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Edição 1 717 - 12 de setembro de 2001
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Com a mão na massa

PF descobre que, além de participar de
trambiques com títulos falsos lá fora,
subprocurador extorquia empresas

Alexandre Oltramari

 

O subprocurador Miguel Guskow: dólares, comissões e planos de férias nababescas no Oriente

No início, eram só suspeitas. O subprocurador Miguel Guskow, colaborador de Geraldo Brindeiro na Procuradoria Geral da República, apareceu como avalista de uma máfia que negociava títulos falsos no exterior. No começo do ano, VEJA revelou sua assinatura em cartas usadas em golpes milionários, e Guskow foi destituído da coordenação de uma das câmaras do Ministério Público – mas continuou no cargo de subprocurador. Investigado pela Polícia Federal, ele teve sua casa invadida por agentes em busca de provas. Na semana passada, VEJA teve acesso a um relatório sigiloso da PF, de 33 páginas, com o resultado da operação na residência do subprocurador. A papelada confirma a suspeita antiga de que Guskow recebia mesmo comissão pelos trambiques com títulos falsos no exterior e ainda revela uma novidade: o subprocurador usa seu gabinete, onde está até hoje, para extorquir empresas que deveria investigar.

O caso avançou depois que a lobista Isabel de Alvarez Pacheco prestou um depoimento minucioso à PF. Ela contou ter aberto uma empresa, a Brasília Serviços, cujo verdadeiro dono era Guskow. Apesar de não aparecer formalmente como sócio, o subprocurador controlava a empresa por meio de um contrato de gaveta feito entre sua mulher, Maria Aparecida, e a lobista Isabel. Por que um subprocurador tem uma consultoria em nome de testa-de-ferro? Além de se envolver com títulos falsos no exterior, Guskow também participava de trambiques domésticos. Segundo Isabel, a mutreta funcionava assim: Guskow lhe entregava uma lista de empresas com processos no Ministério Público. Com a relação em mãos, a lobista as procurava. Oferecia desde um parecer favorável do subprocurador até o arquivamento definitivo da investigação. Em troca, diz ela, cobrava propina, cujo valor variava conforme a situação. De acordo com Isabel, houve casos em que, para dar um parecer favorável, Guskow chegou a mandar cobrar mensalidades de até 200.000 reais.

Além de declarações à polícia, a lobista entregou documentos. Um deles é um bilhete de Guskow. "Bruno, para amanhã, o negócio foi fechado com comissões de 12 milhões de reais", diz o manuscrito. Bruno é o lobista João Carlos Bruno, assessor do senador Leomar Quintanilha (PPB-TO), apontado por Isabel como cúmplice no esquema de extorsão. Por causa dessas evidências, a Justiça autorizou a PF a vasculhar a casa de Guskow e a de Bruno. Na residência do lobista, a PF encontrou um manuscrito no qual ele registra um acerto de contas com o subprocurador no valor de 1,5 milhão de reais. Também foi apreendida uma guia de depósito bancário de 10.000 reais em favor de Guskow. Nas duas buscas, a PF recolheu 70.000 dólares – 60.000 no apartamento do lobista e 10.000 na casa do subprocurador. O dinheiro apresentava a mesma seqüência numérica, numa demonstração de que Guskow e Bruno dividiram o mesmo maço de dólares.

O relatório da PF não deixa dúvidas sobre a participação de Guskow nos trambiques com títulos falsos. Em sua casa, os agentes acharam um documento da Holding Bank Finance and Investment Corporation que menciona o pagamento de comissão ao subprocurador. Na papelada apreendida, chama a atenção o fato de as transações com títulos envolverem cifras na casa do milhão de dólares, às vezes até do bilhão, e a PF ter recolhido só um punhado de dólares em sua casa. A razão talvez seja uma correspondência da Offshore World – Caribbean Corporation endereçada a Guskow. Nela, a empresa dá informações sobre taxas e contas no paraíso fiscal de Belize, na América Central. Outra explicação pode estar no depoimento da lobista Isabel Pacheco. Segundo ela, sempre que lhe pagava alguma quantia, Guskow dava um conselho. "Você pega os dólares, divide em várias caixas, compra um terreno e enterra. Depositar no banco é fria." Por via das dúvidas, é bom lembrar que Guskow é dono de uma chácara nas proximidades de Brasília...

 

 

 
 
   
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