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Edição 1 717 - 12 de setembro de 2001
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Stephen Kanitz

Nossa nova geração


"Devemos nos orgulhar
por não
fazermos mais jovens como antigamente"


Ilustração Ale Setti


Li um artigo recentemente em que se afirmava que não se fazem mais jovens como antigamente: jovens engajados, que lutam por uma grande causa, que querem melhorar e revolucionar o mundo. O artigo acusava a nova geração de "estar com nada", preocupada somente com o futuro emprego e o umbigo.

Trinta anos atrás, 20% de meus colegas de faculdade, pelo menos os que se achavam mais inteligentes, eram de esquerda. Queriam mudar o mundo, salvar o Brasil, expulsar o FMI e acabar com a pobreza. Cabulavam as aulas e viviam no centro acadêmico com pôsteres de Che Guevara discutindo como tomar o poder. A idéia de ajudar os outros fazendo trabalho voluntário na periferia nem lhes passava pela cabeça.

Dez por cento eram de direita e atazanavam a esquerda, e a impressão que se tinha era que os dois grupos brincavam de mocinho e bandido numa versão mais adulta. O resto era de centro, liberais e libertários, mais preocupados em libertar o Brasil de uma ditadura que em implantar outra, a do proletariado.

Para minha surpresa, quando fiz o mestrado em Harvard, a totalidade de meus colegas era apolítica. Eles estavam lá para estudar, adquirir conhecimentos, para poder ser úteis à sociedade e talvez ficar ricos. Por isso estudavam, para meu enorme desespero, vinte horas por dia.

Mas, mesmo com essa carga de estudo, todos havia muito tempo faziam trabalho voluntário, um dos requisitos inclusive para a admissão ao mestrado.

Trinta anos se passaram, e em nossa última reunião qüinqüenal constatei que todos ficaram ricos como pretendiam; eu era a única exceção. Ricos, eles agora devotam boa parte do tempo a causas sociais e doam bilhões ao terceiro setor. Muitos, já aposentados, gastam 25 horas por semana em conselhos, como os da Cruz Vermelha, Endeavour, e assim por diante.

A reunião de trinta anos com meus colegas da USP foi ainda mais surpreendente. O mais engajado na época, o que mais pregava a luta de classes, é hoje diretor de banco. Seu colega socialista, e menos radical, é o dono do banco. A maioria se desculpou dizendo: "Cansei de ajudar os outros" (sic), "estou ficando velho, preciso me preocupar comigo mesmo".

Passaram a vida tramando uma revolução, perderam a chance de ajudar milhares de carentes com sua competência, inteligência e trabalho. Alguns continuam sendo de esquerda, ajudando como voluntários seu partido a vencer as eleições, para então ajudar os outros.

Os que mudaram justificam sua guinada para a direita com a seguinte frase: "Quem não é de esquerda quando jovem não tem coração, quem continua quando velho perdeu a razão".

Talvez meus colegas de Harvard não tivessem coração trinta anos atrás, mas tampouco tinham competência para mudar o mundo e acabar com a pobreza. Faltava-nos na época conhecimento para tocar um botequim, muito menos uma revolução.

Por isso eu prefiro a nova geração. As pessoas não são de esquerda nem de direita, nem agüentam mais essa discussão. Não pretendem mudar o mundo, querem primeiro mudar o bairro, para depois mudar seu Estado e o país. Querem se tornar competentes para, então, até mudar o mundo, paulatinamente, ao longo da vida.

A nova geração está desencadeando uma revolução de cidadania, usando o cérebro e o coração para o voluntariado, engajando-se no terceiro setor, cada um fazendo sua parte. Não ficou somente no discurso, partiu direto para a ação.

Em minha opinião, nossa nova geração está com tudo, e deveríamos ficar orgulhosos por não se fazerem mais jovens como antigamente.

 

Stephen Kanitz é administrador
(www.kanitz.com.br)


 
 
   
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