"Ainda que
se diga que cada um vota com
sua consciência, já está demonstrado que
não
há consciência que resista a tantas e tão
claras evidências das bandalheiras de Renan"
O mensalão
não foi uma obra criminosa do PT, mas um "erro" cometido
por "algumas pessoas" que integram o PT. Há tempos
essa catilinária está em público, inclusive
na boca do presidente Lula. Virou mantra dos que até
topam perder companheiros mensaleiros para preservar o partido.
Relevemos que as "pessoas" que cometeram o "erro" pertenciam
à cúpula do PT e até hoje têm controle
de parte robusta da máquina partidária. Admitamos,
para efeito de raciocínio, que o mensalão não
foi cria do PT, mas de um punhado de petistas prematuramente
aloprados.
Nesta semana, quando
o Senado votar sobre a cassação de Renan Calheiros,
o PT pode tirar a prova dos noves. Os petistas terão
a oportunidade de mostrar se o argumento que separa o partido
dos filiados tem alguma base real porque o voto sobre
Renan será voto de partido, e não de "algumas
pessoas". Ainda que se diga que nesses assuntos cada parlamentar
vota segundo sua consciência, e não conforme
a orientação partidária, já está
exaustivamente demonstrado que não há consciência
que resista a tantas e tão claras evidências
das bandalheiras de Renan Calheiros. Portanto, o voto desta
semana é de partido, de bancada.
E o que fará
o PT?
As sondagens de
plenário dão como certo que, dos doze senadores
petistas, quatro honrarão o passado, que já
parece tão longínquo, no qual o PT desfraldava
a bandeira da ética na política. São
eles: Eduardo Suplicy (SP), Delcidio Amaral (MS), Flávio
Arns (PR) e Augusto Botelho (RR).
E o que farão
os outros oito senadores do PT?
No fundo, a votação
do caso Renan colocou nas mãos desses oito petistas
dois destinos graves. O primeiro é o destino do próprio
PT. Mesmo que o PT represente hoje, no plano ético,
menos do que um vago espectro do que representou um dia, talvez
os oito petistas, cassando o mandato de Renan, indiquem que
ainda existe alguma energia vital no partido capaz de reconduzi-lo
a certas trilhas da decência. Absolvendo Renan, o PT
estará a despedir-se do último resquício
de sua própria história. E, desta vez, definitivamente
não como "pessoas", mas como partido mesmo.
O outro destino
que caiu nas mãos dos oito, embora também esteja
nas mãos de todos, diz respeito ao próprio Senado.
Há 100 dias, o Senado sangra com seu presidente afundando
na lama. Com a absolvição de Renan, o sangramento
pode evoluir para hemorragia que, em vez de explosiva
e barulhenta, tende a ser silenciosa, num misto de indiferença
e desprezo. Afinal, o Senado dirá ao país que
tudo pode: falsificação, mentiras, laranjismo,
sonegação, lobismo... Com a cassação
de Renan, o Senado ganha uma cicatriz, é verdade, mas
terá o direito de apresentá-la como medalha
de guerra.
A trapaça
do destino colocou essas questões nas mãos de
oito petistas. Entre eles, há gente grande como Aloizio
Mercadante (SP), Tião Viana (AC), Ideli Salvatti (SC)
e Paulo Paim (RS). Se eles se decidirem pela cassação,
e mais três indecisos de quaisquer outras legendas fizerem
o mesmo, Renan será banido da política até
2018. Nesta semana, esses petistas resgatarão um pedaço
ou enterrarão por completo da bandeira
ética que, um dia, pareceu ser levantada com orgulho
pelo PT.