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Um segredo de
1500 anos
Surgem
as provas da existência de
um povo tão avançado como os incas
Bia Barbosa
Os
incas no Peru, os astecas no México e os maias na Guatemala são
considerados o primeiro time dos povos pré-colombianos. Escavações
em curso no norte do Peru estão a indicar que outro povo indígena
merece subir ao panteão dos mais evoluídos. São os
moches, cuja civilização atingiu o apogeu dez séculos
antes do Império Inca. Monumentos com paredes decoradas e jóias
de elaboração requintada, retirados dos sítios arqueológicos
próximos da cidade de Trujillo, revelam um mundo de impressionante
sofisticação. Há dois meses, descobriu-se uma coleção
de sessenta peças de cerâmica usadas em ritos funerais. São
os mais belos jarros, pratos, garrafas e vasos já encontrados no
deserto peruano só os próprios incas produziriam objetos
similares séculos mais tarde. Do ponto de vista dos arqueólogos,
é como encontrar o fio da meada que permitirá entender uma
civilização da qual até seis anos atrás quase
nada se sabia.
Como os moches não tinham escrita, as ruínas e objetos são
os únicos registros históricos disponíveis para compreendê-los.
O que se descobriu até agora é que se tratava de um povo
de pescadores, artesãos e fazendeiros, com grande conhecimento
de técnicas agrícolas e do uso da irrigação.
"O aperfeiçoamento tecnológico que atingiram foi tamanho
que o legado que deixaram entre os povos da região equivale ao
dos gregos no Mediterrâneo", disse a VEJA o arqueólogo peruano
Santiago Uceda, diretor do Museu de Trujillo e chefe das escavações.
Os objetos também revelam que, como a maioria dos ameríndios,
os moches praticavam sacrifícios humanos. Durante 850 anos, eles
formaram uma comunidade teocrática, cujo poder estava baseado na
hierarquia religiosa. No apogeu dessa cultura, entre os anos 300 e 600,
os chefes chegaram a ser considerados divindades, como aconteceu com os
faraós no Egito. As melhores pinturas murais foram encontradas
por Uceda no sítio arqueológico de Huaca de la Luna, um
tipo de pirâmide feita de plataformas sobrepostas de tijolos de
barro, que foi a sede do governo moche. Com cores ainda vivas e motivos
geométricos, trazem no centro uma figura assustadora chamada Ai-Apaec,
ou "O Degolador", uma das divindades mais presentes nos rituais de sacrifício.
Várias peças de cerâmica retratam cativos amarrados,
à espera do sacrifício. No topo da hierarquia social moche
estavam os sacerdotes. Eles celebravam as cerimônias em que se amputava
a cabeça da vítima oferecida aos deuses. Os desenhos mostram
que depois eles bebiam o sangue, que, comparado à água da
chuva para a terra, era sinônimo de vida para os deuses.
Acredita-se que os moches comiam a carne dos sacrificados, como ocorria
com outros povos indígenas, entre eles os astecas. A vítima
era escolhida numa disputa arranjada entre dois guerreiros; o perdedor
morria e o vencedor ganhava o direito de usar um espetacular manto feito
de pele de animal, adornado com penas, placas de ouro e pedras preciosas.
Essa peça de grande esplendor, encontrada há dois anos,
é considerada pelos arqueólogos a mais importante entre
as retiradas das ruínas de Huaca de la Luna. Além dos sacrifícios
de guerreiros, relativamente freqüentes, os moches conduziam verdadeiras
chacinas em momentos de crises e bruscas alterações do clima.
Pesquisas vinculam essas mortandades aos períodos em que ocorria
o fenômeno El Niño, o aquecimento anormal das águas
do Pacífico que provoca mudanças climáticas na América
do Sul. Em 1996, pesquisadores encontraram duas sepulturas com os esqueletos
de setenta homens, mulheres e crianças sacrificados para aplacar
o que acreditavam ser a fúria divina. Depois de mortas, as vítimas
eram esquartejadas e seus corpos deixados a céu aberto como oferenda
aos deuses.
Decifrar o significado dos objetos é uma pequena parte do trabalho
dos arqueólogos. Desde o ano passado, uma equipe de 37 pesquisadores
peruanos estuda a arquitetura desse povo. Eles calculam que, no apogeu
da civilização moche, a capital chegou a ter 15.000 habitantes.
Até o momento, o foco das escavações vinha sendo
os grandes prédios públicos, como em Huaca de la Luna, onde
foi encontrada a maioria dos objetos e sepulturas. Uceda e seus pesquisadores
estão começando agora a investigar os prédios menores.
O objetivo é decifrar por meio das pequenas edificações,
provavelmente usadas como moradia, o cotidiano das pessoas. Há
muito ainda a ser descoberto nos arredores de Trujillo. São vários
os sítios arqueológicos, espalhados por uma faixa de 400
quilômetros de comprimento. "Se continuarmos no mesmo passo, precisaremos
de no mínimo mais dez anos de pesquisa", acredita Uceda.
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