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Edição 1 717 - 12 de setembro de 2001
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"Essa autobiografia abre a caixa-preta de Welch, e o plano de vôo que se lê nela não é a trajetória de um superexecutivo, mas a de um ser humano que conseguiu ser mais poderoso que a mais poderosa das corporações", disse Michael Eisner, presidente e diretor executivo da Disney, ele próprio considerado ao lado de Welch e de Lou Gerstner, da IBM, a trinca de ouro do capitalismo americano. A descrição é exata. Welch conta com orgulho no livro como, no primeiro round, não se deixou massacrar pela burocracia e pela cultura empresarial da GE. Depois narra brilhantemente como, no segundo, nocauteou a burocracia, arrancou seu terno e gravata, humilhou sua pompa, suas liturgias e suas pequenas regras de conduta. "No final, fizemos da GE uma empresa com ambiente de trabalho desafetado como o de uma mercearia", diz. Ou seja, Jack Welch construiu a GE a sua maneira, e não o contrário, como ocorre com a imensa maioria dos grandes executivos das empresas de sucesso. Ele continua se referindo à GE como "a mercearia". Digamos que é uma mercearia um tanto peculiar. Ali se fabricam desde reatores elétricos do tamanho de um prédio de seis andares até peças de polímeros sintéticos, que, de tão minúsculas, precisam ser moldadas com a ajuda de microscópios. A mercearia da GE engloba empresas financeiras que dão créditos ao consumidor americano de dezenas de bilhões de dólares por ano. A mercearia de Welch é dona da rede de televisão NBC, que produziu alguns dos seriados mais populares do mundo, como Seinfeld e Friends, exibidos no Brasil pelas emissoras de TV a cabo.

"Muitas vezes fui desafiado com a afirmação de que não poderia chefiar uma rede de televisão se não entendo de dramas e comédias. Minha resposta é simples: também não entendo nada de turbinas ou de máquinas de lavar", diz Welch. "Entendo o funcionamento da alma humana. Isso basta para gerir qualquer negócio." Pode parecer que Welch está escondendo o jogo. Não está. As histórias que ele relata em suas memórias são a prova do que diz. A certa altura, ele conta como tentou e fracassou ao buscar a renovação do contrato da NBC com Jerry Seinfeld, o autor e ator cômico americano mais bem-sucedido da última década. "A chance de produzir uma série que realmente pegue, como Seinfeld, Frasier ou Friends, é mais ou menos de uma em mil", conta Welch no livro, para mostrar por que se empenhou pessoalmente na tentativa de fazer Seinfeld continuar escrevendo e atuando. Seinfeld estava decidido a sair. Estava esgotado, exaurido, farejava a decadência típica da profissão e preferia definhar artisticamente longe dos holofotes. "Ofereci-lhe ações e opções de compra de ações. Jerry fingiu-se de burro. Ele fazia isso muito bem. Foi inútil e inesquecível. No final, ficou parecendo que o comediante era eu", conta Welch.

Bem, em duas décadas de comando incontrastável da companhia, aparelhado segundo ele apenas com um bom mapa dos labirintos da alma humana, Welch comprou e vendeu mais de 1.000 empresas em nome da GE. Mais de mil vezes esteve diante de parceiros de negócios tão preparados, calculistas, frios, blefadores e ousados quanto ele. Sua taxa de acerto? A mais formidável da história do capitalismo. "Ao todo, acho que erramos grosseiramente em duas compras. A mais estranha delas foi a da corretora Kidder Peabody. Não tinha nada a ver com nossa cultura", diz Welch. Foi bem pior que isso. Em 1995, um alto executivo da Kidder deu um cano de várias centenas de milhões de dólares na praça. Welch passou semanas ligando para os grandes acionistas, sócios e parceiros da GE se desculpando. Enquanto isso, negociava rapidamente a venda da Kidder. Mas esse não foi seu maior vexame público. Ele veio semanas antes de assumir a GE, em 1981. Simplesmente, o velho e bom irlandês bebeu demais na festa de gala que seu antecessor, Reg Jones, dera em Nova York para apresentar o pupilo à alta sociedade de negócios dos Estados Unidos. "Reg me pediu que falasse alguma coisa de improviso. Confesso que algumas palavras soaram meio fluidas", lembra. No dia seguinte, Reg Jones foi à sala de Welch e disse aos berros que ele enxovalhara-lhe a honra pessoal e a reputação da empresa. O mundo desabou sobre os ombros de Welch. Não ajudava o fato de o Wall Street Journal, o mais lido jornal de negócios dos Estados Unidos, publicar que Reg passara o comando da maior jóia do capitalismo a um anônimo. A manchete dizia simplesmente: "Jack Quem?". A situação se salvou. No decorrer do dia, Reg Jones respondeu a uma dezena de telefonemas de convidados impressionados com a inteligência, vivacidade e a espontaneidade do novo líder da GE. Welch conta que começou ali sua vitória contra a esclerosada burocracia da empresa.

 
AP

Propaganda da empresa no Vietnã: a globalização para Welch começou dez anos antes

Ao mudar a GE, Welch criou o modelo de empresa que imperou na última década do século XX e lançou as bases do que serão as grandes companhias do novo século. Diga-se um termo qualquer do vocabulário típico de um MBA de Harvard e Jack Welch, se não o criou, foi quem lhe deu vida e sentido. Globalização? Ele lançou o conceito de empresa sem fronteira em 1989. Tecnologia da informação? Welch demorou a se render aos encantos da internet, mas antes disso já armara a GE para funcionar como uma rede mundial de troca de informações. Ele foi o primeiro a achatar o número de níveis gerenciais entre o mais alto e o mais baixo grau na hierarquia da empresa. Sua internet funcionava antes da que conhecemos tivesse sido inventada. Como? Graças à maior e mais ativa frota de jatos executivos e helicópteros da história empresarial. "Para nossos executivos, as fábricas parecem todas localizadas num mesmo bairro, embora estejam em cidades diferentes", diz Welch. "Eles passam a maior parte do tempo no ar." O primeiro e-mail ele mandou em 1999, quando cervejarias, conventos e bancas de jornal já tinham até páginas na internet. Reagiu rápido. Hoje, a GE tem a mais eficiente e invejada rede de comércio eletrônico e gerenciamento remoto via internet dos Estados Unidos. "Quando me convidam a imaginar como será a empresa daqui a dez anos, respondo que melhor é sabermos o que vamos fazer daqui a dois ou cinco dias", diz Welch.

É um pouco de bravata, pois uma de suas qualidades mais apreciadas é justamente combinar as visões de longo prazo do futuro do negócio com os ajustes que ele se gaba de fazer, em certos casos, "de minuto em minuto". Mas John Francis Welch Jr., o Jack, entraria para a História apenas como um executivo superdotado se tudo que tivesse feito fosse o relatado nos parágrafos acima. "Ele será lembrado como o sujeito que assumiu um gigante industrial e o converteu num colosso industrial com coração, alma e mente", escreveu Eisner, da Disney, numa apresentação do livro de Welch. O próprio Welch acha que seu legado foi ter sido um professor obcecado. "Se criei alguma coisa, foi a cultura do aprendizado. Em nossa empresa, os melhores são aqueles que ensinam. Gerenciar menos e liderar mais, essa é a lei", diz Welch. Ele próprio calcula que em vinte anos deu mais de 300 aulas de quatro horas de duração, tendo formado pessoalmente mais de 15.000 executivos e gerentes de alto desempenho. Sua saída, embora cuidadosamente planejada, acabou sendo um tanto tumultuada. Welch decidiu dar uma cartada gigantesca a meses de se aposentar. A GE ofereceu 45 bilhões de dólares pela empresa Honeywell, uma forte concorrente em certos nichos, que vão dos eletrodomésticos a reatores de alta potência. Uma das condições impostas pela Honeywell era que Welch ficasse até a consolidação da fusão entre as duas gigantes. O negócio até hoje está emperrado. O sucessor de Welch, obviamente escolhido por ele e aceito com gosto pelos acionistas, é um executivo com duas décadas na companhia. Os jornais o tratam como "Jeffrey Quem?". Nada de novo, portanto. Jeffrey Immelt é um cavaleiro Jedi treinado diretamente por Welch. Prova disso é que aos 45 anos acha natural dirigir uma companhia do tamanho e da complexidade da GE. Para manter o mesmo ritmo de crescimento imposto por Jack Welch, Immelt terá de vender 14 bilhões de dólares a mais do que Welch conseguiu neste ano. "É difícil quando se imagina que, numa grande empresa, uma boa idéia rende alguns milhões de dólares. Na GE, uma boa idéia rende bilhões de dólares", diz Immelt. Welch é a prova disso. Ele garantiu duas décadas de boas idéias que fizeram dele e da GE a vanguarda do capitalismo no planeta.

 



   
 
   
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