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Punk
sem butique
O
Lixo e a Fúria mostra de maneira
original a
ascensão e queda do grupo
inglês Sex Pistols
Sérgio Martins
Documentários sobre astros do rock são um gênero à
parte no cinema. Cineastas tarimbados, como Martin Scorsese, e documentaristas
premiados, como D.A. Pennebaker, já queimaram rolos de filme e
pestanas para registrar as grandes mudanças de comportamento às
quais o rock esteve ligado no século XX. Outra preocupação
comum nesse tipo de filme é a de tentar desvendar um segredo: como,
afinal, se constrói um ídolo s-serif" size="2" color="#000000">
Documentários sobre astros do rock são um gênero à
parte no cinema. Cineastas tarimbados, como Martin Scorsese, e documentaristas
premiados, como D.A. Pennebaker, já queimaram rolos de filme e
pestanas para registrar as grandes mudanças de comportamento às
quais o rock esteve ligado no século XX. Outra preocupação
comum nesse tipo de filme é a de tentar desvendar um segredo: como,
afinal, se constrói um ídolo popular? O Lixo e a Fúria
(The Filth & the Fury, Inglaterra/Estados Unidos, 2000),
desde sexta-feira em cartaz em São Paulo, se inscreve com méritos
nessa seara. Nele, o diretor inglês Julien Temple conta a ascensão
e queda do grupo punk Sex Pistols. Segundo muitos, eles não passaram
de um golpe de marketing engendrado pelo empresário Malcolm McLaren.
Temple vai em busca da versão dos integrantes da banda que,
obviamente, é bem diferente.
Os Sex Pistols são rebentos do caos social que tomou conta da Inglaterra
nos anos 70. Numa Londres abalada por greves e confrontos raciais, eles
criaram um novo gênero musical o punk e um estilo
de comportamento. Basicamente, ser punk era tocar rock de maneira tosca
e adotar atitudes extremas. Os Pistols xingavam apresentadores de TV,
davam correntadas em críticos de música e se regozijavam
de fazer as suas necessidades fisiológicas em público. Mas
esse estilo de vida, digamos, original não tardou a derrapar em
velhos clichês, como os problemas com as drogas. Numa cena especialmente
chocante de O Lixo e a Fúria, o baixista Sid Vicious é
visto coletando água de um vaso sanitário para misturar
com heroína.
Para registrar as entrevistas dos Pistols sobreviventes, o diretor recorreu
a um artifício curioso. Nenhum deles aparece com nitidez. Todos
fazem suas confissões protegidos por sombras, sentindo-se mais
à vontade para assumir seus erros e trocar acusações.
Conhecido por ser um inovador na linguagem do videoclipe, Temple esbanja
técnica na montagem de O Lixo e a Fúria e
é na montagem que um bom documentarista, obrigado a lidar com material
que não foi ele que filmou, mostra do que é capaz. Os depoimentos
e imagens de arquivo são intercalados com cenas de comerciais dos
anos 70 (nos quais se tentava desfazer a impressão de que a Inglaterra
mergulhava no caos) e de atuações do elegantíssimo
Laurence Olivier. Isso mesmo. Feio, corcunda e com os dentes em petição
de miséria, John Lydon, cantor dos Pistols, criou sua persona artística
ao ver Olivier no cinema, na pele de Ricardo III o rei coxo e repugnante
da peça de William Shakespeare.
Entre todos os grandes documentários de rock, os parentes mais
próximos de O Lixo e a Fúria são Gimme
Shelter, sobre os Rolling Stones, e Let It Be, dos Beatles.
Ambos flagram seus personagens no momento em que perdiam o controle da
situação. Os Stones assistem impassíveis ao assassinato
de um rapaz pelos seus seguranças durante um show, e os Beatles,
à beira do esfacelamento, não disfarçam sua impaciência
uns para com os outros. O Lixo e a Fúria, por sua vez, revela
que os Sex Pistols até hoje se culpam mutuamente pelo fim da banda
e conclui que ganharam mais fama do que dinheiro sem falar no arrependimento
de te-rem assistido, sem esboçar nenhuma reação,
ao processo autodestrutivo que culminaria com a morte do baixista Sid
Vicious. Numa cena do filme, seu colega John Lydon engasga ao comentar
o assunto. Até os punks, quem diria, têm sentimentos.

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