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Edição 1 717 - 12 de setembro de 2001
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Como numa minissérie

Os seqüestradores estão presos, mas
o caso Silvio Santos tem novos capítulos

Felipe Patury

 

FERNANDO,
o cabeça

LUCIANA,
a namorada

ESDRAS,
o irmão

MARCELO,
o comparsa

TATIANA,
a cúmplice

Fotos Almeida Rocha/Folha Imagem, Edson Ruiz/AE, Rubens Chiri/Perspectiva/AE, Samir Baptista/AE

Depois de uma investigação em tempo recorde, na qual acabou prendendo praticamente toda a quadrilha de seqüestradores em sete dias, a polícia de São Paulo tem ainda problemas a resolver no caso do apresentador Silvio Santos. A maior confusão está na apuração do tiroteio entre o bandido Fernando Dutra Pinto, líder dos seqüestradores, e um grupo de três investigadores dentro de um hotel em Alphaville, na Grande São Paulo. Dois dos agentes policiais foram mortos. Revelado o resultado da autópsia, surgiu uma enorme questão. "Os corpos apresentam sinais de execução", diz o delegado Eduardo Ielo, da Corregedoria da Polícia Civil. Tamatsu Tamaki recebeu nove tiros, seis deles nas costas e um na nuca. Marcos Bezerra foi atingido na testa, à queima-roupa. Isso leva a duas hipóteses. Uma é que o seqüestrador Fernando, depois de feri-los durante uma luta corporal, teve calma e tempo para dar os tiros fatais. A outra levanta suspeitas sobre a atuação dos policiais. Nessa tese, que a corregedoria tenta conferir, os três investigadores andaram trocando tiros entre si por alguma razão misteriosa.

 
Detalhes captados pela câmara dentro da casa de Silvio: as armas são entregues depois que o governador ajuda a libertar o refém, e as imagens vão parar nos telejornais

O policial sobrevivente, ouvido na semana passada, não disse nada que justifique essa cena. Segundo Reginaldo Nardis, todos os disparos aconteceram enquanto o grupo lutava, no chão do corredor do 10º andar. O exame de balística explicará se algum tiro dos policiais acertou o alvo errado. Uma das armas de Fernando Pinto também é razão de constrangimento para a polícia paulista. Na quarta-feira, divulgou-se que o grupo de seqüestradores tinha mais uma comparsa a ser presa porque um dos revólveres usados pelo bandido estava registrado em nome de uma mulher chamada Josiane Santos Batista. Só que esse revólver – um Taurus 38, número de série NB906317 – tinha sido apreendido por policiais militares havia seis anos. Segundo um boletim de ocorrência lavrado na época, a arma foi depositada no Fórum Criminal de São Paulo. Se voltou a ser usada é porque algum funcionário do fórum ou policial com acesso ao local a retirou de lá e vendeu a bandidos.

Com a prisão de Luciana dos Santos Souza, a Jenifer, que se entregou à polícia na cidade baiana de Bom Jesus da Lapa, só há um seqüestrador ainda em liberdade. Ele se chama Marcos Batista dos Santos e é irmão de Marcelo, o primeiro do grupo a ser pego. Luciana contou à polícia que Marcos a ajudava a vigiar a filha de Silvio Santos, Patrícia Abravanel, enquanto ela foi mantida em cativeiro. Mas a polícia tem restrições aos depoimentos e entrevistas já dados pela moça porque ela não foi capaz de contar a mesma versão dos fatos em nenhuma oportunidade. Ora diz que estava disposta a matar ou morrer, ora se afirma quase inocente. Em seu melhor número, anunciou que pretendiam torrar o dinheiro do resgate comprando cestas básicas para distribuir na miserável periferia paulistana. Luciana e outra moça presa na semana passada, Tatiana Pereira da Silva, aderiram aos planos de realização do seqüestro depois de um mês de trabalho numa boate da região metropolitana de São Paulo (leia quadro).

Para o apresentador Silvio Santos, o seqüestro teima em não acabar mesmo depois de ele ter decidido passar uma temporada em Miami com toda a família. Da cadeia, Fernando Pinto mandou uma carta para Silvio cobrando a suposta promessa que ele teria feito de pagar um advogado para atuar na defesa do bando. Silvio tinha bastante controle da situação durante as horas que passou sob a mira de um revólver trancado com o seqüestrador na cozinha de sua casa, há duas semanas. "Eu sou o responsável por conduzir este seqüestro", chegou a dizer o apresentador aos policiais em determinado momento.

O caso tem outros detalhes capazes de surpreender até roteiristas de cinema. Na hora de receber o resgate, por exemplo, pago por Guilherme Stoliar, funcionário, sobrinho e preposto do apresentador nos contatos com o seqüestrador, Fernando Pinto chegou a se desculpar por ser rude nos telefonemas. "Desculpe ter sido agressivo", explicou. "Essa é a minha profissão." Outra surpresa foi proporcionada pela Polícia Militar, que conduziu as negociações na casa de Silvio e gravou em vídeo tudo o que aconteceu lá dentro. A intenção não era editar e distribuir as imagens para os jornais, mas esclarecer qualquer dúvida se tudo desse errado lá dentro. Tudo deu certo, e as imagens, editadas, foram parar nos telejornais.

 

UM MÊS NA BOATE XANADU

 
Antonio Milena

Ela era uma das trinta dançarinas da boate Xanadu Night Club, em Diadema. Brincalhona, sempre provocava risos ao repetir sua frase predileta: "No final, tudo vai dar certo". Quando tudo deu errado e ela foi presa em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, o segurança da boate, Pedro Teles, ex-metalúrgico, mal acreditou. Reconheceu na televisão a prostituta que as amigas apelidavam de "Cabelinho". Luciana dos Santos Souza, de 24 anos, com seus cabelos alisados, famosa como Jenifer antes de ser presa, trabalhou na casa durante um mês, com sua amiga Tatiana Pereira da Silva, de 18, Tati para os íntimos. Ambas procuraram o proprietário da boate, Márcio Burgos, no início de julho, atendendo a um anúncio de emprego para moças maiores interessadas em trabalhar numa casa noturna e ganhar até 1 500 reais por semana, com moradia e refeição. O telefonema podia ser feito a cobrar, estratégia para facilitar o contato com as interessadas, geralmente moças pobres da periferia. O dono da boate foi buscá-las no metrô Jabaquara. Ele também ficou surpreso quando o segurança ligou contando que as seqüestradoras presas eram as mesmas prostitutas iniciantes que moraram no estabelecimento até recentemente. Márcio lembra que ambas diziam precisar de dinheiro para o sustento dos filhos. Luciana sempre falava sobre a filha de 4 anos. Tatiana tinha saudade do menino de 2 anos. Elas ficavam na boate a semana toda e só voltavam para casa na manhã de sábado.

Perceberam logo que os ganhos não seriam fáceis. Os clientes pagam 50 reais por meia hora e 70 por uma hora. Mas as moças recebem menos da metade: 20 ou 30 reais, conforme o caso, mais comissões pelo consumo dos clientes. Dormiam nas camas de casal dos quatro quartos do 2º andar, as mesmas usadas para os programas. Quartos, corredores e salão têm luzes vermelhas. No local funcionava até o ano passado o restaurante chinês Ching Chang. Sandra, que repartia uma cama com Luciana e Tatiana, conta que as duas mentiam para os parentes e namorados sobre o emprego. "Elas diziam que trabalhavam como garçonete em um restaurante chinês", lembra. Luciana dizia que o namorado, Fernando Dutra Pinto, a quem chamava de Nando, a mataria se descobrisse. Na primeira vez que subiu para o quarto com um cliente, no dia 6 de julho, uma sexta-feira, às 21h52, Luciana desceu meia hora mais tarde em prantos. "Ela disse que nunca tinha feito aquilo", afirma a recepcionista Adriana. O livro da recepção aponta que ela voltou a subir as escadas duas vezes na mesma noite, para programas de meia hora. Dias depois, fez um strip-tease no salão. Trêmula, bebeu água com açúcar em seguida. Ao se despedir das amigas, Luciana contou que ia morar com o namorado. "Ela disse que se arrumaria ou se encrencaria de vez", conta uma colega. E repetiu: "No final, tudo vai dar certo". Não deu.

 

Clay Scholz

 

   
 
   
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