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"Essa
autobiografia abre a caixa-preta de Welch, e o plano de vôo que
se lê nela não é a trajetória de um superexecutivo,
mas a de um ser humano que conseguiu ser mais poderoso que a mais poderosa
das corporações", disse Michael Eisner, presidente e diretor
executivo da Disney, ele próprio considerado ao lado de Welch e
de Lou Gerstner, da IBM, a trinca de ouro do capitalismo americano. A
descrição é exata. Welch conta com orgulho no livro
como, no primeiro round, não se deixou massacrar pela burocracia
e pela cultura empresarial da GE. Depois narra brilhantemente como, no
segundo, nocauteou a burocracia, arrancou seu terno e gravata, humilhou
sua pompa, suas liturgias e suas pequenas regras de conduta. "No final,
fizemos da GE uma empresa com ambiente de trabalho desafetado como o de
uma mercearia", diz. Ou seja, Jack Welch construiu a GE a sua maneira,
e não o contrário, como ocorre com a imensa maioria dos
grandes executivos das empresas de sucesso. Ele continua se referindo
à GE como "a mercearia". Digamos que é uma mercearia um
tanto peculiar. Ali se fabricam desde reatores elétricos do tamanho
de um prédio de seis andares até peças de polímeros
sintéticos, que, de tão minúsculas, precisam ser
moldadas com a ajuda de microscópios. A mercearia da GE engloba
empresas financeiras que dão créditos ao consumidor americano
de dezenas de bilhões de dólares por ano. A mercearia de
Welch é dona da rede de televisão NBC, que produziu alguns
dos seriados mais populares do mundo, como Seinfeld e Friends,
exibidos no Brasil pelas emissoras de TV a cabo.
"Muitas
vezes fui desafiado com a afirmação de que não poderia
chefiar uma rede de televisão se não entendo de dramas e
comédias. Minha resposta é simples: também não
entendo nada de turbinas ou de máquinas de lavar", diz Welch. "Entendo
o funcionamento da alma humana. Isso basta para gerir qualquer negócio."
Pode parecer que Welch está escondendo o jogo. Não está.
As histórias que ele relata em suas memórias são
a prova do que diz. A certa altura, ele conta como tentou e fracassou
ao buscar a renovação do contrato da NBC com Jerry Seinfeld,
o autor e ator cômico americano mais bem-sucedido da última
década. "A chance de produzir uma série que realmente pegue,
como Seinfeld, Frasier ou Friends, é mais ou menos
de uma em mil", conta Welch no livro, para mostrar por que se empenhou
pessoalmente na tentativa de fazer Seinfeld continuar escrevendo e atuando.
Seinfeld estava decidido a sair. Estava esgotado, exaurido, farejava a
decadência típica da profissão e preferia definhar
artisticamente longe dos holofotes. "Ofereci-lhe ações e
opções de compra de ações. Jerry fingiu-se
de burro. Ele fazia isso muito bem. Foi inútil e inesquecível.
No final, ficou parecendo que o comediante era eu", conta Welch.
Bem, em duas décadas de comando incontrastável da companhia,
aparelhado segundo ele apenas com um bom mapa dos labirintos da alma humana,
Welch comprou e vendeu mais de 1.000 empresas em nome da GE. Mais de mil
vezes esteve diante de parceiros de negócios tão preparados,
calculistas, frios, blefadores e ousados quanto ele. Sua taxa de acerto?
A mais formidável da história do capitalismo. "Ao todo,
acho que erramos grosseiramente em duas compras. A mais estranha delas
foi a da corretora Kidder Peabody. Não tinha nada a ver com nossa
cultura", diz Welch. Foi bem pior que isso. Em 1995, um alto executivo
da Kidder deu um cano de várias centenas de milhões de dólares
na praça. Welch passou semanas ligando para os grandes acionistas,
sócios e parceiros da GE se desculpando. Enquanto isso, negociava
rapidamente a venda da Kidder. Mas esse não foi seu maior vexame
público. Ele veio semanas antes de assumir a GE, em 1981. Simplesmente,
o velho e bom irlandês bebeu demais na festa de gala que seu antecessor,
Reg Jones, dera em Nova York para apresentar o pupilo à alta sociedade
de negócios dos Estados Unidos. "Reg me pediu que falasse alguma
coisa de improviso. Confesso que algumas palavras soaram meio fluidas",
lembra. No dia seguinte, Reg Jones foi à sala de Welch e disse
aos berros que ele enxovalhara-lhe a honra pessoal e a reputação
da empresa. O mundo desabou sobre os ombros de Welch. Não ajudava
o fato de o Wall Street Journal, o mais lido jornal de negócios
dos Estados Unidos, publicar que Reg passara o comando da maior jóia
do capitalismo a um anônimo. A manchete dizia simplesmente: "Jack
Quem?". A situação se salvou. No decorrer do dia, Reg Jones
respondeu a uma dezena de telefonemas de convidados impressionados com
a inteligência, vivacidade e a espontaneidade do novo líder
da GE. Welch conta que começou ali sua vitória contra a
esclerosada burocracia da empresa.
AP

Propaganda
da empresa no Vietnã: a globalização para Welch começou dez anos antes |
Ao
mudar a GE, Welch criou o modelo de empresa que imperou na última
década do século XX e lançou as bases do que serão
as grandes companhias do novo século. Diga-se um termo qualquer
do vocabulário típico de um MBA de Harvard e Jack Welch,
se não o criou, foi quem lhe deu vida e sentido. Globalização?
Ele lançou o conceito de empresa sem fronteira em 1989. Tecnologia
da informação? Welch demorou a se render aos encantos da
internet, mas antes disso já armara a GE para funcionar como uma
rede mundial de troca de informações. Ele foi o primeiro
a achatar o número de níveis gerenciais entre o mais alto
e o mais baixo grau na hierarquia da empresa. Sua internet funcionava
antes da que conhecemos tivesse sido inventada. Como? Graças à
maior e mais ativa frota de jatos executivos e helicópteros da
história empresarial. "Para nossos executivos, as fábricas
parecem todas localizadas num mesmo bairro, embora estejam em cidades
diferentes", diz Welch. "Eles passam a maior parte do tempo no ar." O
primeiro e-mail ele mandou em 1999, quando cervejarias, conventos e bancas
de jornal já tinham até páginas na internet. Reagiu
rápido. Hoje, a GE tem a mais eficiente e invejada rede de comércio
eletrônico e gerenciamento remoto via internet dos Estados Unidos.
"Quando me convidam a imaginar como será a empresa daqui a dez
anos, respondo que melhor é sabermos o que vamos fazer daqui a
dois ou cinco dias", diz Welch.
É
um pouco de bravata, pois uma de suas qualidades mais apreciadas é
justamente combinar as visões de longo prazo do futuro do negócio
com os ajustes que ele se gaba de fazer, em certos casos, "de minuto em
minuto". Mas John Francis Welch Jr., o Jack, entraria para a História
apenas como um executivo superdotado se tudo que tivesse feito fosse o
relatado nos parágrafos acima. "Ele será lembrado como o
sujeito que assumiu um gigante industrial e o converteu num colosso industrial
com coração, alma e mente", escreveu Eisner, da Disney,
numa apresentação do livro de Welch. O próprio Welch
acha que seu legado foi ter sido um professor obcecado. "Se criei alguma
coisa, foi a cultura do aprendizado. Em nossa empresa, os melhores são
aqueles que ensinam. Gerenciar menos e liderar mais, essa é a lei",
diz Welch. Ele próprio calcula que em vinte anos deu mais de 300
aulas de quatro horas de duração, tendo formado pessoalmente
mais de 15.000 executivos e gerentes de alto desempenho. Sua saída,
embora cuidadosamente planejada, acabou sendo um tanto tumultuada. Welch
decidiu dar uma cartada gigantesca a meses de se aposentar. A GE ofereceu
45 bilhões de dólares pela empresa Honeywell, uma forte
concorrente em certos nichos, que vão dos eletrodomésticos
a reatores de alta potência. Uma das condições impostas
pela Honeywell era que Welch ficasse até a consolidação
da fusão entre as duas gigantes. O negócio até hoje
está emperrado. O sucessor de Welch, obviamente escolhido por ele
e aceito com gosto pelos acionistas, é um executivo com duas décadas
na companhia. Os jornais o tratam como "Jeffrey Quem?". Nada de novo,
portanto. Jeffrey Immelt é um cavaleiro Jedi treinado diretamente
por Welch. Prova disso é que aos 45 anos acha natural dirigir uma
companhia do tamanho e da complexidade da GE. Para manter o mesmo ritmo
de crescimento imposto por Jack Welch, Immelt terá de vender 14
bilhões de dólares a mais do que Welch conseguiu neste ano.
"É difícil quando se imagina que, numa grande empresa, uma
boa idéia rende alguns milhões de dólares. Na GE,
uma boa idéia rende bilhões de dólares", diz Immelt.
Welch é a prova disso. Ele garantiu duas décadas de boas
idéias que fizeram dele e da GE a vanguarda do capitalismo no planeta.
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