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Como
numa minissérie
Os
seqüestradores estão presos, mas
o caso Silvio Santos tem novos capítulos
Felipe
Patury
| Fotos Almeida Rocha/Folha Imagem, Edson Ruiz/AE,
Rubens Chiri/Perspectiva/AE, Samir Baptista/AE |
Depois
de uma investigação em tempo recorde, na qual acabou prendendo
praticamente toda a quadrilha de seqüestradores em sete dias, a polícia
de São Paulo tem ainda problemas a resolver no caso do apresentador
Silvio Santos. A maior confusão está na apuração
do tiroteio entre o bandido Fernando Dutra Pinto, líder dos seqüestradores,
e um grupo de três investigadores dentro de um hotel em Alphaville,
na Grande São Paulo. Dois dos agentes policiais foram mortos. Revelado
o resultado da autópsia, surgiu uma enorme questão. "Os
corpos apresentam sinais de execução", diz o delegado Eduardo
Ielo, da Corregedoria da Polícia Civil. Tamatsu Tamaki recebeu
nove tiros, seis deles nas costas e um na nuca. Marcos Bezerra foi atingido
na testa, à queima-roupa. Isso leva a duas hipóteses. Uma
é que o seqüestrador Fernando, depois de feri-los durante
uma luta corporal, teve calma e tempo para dar os tiros fatais. A outra
levanta suspeitas sobre a atuação dos policiais. Nessa tese,
que a corregedoria tenta conferir, os três investigadores andaram
trocando tiros entre si por alguma razão misteriosa.
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| Detalhes
captados pela câmara dentro da casa de Silvio: as armas são entregues
depois que o governador ajuda a libertar o refém, e as imagens vão
parar nos telejornais |
O
policial sobrevivente, ouvido na semana passada, não disse nada
que justifique essa cena. Segundo Reginaldo Nardis, todos os disparos
aconteceram enquanto o grupo lutava, no chão do corredor do 10º
andar. O exame de balística explicará se algum tiro dos
policiais acertou o alvo errado. Uma das armas de Fernando Pinto também
é razão de constrangimento para a polícia paulista.
Na quarta-feira, divulgou-se que o grupo de seqüestradores tinha
mais uma comparsa a ser presa porque um dos revólveres usados pelo
bandido estava registrado em nome de uma mulher chamada Josiane Santos
Batista. Só que esse revólver um Taurus 38, número
de série NB906317 tinha sido apreendido por policiais militares
havia seis anos. Segundo um boletim de ocorrência lavrado na época,
a arma foi depositada no Fórum Criminal de São Paulo. Se
voltou a ser usada é porque algum funcionário do fórum
ou policial com acesso ao local a retirou de lá e vendeu a bandidos.
Com a prisão de Luciana dos Santos Souza, a Jenifer, que se entregou
à polícia na cidade baiana de Bom Jesus da Lapa, só
há um seqüestrador ainda em liberdade. Ele se chama Marcos
Batista dos Santos e é irmão de Marcelo, o primeiro do grupo
a ser pego. Luciana contou à polícia que Marcos a ajudava
a vigiar a filha de Silvio Santos, Patrícia Abravanel, enquanto
ela foi mantida em cativeiro. Mas a polícia tem restrições
aos depoimentos e entrevistas já dados pela moça porque
ela não foi capaz de contar a mesma versão dos fatos em
nenhuma oportunidade. Ora diz que estava disposta a matar ou morrer, ora
se afirma quase inocente. Em seu melhor número, anunciou que pretendiam
torrar o dinheiro do resgate comprando cestas básicas para distribuir
na miserável periferia paulistana. Luciana e outra moça
presa na semana passada, Tatiana Pereira da Silva, aderiram aos planos
de realização do seqüestro depois de um mês de
trabalho numa boate da região metropolitana de São Paulo
(leia
quadro).
Para o apresentador Silvio Santos, o seqüestro teima em não
acabar mesmo depois de ele ter decidido passar uma temporada em Miami
com toda a família. Da cadeia, Fernando Pinto mandou uma carta
para Silvio cobrando a suposta promessa que ele teria feito de pagar um
advogado para atuar na defesa do bando. Silvio tinha bastante controle
da situação durante as horas que passou sob a mira de um
revólver trancado com o seqüestrador na cozinha de sua casa,
há duas semanas. "Eu sou o responsável por conduzir este
seqüestro", chegou a dizer o apresentador aos policiais em determinado
momento.
O caso tem outros detalhes capazes de surpreender até roteiristas
de cinema. Na hora de receber o resgate, por exemplo, pago por Guilherme
Stoliar, funcionário, sobrinho e preposto do apresentador nos contatos
com o seqüestrador, Fernando Pinto chegou a se desculpar por ser
rude nos telefonemas. "Desculpe ter sido agressivo", explicou. "Essa é
a minha profissão." Outra surpresa foi proporcionada pela Polícia
Militar, que conduziu as negociações na casa de Silvio e
gravou em vídeo tudo o que aconteceu lá dentro. A intenção
não era editar e distribuir as imagens para os jornais, mas esclarecer
qualquer dúvida se tudo desse errado lá dentro. Tudo deu
certo, e as imagens, editadas, foram parar nos telejornais.
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UM
MÊS NA BOATE XANADU
Antonio Milena
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Ela
era uma das trinta dançarinas da boate Xanadu Night Club,
em Diadema. Brincalhona, sempre provocava risos ao repetir sua frase
predileta: "No final, tudo vai dar certo". Quando tudo deu errado
e ela foi presa em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, o segurança
da boate, Pedro Teles, ex-metalúrgico, mal acreditou. Reconheceu
na televisão a prostituta que as amigas apelidavam de "Cabelinho".
Luciana dos Santos Souza, de 24 anos, com seus cabelos alisados,
famosa como Jenifer antes de ser presa, trabalhou na casa durante
um mês, com sua amiga Tatiana Pereira da Silva, de 18, Tati
para os íntimos. Ambas procuraram o proprietário da
boate, Márcio Burgos, no início de julho, atendendo
a um anúncio de emprego para moças maiores interessadas
em trabalhar numa casa noturna e ganhar até 1 500 reais por
semana, com moradia e refeição. O telefonema podia
ser feito a cobrar, estratégia para facilitar o contato com
as interessadas, geralmente moças pobres da periferia. O
dono da boate foi buscá-las no metrô Jabaquara. Ele
também ficou surpreso quando o segurança ligou contando
que as seqüestradoras presas eram as mesmas prostitutas iniciantes
que moraram no estabelecimento até recentemente. Márcio
lembra que ambas diziam precisar de dinheiro para o sustento dos
filhos. Luciana sempre falava sobre a filha de 4 anos. Tatiana tinha
saudade do menino de 2 anos. Elas ficavam na boate a semana toda
e só voltavam para casa na manhã de sábado.
Perceberam logo que os ganhos não seriam fáceis. Os
clientes pagam 50 reais por meia hora e 70 por uma hora. Mas as
moças recebem menos da metade: 20 ou 30 reais, conforme o
caso, mais comissões pelo consumo dos clientes. Dormiam nas
camas de casal dos quatro quartos do 2º andar, as mesmas usadas
para os programas. Quartos, corredores e salão têm
luzes vermelhas. No local funcionava até o ano passado o
restaurante chinês Ching Chang. Sandra, que repartia uma cama
com Luciana e Tatiana, conta que as duas mentiam para os parentes
e namorados sobre o emprego. "Elas diziam que trabalhavam como garçonete
em um restaurante chinês", lembra. Luciana dizia que o namorado,
Fernando Dutra Pinto, a quem chamava de Nando, a mataria se descobrisse.
Na primeira vez que subiu para o quarto com um cliente, no dia 6
de julho, uma sexta-feira, às 21h52, Luciana desceu meia
hora mais tarde em prantos. "Ela disse que nunca tinha feito aquilo",
afirma a recepcionista Adriana. O livro da recepção
aponta que ela voltou a subir as escadas duas vezes na mesma noite,
para programas de meia hora. Dias depois, fez um strip-tease no
salão. Trêmula, bebeu água com açúcar
em seguida. Ao se despedir das amigas, Luciana contou que ia morar
com o namorado. "Ela disse que se arrumaria ou se encrencaria de
vez", conta uma colega. E repetiu: "No final, tudo vai dar certo".
Não deu.
Clay
Scholz
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