguer, pelo menos não dentro da formalidade.
Ele vai sair da atividade oficial, é a lógica
do sistema, que trata um inadimplente e um sonegador de impostos
da mesma forma. O barão de Mauá faliu duas vezes.
Só conseguiu ser bem-sucedido e ficar rico em sua terceira
tentativa. No Brasil de hoje, ele não passaria da primeira.
Veja
Dizem que a burocracia e a corrupção caminham
lado a lado. O senhor concorda?
Piquet Não tenha dúvida. Perante
tantas e tão complexas exigências, as pessoas
preferem contorná-las mediante algum artifício.
Veja o caso de uma obra pública. As brechas para a
corrupção começam no próprio edital
de licitação. Aí vem a fiscalização
da obra. A pessoa vai medir o projeto no meio da Floresta
Amazônica e descobre que faltam 50 metros. Aparece aí
outra oportunidade para o jeitinho. Depois vem a liberação
do recurso, outro momento. Em um único processo há
várias possibilidades e incentivos à corrupção.
O governo não se autofiscaliza e não se deixa
fiscalizar. Mas faz isso com o contribuinte, que não
tem meios para fiscalizar o estado. A burocracia nesse sentido
viola um direito intrínseco da cidadania. O cidadão
tem direito de ser bem tratado. A burocracia se torna então
perversa e antidemocrática.
Veja
Quase sempre se associa burocracia a órgãos
públicos. Mas, com serviços como telemarketing
e atendimento eletrônico, não estaríamos
diante de uma nova fase de burocratização, desta
vez no setor privado? Piquet
Sim, mas, mais uma vez, boa parte da culpa cabe ao governo. A burocracia
desses serviços decorre de deficiências regulatórias. Quando
se pede o cancelamento de uma linha telefônica devido à morte do
titular, algumas companhias exigem uma procuração assinada pelo
falecido. Helio Beltrão dizia que, no Brasil, a certidão de óbito
é mais importante que o defunto.
Veja
Vinte e cinco anos depois, que avaliação
o senhor faz do Programa Nacional de Desburocratização?
Ele fracassou?
Piquet Algumas iniciativas fracassaram, como a
simplificação das juntas comerciais. Regredimos
em várias áreas, como no caso do processo de
abertura de empresas. Mas outras medidas tiveram resultados
positivos, como o Estatuto das Micro e Pequenas Empresas.
O maior legado daquelas reformas, no entanto, foram os juizados
de pequenas causas, que possibilitaram o acesso dos mais pobres
à Justiça. O processo é completamente
desburocratizado, não é necessária a
apresentação de papéis, basta expor o
problema oralmente. O serviço é gratuito e só
há cobrança se houver recurso justamente
para desestimular o recurso. Esses exemplos comprovam que
não precisamos viver sob essa burocracia autoritária.
As reformas teriam um impacto positivo imediato na vida das
pessoas. Ainda há tempo para virar esse jogo, e o momento
ideal é agora.
Veja
Mas o governo brasileiro parece acreditar que as normas
só serão cumpridas se houver a ameaça
de alguma multa...
Piquet Paciência. Gostaria de ver o burocrata
sendo perseguido com o mesmo rigor com que persegue o contribuinte.
Não sobreviveria um único dia.
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Além de iniciativa política, o que mais seria
necessário? Uma reforma tributária, por exemplo? Piquet Reforma tributária no Brasil é
uma ilusão. Começa com as melhores intenções,
acaba sempre em aumento de impostos. União, estados
e municípios nunca perdem receita. As autoridades são
movidas unicamente pelo desejo de conseguir uma arrecadação
maior. Participei, por exemplo, da reforma tributária
e fiscal do governo Itamar Franco. Nas primeiras reuniões
ficou claro que o principal interesse era viabilizar o IPMF
(imposto provisório sobre movimentação
financeira). Pois bem, esse tributo, que era para ser
provisório, está aí até hoje,
na forma da CPMF (contribuição provisória
sobre movimentação financeira), e deverá
ser prorrogado até 2011. Uma eventual reforma poderá
até trazer mais racionalidade à tributação
e reduzir um pouco a burocracia. Não devemos nos iludir,
no entanto, porque não haverá uma redução
significativa da carga de impostos.