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Acabou a farra
Finalmente,
o Congresso aprova emenda
que encerra o festival de MPs no país
Márcio
Pacelli
Na semana
passada, o Brasil deu um grande passo à frente. O Congresso Nacional
aprovou uma emenda que acaba com a farra das medidas provisórias
um instrumento legal que, criado pela Constituição
de 1988, deveria ser usado apenas em situações de emergência,
mas passou a ser aplicado até para compra de carro oficial. A partir
desta terça-feira, quando a emenda for promulgada, o reino do provisório,
criado pela profusão de MPs, estará encerrado. De agora
em diante, uma medida provisória terá validade por um prazo
máximo de 120 dias. Se, ao final de 45 dias, ela não for
analisada, o Congresso Nacional pára: ou vota a MP ou não
vota mais nada uma forma de obrigar o Legislativo a apreciá-las.
Antes, uma MP valia por apenas trinta dias e podia ser reeditada indefinidamente.
Foi o que aconteceu, para ficar no exemplo mais notório, com a
MP do Plano Real, sucessivamente reeditada durante sete anos. O Congresso
só a votou em fevereiro passado.
Além
disso, o presidente não poderá mais usar medida provisória
para legislar sobre qualquer assunto, como ocorre hoje. Assuntos relativos
a direitos políticos, direito penal, orçamento federal ou
poupança popular, por exemplo, não poderão mais ser
tratados por MP. A novidade é um avanço enorme. O festival
de medidas provisórias promovido pelos governos desde a
gestão do ex-presidente José Sarney até hoje foram
mais de 600 gerava imensa insegurança jurídica no
país, pois elas podiam ser revogadas a qualquer momento. Também
era um desafio, especialmente para os juízes encarregados de decidir
com base na legislação, saber quais leis, afinal de contas,
estavam em vigor no Brasil. "Essa emenda veio acabar com o pandemônio
criado para os operadores do direito", diz o ministro Marco Aurélio
Mello, presidente do Supremo Tribunal Federal. "A Constituição
de 1988 removeu o entulho autoritário do país. A emenda
de agora removeu o entulho da democracia", define Edison Lobão,
presidente interino do Senado.
A revisão
dessa aberração legislativa só aconteceu depois de
longo e demorado acordo entre oposição e governo. A emenda,
agora aprovada, nasceu em 1995. De início, o Palácio do
Planalto deixava o assunto em segundo plano, com receio de perder um instrumento
tão acessível para legislar. Mais recentemente, a oposição
começou a resistir à idéia, julgando que, caso eleja
um de seus representantes para o Palácio do Planalto, seria mais
conveniente manter tudo como estava. Felizmente, fez-se o acordo. Mas,
em se tratando de assunto tão polêmico, mesmo no apagar das
luzes houve confusão. Na semana passada, aproveitando os últimos
dias de farra legal, Fernando Henrique Cardoso triplicou sua média
histórica, de três MPs por mês. Em agosto, assinou
nove. Na quarta-feira, dia em que o Senado votava a emenda mudando a lei,
FHC editou outras nove medidas provisórias. Desde 1988, Sarney
foi o presidente que mais editou MPs, numa média mensal de quase
oito. Fernando Henrique fez uma média mensal de pouco mais de três.
Mas, considerando as MPs que reeditou, FHC é imbatível.
Passa das 5.000. "Ninguém mais lhe retirará
o recorde", ironiza Flávio Dino, presidente da Associação
dos Juízes Federais.
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