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"Não largo
o osso"
O ministro
defende acordo aeroespacial
com EUA, diz que a oposição não entendeu
nada e se mostra um "nacionalista"
Lourenço
Flores
Ana Araujo
 |
| "Vamos
viabilizar a base de Alcântara e investir em nosso programa
espacial. Vamos faturar 30 milhões de dólares" |
O ministro
da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Sardenberg, 60 anos, tem quase
quatro décadas como diplomata. Habituou-se à fala calma
e aos gestos contidos. É desse modo que aborda o tema mais polêmico
de sua pasta atualmente: o acordo do Brasil com os Estados Unidos segundo
o qual as empresas americanas poderão usar a base aeroespacial
de Alcântara, no Maranhão, para pôr seus satélites
em órbita. Mas, por trás da fachada diplomática,
Sardenberg anda furioso. Por defender o acordo com os americanos, que
a oposição no Congresso combate sob a alegação
de que fere a soberania nacional, Sardenberg tem sido acusado de entreguista
e impatriótico. "Repilo energicamente esse tipo de acusação",
diz o ministro, que se classifica como um "nacionalista". Para ele, o
acordo com os Estados Unidos é bom para o Brasil e servirá
como uma importante alavanca para que o país entre no competitivo
e bilionário mercado aeroespacial. Na semana passada, Sardenberg
recebeu VEJA em seu gabinete, em Brasília, para a seguinte entrevista.
Veja
Por causa dessa história da cessão da base de Alcântara
aos americanos chegaram a acusá-lo de "entreguista". Como o senhor
reagiu a isso?
Sardenberg
Repilo energicamente acusações como essa, que já
ouvi inclusive no Congresso, com palavras desse tipo. Tenho uma longa
história no Itamaraty e ninguém jamais sonhou em me acusar
de entreguista. Não entrei nesse jogo ontem. É preciso respeito
e diálogo democrático.
Veja
O senhor então é nacionalista?
Sardenberg
Sou
nacionalista e tenho credenciais para exigir respeito.
Veja
Com o acordo para ceder as instalações da base
de Alcântara às empresas americanas, o Brasil não
terá acesso a nova tecnologia, certo?
Sardenberg
Certo.
Veja
O Brasil também não poderá investir os
dólares recebidos pela cessão da base no desenvolvimento
do principal item do projeto espacial brasileiro, que é o Veículo
Lançador de Satélites (VLS), certo?
Sardenberg
Certo.
Veja
Então, qual a vantagem para o Brasil?
Sardenberg
São duas as vantagens e ambas são fundamentais. A principal
é estratégica. Com o acordo, a base de Alcântara vai
agilizar-se, atualizar-se. Passará a trabalhar em uma velocidade
muito maior que atualmente. Isso significa que poderemos treinar nossas
equipes, pois é bom não esquecer que as equipes de lançamento
são brasileiras, e não americanas. Vamos passar a ser mais
eficazes, pois teremos pessoal mais treinado, mais experimentado. A outra
vantagem é econômica. Poderemos viabilizar a base de Alcântara
e investir em nosso programa espacial. A expectativa é de que vamos
faturar pelo menos 30 milhões de dólares anuais.
Veja
Mas qual a vantagem econômica se o dinheiro não
pode ser aplicado no VLS?
Sardenberg
Não
podemos aplicar o dinheiro no VLS em si, mas podemos empregá-lo
em uma série de atividades laterais, mas indispensáveis,
do programa espacial. Com os recursos, investiremos no próprio
Centro de Lançamento de Alcântara, na melhoria de seus sistemas
e infra-estrutura. Vamos ter condições, também, de
fortalecer programas de desenvolvimento do entorno da base, beneficiando
principalmente a parte da população de Alcântara que
foi transferida para áreas próximas no momento da construção
da unidade. Além do mais, gostaria de dizer que os opositores do
acordo dizem que é extremamente grave que os recursos não
possam ser carreados para o VLS. Para mim, isso é um tremendo equívoco.
Veja
Por quê?
Sardenberg
Creio
que seria prejudicial, e até ingênuo, em termos de estratégia
nacional, carrear recursos externos, direta ou indiretamente, para desenvolvimento
de uma tecnologia de caráter estratégico e comercial. Isso
nos tornaria dependentes das imposições dos financiadores
sobre o uso de nossos foguetes. Dessa forma, continuaremos bancando com
nossos recursos o desenvolvimento do VLS. No ano passado, aplicamos 12
milhões de reais e, no ano que vem, colocaremos outros 12 milhões.
É dinheiro nosso e suficiente. Além disso, gostaria de lembrar
à oposição que, pelas nossas leis, o dinheiro recebido
das empresas americanas pelo uso da base de Alcântara cai no caixa
único. Não se trata, portanto, de dinheiro carimbado. Sendo
assim, a rigor, poderíamos usá-lo até no desenvolvimento
do VLS. Mas não vamos fazê-lo porque não queremos
e não precisamos. Também é bom esclarecer que, no
âmbito do acordo, não haverá transferência de
tecnologia simplesmente porque esse não é um acordo de transferência
de tecnologia. É uma prestação de serviço.
Nós cedemos a base e recebemos por isso. De mais a mais, o governo
americano, por sua política de não-proliferação
de mísseis, não permite a transferência de tecnologia
nessa área de jeito nenhum. E isso não acontece apenas com
o Brasil. Os Estados Unidos agem assim com todos os países com
os quais eles têm acordo, como a China e a Rússia. Não
há discriminação alguma com relação
ao Brasil.
Veja
A China é um rival tradicional dos Estados Unidos e tem um programa
espacial com viés militar. Já o Brasil é um velho
parceiro e tem um programa espacial pacífico. Ainda assim o Brasil
deve receber o mesmo tratamento que a China?
Sardenberg
Mas
por que se admitiria que os Estados Unidos abrissem uma exceção
para o Brasil e saíssem de sua política firmada de não
transferir tecnologia, uma tecnologia de uso duplo, tanto civil como militar?
É uma hipótese romântica. Aliás, especialmente
romântica, tendo em vista a posição atual do governo
americano sob o presidente George W. Bush. Já era na administração
passada, de Bill Clinton, e agora então...
Veja
As exigências americanas não são uma ingerência
excessiva nos negócios internos do Brasil? Não ferem a soberania
nacional, como acusa a oposição?
Sardenberg
Sabe
qual era a posição inicial dos Estados Unidos? Eles só
negociavam ca face="Verdana, Arial, Helvetica, sans-serif" size="2"> Veja
As exigências americanas não são uma ingerência
excessiva nos negócios internos do Brasil? Não ferem a soberania
nacional, como acusa a oposição?
Sardenberg
Sabe
qual era a posição inicial dos Estados Unidos? Eles só
negociavam caso desistíssemos do VLS. Eu respondi que não
havia ido aos Estados Unidos para negociar o VLS, mas para começar
as negociações que permitissem lançamentos a partir
de Alcântara com o uso de tecnologia americana protegida. E foi
o que conseguimos. Você não pode pedir ao macaco que coma
abacaxi. O macaco come banana.
Veja
Isso não acaba por ajudar os Estados Unidos, que conseguem
o que querem, e prejudicar o Brasil, que precisa submeter-se a exigências?
Sardenberg
De
forma alguma. É apenas um acordo de salvaguardas, exaustivamente
negociado, para impedir a apropriação indébita de
tecnologias. Nenhum país virá para o Brasil sem esse tipo
de garantia. Poderá até vender foguetes, ou parte deles,
mas jamais virá para ceder a tecnologia, explicar como é
que se faz e ainda mostrar o mapa da mina. Isso não existe. É
um terreno altamente competitivo. Quem tem vantagens competitivas exerce-as.
Por isso, temos de colocar Alcântara para funcionar em grande estilo.
E o controle do centro continuará a ser brasileiro. Não
existe essa história de aluguel para os americanos.
Veja
As indústrias farmacêuticas internacionais também
trabalham numa área extremamente competitiva e muito sensível.
O ministro da Saúde, José Serra, no entanto, recentemente
ameaçou quebrar a patente de um medicamento e obteve uma vitória.
O Brasil não poderia fazer o mesmo na área aeroespacial?
Sardenberg
É preciso diferenciar fortemente essas duas coisas. Na área
dos fármacos, os laboratórios internacionais têm um
enorme mercado já consolidado aqui, um dos maiores do mundo e que
está em expansão. Portanto, eles pensam duas vezes antes
de enfrentar o governo brasileiro. Em Alcântara, a questão
é muito mais complicada. Estamos no fim da fila. Existem outros
oito centros de lançamentos comerciais no mundo. Sem o acordo,
o governo americano não permitirá que suas empresas lancem
seus satélites do Brasil. E eles dominam 80% do mercado mundial.
Nesse caso, ficaríamos restritos a disputar uma parcela dos 20%
restantes, o que não é viável do ponto de vista econômico.
Veja
Por que os Estados Unidos se interessam pela base de Alcântara?
Sardenberg
A base de Alcântara é estratégica. Por sua localização
geográfica, a apenas 2 graus de latitude sul da linha do Equador,
permite que os foguetes sejam lançados com uma economia de combustível
de 13% em relação ao Cabo Canaveral, nos Estados Unidos,
e de 31% em relação a Baikonur, no Cazaquistão, os
dois principais centros de lançamentos comerciais. Assim, empresas
que pretendam colocar grandes satélites em órbita, como
os de telecomunicações e meteorologia, podem reduzir custos
significativamente usando a base de Alcântara. Temos o centro de
lançamento mais competitivo do mundo. Não podemos ficar
de fora de um mercado que pode chegar a 33 bilhões de dólares
nos próximos dez anos. Se não entendermos isso, meu Deus,
perderemos uma grande oportunidade. Já perdemos outras no passado.
Então, uma decisão negativa nesse caso de Alcântara
será danosa para nossa economia e nossa capacidade de exportar
serviços. E a responsabilidade pela decisão equivocada terá
de ser assumida por quem a provocou.
Veja
Se a base de Alcântara é tão competitiva
assim, por que ainda não é o xodó do mundo aeroespacial?
Sardenberg
Até agora, o Brasil insistia em utilizá-la com exclusividade,
e, tendo pouco dinheiro, a coisa acabou minguando. Atualmente estamos
tentando mudar o enfoque, e começamos pelos Estados Unidos, que
são a maior potência mundial nessa área. Mas já
há interesse da Austrália, da Argentina e da França.
Veja
O que é soberania nacional?
Sardenberg
Classicamente, é o princípio de autodeterminação
dos povos, a igualdade entre nações soberanas. Hoje, modernamente,
outros valores precisam ser incluídos para que esse princípio
seja cumprido. Entra aí, sem dúvida, talvez como ponto mais
importante hoje, o esforço nacional para um desenvolvimento científico
e tecnológico que permita que nos tornemos menos dependentes neste
mundo globalizado e cada vez menos amigável. Isso é responsabilidade
nacional por um desenvolvimento econômico que beneficie seu povo
e que contribua para a justiça social.
Veja
Qual é a importância para o Brasil de ter um programa
espacial?
Sardenberg
Como é a realidade do mundo? Alguns países têm tecnologia
espacial altamente sofisticada, que agrega valor e gera empregos de boa
qualidade, e a grande maioria não. Para o Brasil, o programa espacial
é fundamental para deixarmos de ser eternos compradores dessas
tecnologias. Pesquisa e desenvolvimento geram poder e riqueza, independentemente
de usos para fins militares ou não. É por isso que a gente
não larga o osso em matéria de satélites, não
larga o osso em matéria de veículos de lançamento
e não larga o osso em matéria do centro de lançamento.
Tendo em vista nossas necessidades nacionais, precisamos das técnicas
espaciais. Precisaremos, por exemplo, fazer sempre o sensoriamento remoto
de nosso imenso território e de suas potencialidades a partir de
satélites estrangeiros?
Veja
Qual a prioridade brasileira?
Sardenberg
Nosso primeiro objetivo é na área de foguetes: conseguir
homologar o VLS-1, obter um vôo bem-sucedido. Isso pode ocorrer
no ano que vem. Já temos, inclusive, manifestações
da França e da Argentina de que usariam nosso foguete para lançar
seus satélites quando ele estiver homologado. A partir daí,
sairemos da fase experimental para a fase comercial. E nosso programa
prevê também trabalhar em satélites, científicos
e de coleta de dados. Domínio das técnicas e excelência
nessa área são nossas principais metas.
Veja
O Brasil já tentou duas vezes colocar o VLS-1 no espaço.
Nas duas fracassou. O senhor ficaria debaixo de um foguete desenvolvido
no Brasil ou teria medo de que explodisse em sua cabeça?
Sardenberg
Foram
acidentes de percurso. É uma fase experimental, na qual estamos
aprendendo. Mesmo com esses fracassos, nós aprendemos. A percepção
é que estamos à beira de obter bons resultados. E, bem,
você está convidado a ir comigo a Alcântara quando
formos lançar o terceiro foguete. Aí ficaremos lá
de mãos dadas.
Veja
Se o senhor tivesse dinheiro, faria como o americano Dennis
Tito, que pagou 20 milhões de dólares aos russos para viajar
pelo espaço?
Sardenberg
Andar de espaçonave? Nunca. Não, não, não.
Meu fascínio é puramente intelectual. Não sou uma
pessoa de aventura. Sou um sujeito do diálogo. Sou uma pessoa plenamente
convencida das vantagens de ter os pés no chão.
Veja
O que vai bem e o que vai mal na área de ciência
e tecnologia no país?
Sardenberg
Estamos em pleno curso de uma enorme reforma nessa área. A começar
pelo dinheiro. Em 1999, aplicávamos cerca de 900 milhões
de reais. Hoje, esse valor mais que dobrou, alcançando 1,9 bilhão.
Isso permite que continuemos nosso esforço em pesquisa básica.
Em 1992, formamos 1.000 doutores. Em 2001,
serão 6.000. Hoje, a comunidade de Ph.Ds.
é de 30.000 pessoas no país.
Isso vai bem e é fundamental, porque temos uma necessidade urgente
de gente. Somos centro de excelência em setores como engenharia
aeronáutica, como prova a Embraer, tecnologias de exploração
de petróleo em áreas profundas, desenvolvimento de satélites,
enriquecimento de urânio, agricultura tropical e vacinas. Nosso
problema é que, por maior que esteja sendo esse avanço,
o esforço em tecnologia ainda é pequeno, numa comparação
internacional. Investimos atualmente cerca de 1,4% do PIB. Em 1997, era
apenas 0,8%, mas teremos de nos aplicar muito para chegar, em dez anos,
pelo menos à média de 2,4% investida pelo pelotão
de frente dos países desenvolvidos. Nações como a
Suécia e o Japão investem 3% de seu PIB.
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