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Com a mão
na massa
PF descobre
que, além de participar de
trambiques com títulos falsos lá fora,
subprocurador extorquia empresas
Alexandre
Oltramari

O subprocurador
Miguel Guskow: dólares, comissões e planos de férias nababescas no
Oriente |
No
início, eram só suspeitas. O subprocurador Miguel Guskow,
colaborador de Geraldo Brindeiro na Procuradoria Geral da República,
apareceu como avalista de uma máfia que negociava títulos
falsos no exterior. No começo do ano, VEJA revelou sua assinatura
em cartas usadas em golpes milionários, e Guskow foi destituído
da coordenação de uma das câmaras do Ministério
Público mas continuou no cargo de subprocurador. Investigado
pela Polícia Federal, ele teve sua casa invadida por agentes em
busca de provas. Na semana passada, VEJA teve acesso a um relatório
sigiloso da PF, de 33 páginas, com o resultado da operação
na residência do subprocurador. A papelada confirma a suspeita antiga
de que Guskow recebia mesmo comissão pelos trambiques com títulos
falsos no exterior e ainda revela uma novidade: o subprocurador usa seu
gabinete, onde está até hoje, para extorquir empresas que
deveria investigar.
O caso avançou
depois que a lobista Isabel de Alvarez Pacheco prestou um depoimento minucioso
à PF. Ela contou ter aberto uma empresa, a Brasília Serviços,
cujo verdadeiro dono era Guskow. Apesar de não aparecer formalmente
como sócio, o subprocurador controlava a empresa por meio de um
contrato de gaveta feito entre sua mulher, Maria Aparecida, e a lobista
Isabel. Por que um subprocurador tem uma consultoria em nome de testa-de-ferro?
Além de se envolver com títulos falsos no exterior, Guskow
também participava de trambiques domésticos. Segundo Isabel,
a mutreta funcionava assim: Guskow lhe entregava uma lista de empresas
com processos no Ministério Público. Com a relação
em mãos, a lobista as procurava. Oferecia desde um parecer favorável
do subprocurador até o arquivamento definitivo da investigação.
Em troca, diz ela, cobrava propina, cujo valor variava conforme a situação.
De acordo com Isabel, houve casos em que, para dar um parecer favorável,
Guskow chegou a mandar cobrar mensalidades de até 200.000
reais.
Além
de declarações à polícia, a lobista entregou
documentos. Um deles é um bilhete de Guskow. "Bruno, para amanhã,
o negócio foi fechado com comissões de 12 milhões
de reais", diz o manuscrito. Bruno é o lobista João Carlos
Bruno, assessor do senador Leomar Quintanilha (PPB-TO), apontado por Isabel
como cúmplice no esquema de extorsão. Por causa dessas evidências,
a Justiça autorizou a PF a vasculhar a casa de Guskow e a de Bruno.
Na residência do lobista, a PF encontrou um manuscrito no qual ele
registra um acerto de contas com o subprocurador no valor de 1,5 milhão
de reais. Também foi apreendida uma guia de depósito bancário
de 10.000 reais em favor de Guskow. Nas duas
buscas, a PF recolheu 70.000 dólares
60.000 no apartamento do lobista e 10.000
na casa do subprocurador. O dinheiro apresentava a mesma seqüência
numérica, numa demonstração de que Guskow e Bruno
dividiram o mesmo maço de dólares.
O relatório
da PF não deixa dúvidas sobre a participação
de Guskow nos trambiques com títulos falsos. Em sua casa, os agentes
acharam um documento da Holding Bank Finance and Investment Corporation
que menciona o pagamento de comissão ao subprocurador. Na papelada
apreendida, chama a atenção o fato de as transações
com títulos envolverem cifras na casa do milhão de dólares,
às vezes até do bilhão, e a PF ter recolhido só
um punhado de dólares em sua casa. A razão talvez seja uma
correspondência da Offshore World Caribbean Corporation endereçada
a Guskow. Nela, a empresa dá informações sobre taxas
e contas no paraíso fiscal de Belize, na América Central.
Outra explicação pode estar no depoimento da lobista Isabel
Pacheco. Segundo ela, sempre que lhe pagava alguma quantia, Guskow dava
um conselho. "Você pega os dólares, divide em várias
caixas, compra um terreno e enterra. Depositar no banco é fria."
Por via das dúvidas, é bom lembrar que Guskow é dono
de uma chácara nas proximidades de Brasília...
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