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Edição 1 717 - 12 de setembro de 2001
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Punk sem butique

O Lixo e a Fúria mostra de maneira
original
a ascensão e queda do grupo
inglês Sex Pistols

Sérgio Martins

Documentários sobre astros do rock são um gênero à parte no cinema. Cineastas tarimbados, como Martin Scorsese, e documentaristas premiados, como D.A. Pennebaker, já queimaram rolos de filme e pestanas para registrar as grandes mudanças de comportamento às quais o rock esteve ligado no século XX. Outra preocupação comum nesse tipo de filme é a de tentar desvendar um segredo: como, afinal, se constrói um ídolo s-serif" size="2" color="#000000"> Documentários sobre astros do rock são um gênero à parte no cinema. Cineastas tarimbados, como Martin Scorsese, e documentaristas premiados, como D.A. Pennebaker, já queimaram rolos de filme e pestanas para registrar as grandes mudanças de comportamento às quais o rock esteve ligado no século XX. Outra preocupação comum nesse tipo de filme é a de tentar desvendar um segredo: como, afinal, se constrói um ídolo popular? O Lixo e a Fúria (The Filth & the Fury, Inglaterra/Estados Unidos, 2000), desde sexta-feira em cartaz em São Paulo, se inscreve com méritos nessa seara. Nele, o diretor inglês Julien Temple conta a ascensão e queda do grupo punk Sex Pistols. Segundo muitos, eles não passaram de um golpe de marketing engendrado pelo empresário Malcolm McLaren. Temple vai em busca da versão dos integrantes da banda – que, obviamente, é bem diferente.

Os Sex Pistols são rebentos do caos social que tomou conta da Inglaterra nos anos 70. Numa Londres abalada por greves e confrontos raciais, eles criaram um novo gênero musical – o punk – e um estilo de comportamento. Basicamente, ser punk era tocar rock de maneira tosca e adotar atitudes extremas. Os Pistols xingavam apresentadores de TV, davam correntadas em críticos de música e se regozijavam de fazer as suas necessidades fisiológicas em público. Mas esse estilo de vida, digamos, original não tardou a derrapar em velhos clichês, como os problemas com as drogas. Numa cena especialmente chocante de O Lixo e a Fúria, o baixista Sid Vicious é visto coletando água de um vaso sanitário para misturar com heroína.

Para registrar as entrevistas dos Pistols sobreviventes, o diretor recorreu a um artifício curioso. Nenhum deles aparece com nitidez. Todos fazem suas confissões protegidos por sombras, sentindo-se mais à vontade para assumir seus erros e trocar acusações. Conhecido por ser um inovador na linguagem do videoclipe, Temple esbanja técnica na montagem de O Lixo e a Fúria – e é na montagem que um bom documentarista, obrigado a lidar com material que não foi ele que filmou, mostra do que é capaz. Os depoimentos e imagens de arquivo são intercalados com cenas de comerciais dos anos 70 (nos quais se tentava desfazer a impressão de que a Inglaterra mergulhava no caos) e de atuações do elegantíssimo Laurence Olivier. Isso mesmo. Feio, corcunda e com os dentes em petição de miséria, John Lydon, cantor dos Pistols, criou sua persona artística ao ver Olivier no cinema, na pele de Ricardo III – o rei coxo e repugnante da peça de William Shakespeare.

Entre todos os grandes documentários de rock, os parentes mais próximos de O Lixo e a Fúria são Gimme Shelter, sobre os Rolling Stones, e Let It Be, dos Beatles. Ambos flagram seus personagens no momento em que perdiam o controle da situação. Os Stones assistem impassíveis ao assassinato de um rapaz pelos seus seguranças durante um show, e os Beatles, à beira do esfacelamento, não disfarçam sua impaciência uns para com os outros. O Lixo e a Fúria, por sua vez, revela que os Sex Pistols até hoje se culpam mutuamente pelo fim da banda e conclui que ganharam mais fama do que dinheiro – sem falar no arrependimento de te-rem assistido, sem esboçar nenhuma reação, ao processo autodestrutivo que culminaria com a morte do baixista Sid Vicious. Numa cena do filme, seu colega John Lydon engasga ao comentar o assunto. Até os punks, quem diria, têm sentimentos.

 
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  Confira o trailer do filme e fotos da banda


   
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