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O capital
segundo Jack
O
mais influente líder empresarial
do século XX lança sua autobiografia,
um manual de
sobrevivência na selva
do capitalismo escrito por seu mais
feroz competidor
Eurípedes
Alcântara

Veja também |
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Quem
não gosta de computador pode muito bem viver sem nunca colocar
as mãos em um produto da Microsoft de Bill Gates. Para aqueles
que não tomam refrigerante, Coca-Cola pode ser apenas um rótulo
onipresente mas distante. Do império Disney fogem as pessoas indiferentes
aos orelhões do Mickey. Os carros europeus, japoneses e coreanos
há tempos vendem mais que os americanos da Ford e da General Motors.
Ninguém escapa, porém, de Jack Welch e sua General Electric,
a GE. Welch e a GE, reinventada por ele, são atualmente os símbolos
mais acabados da força do capitalismo e da supremacia do estilo
de vida americano no planeta. Em mais de uma centena de países,
quem quer que acenda uma lâmpada, faça uma ligação
telefônica, coloque uma garrafa de vinho branco na geladeira, ligue
a televisão, viaje de avião a jato ou precise fazer um raio
X de um osso terá interagido com um produto da GE. Mesmo nos poucos
e isolados lugares onde a empresa de Welch não tenha presença
física, sua influência é sentida. Em um dia e hora
quaisquer, um quadrante do planeta Terra escolhido ao acaso estará
sendo sobrevoado por um jato movido a turbinas GE ou por um dos inúmeros
satélites fabricados pela gigante americana. Em todas as centenas
de nichos onde atua, quando a GE não é a líder do
setor ela fica pelo menos com o segundo posto.

As
capas de revista que Welch freqüentou e a capa do livro em português
(acima): caso de amor com Wall Street |
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Essa
é a empresa cuja liderança Jack Welch passou adiante na
semana passada depois de vinte anos de comando. Ela foi fundada há
123 anos por ninguém menos que o pai da tecnologia moderna, Thomas
Alva Edison, o inventor da lâmpada, do gravador, do toca-discos
e de milhares de outras soluções tecnológicas com
as quais nós, nossos pais e avós construímos isso
que se chama de mundo moderno. Pelos próximos meses, Welch se dedicará
a divulgar sua autobiografia. A obra será lançada nos Estados
Unidos e simultaneamente no Brasil na terça-feira 11. Jack Definitivo,
título da versão brasileira publicada pela Editora Campus,
é o livro de negócios mais esperado da história.
O original inglês tem o título bem mais forte mas quase intraduzível
de Jack: Straight from the Gut, algo como "direto das tripas".
Para escrevê-lo, Welch obteve um adiantamento de 10 milhões
de dólares. O papa João Paulo II recebeu um pouco menos
por suas memórias. Especula-se que o ex-presidente Bill Clinton
venha a embolsar também 10 milhões pelas suas mas
o negócio ainda não foi fechado. Durante as duas décadas
sob o comando desse americano filho de um irlandês fiscal de trens,
a GE se transformou na empresa mais competitiva, admirada, espionada,
copiada e invejada do mundo.
Aos 65 anos, bilionário, ele próprio sai de cena como uma
lenda viva do mundo dos negócios. "Jack Welch é o número
1. É o maior líder corporativo de um século que produziu
Henry Ford, Alfred Sloan, da GM, e Bill Gates", resume Noel Tichy, professor
de economia da Universidade de Michigan. Não é preciso ser
um especialista para entender o que ele fez. Um simples cálculo
matemático dá mostra do poder de fabricar riquezas desse
executivo dono de um sorriso de astronauta veterano e de um par de olhos
azuis descritos por um de seus muitos biógrafos como "frios como
o laser". Em 1981, ano em que Welch se tornou o principal executivo da
GE, uma geladeira fabricada pela empresa custava cerca de 1.000 dólares
nos Estados Unidos. Se em vez de ter comprado o eletrodoméstico
alguém tivesse colocado o mesmo valor em ações da
GE, hoje poderia vendê-las por 40.000 dólares um ganho
de 4.000%. "Empresas de alta tecnologia conseguiram em tempos de euforia
ganhos até maiores que esse, mas a alegria durou poucos meses.
A alegria de Welch e de seus acionistas durou duas décadas. Sem
interrupção. Sem altos e baixos. Sem sustos ou pânicos.
Isso nunca havia sido feito antes", explica Tichy. Ninguém antes
havia fechado tantas unidades e demitido tanta gente. Em meados dos anos
80, Welch calculava em 118.000 o número de funcionários
que demitiu na ânsia furiosa de cortar custos e tornar seus negócios
mais eficientes e rentáveis. Foi quando recebeu o apelido de Neutron
Jack numa alusão à bomba de nêutrons que mata
sem danificar propriedades. No final da gestão, o apelido soa ridículo.
Jack criou o dobro de empregos que destruiu. Deixa a GE com 420.000 funcionários,
um faturamento de quase 100 bilhões de dólares e um lucro
líquido anual de 10 bilhões. Sua filial brasileira tem mais
de oitenta anos, possui fábricas em onze Estados, emprega 9.000
pessoas e responde por 2% dos negócios globais da empresa.
AFP

Com
Bill Clinton num carrinho de golfe: a paixão pelo esporte vai sobreviver
ao gosto pelos negócios |
Embora
impressionantes, os números contam apenas parte da história
de sucesso e das conquistas de Jack Welch. Sob esse ponto de vista, seu
livro de memórias é uma revelação. Primeiro,
diriam os cínicos, descobre-se que Jack Welch é humano.
Como qualquer pessoa normal, para quem gerenciar uma padaria já
seria desafio suficiente, ele declara logo no começo que a influência
mais marcante em seu estilo de administrar veio de casa, de sua mãe.
"Ela me deu as noções que me levariam ao topo: senso de
realidade, competitividade e autoconfiança", diz Welch. "Enxergar
as coisas como elas são e não como gostaríamos que
fossem foi seu conselho mais precioso", lembra Welch. Quantas crianças
cresceram brindadas por doses de sabedoria familiar como essas e nem por
isso se transformaram em Jack Welch? Milhões. Quantos executivos
novatos escreveram em suas avaliações anuais de desempenho
que seu objetivo era chegar à presidência da companhia e
conseguiram o objetivo? Numa companhia que vale 500 bilhões de
dólares, só um, Jack Welch. E isso sem perder o prazer de
continuar comemorando suas vitórias profissionais num botequim
com os amigos.
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