"FUI EU"

Foto: Liane Neves Foto: Edison Vara
Francisco de Assis Pereira: "Eu matei todas. As nove"


Foto: Álbum de Família

Francisco, você conhece Thayná?

Thayná? Thayná... Não conheço.

E Elisângela, você conheceu alguma?

Não.

Selma?

Não. Também não.

E você fez sexo anal com alguma de suas vítimas?

Fiz, com algumas.

Pausa. Surpresa. O diálogo continua, em ritmo menos frenético:

Você matou algumas daquelas mulheres, Francisco?

Matei

Quais?

Todas.

Quantas mulheres você matou?

Nove.

Você matou Isadora?

Matei. Fui eu.

Francisco demorou frações de segundos para reconhecer que matou Isadora Fraenkel, 18 anos, uma bonita garota de classe média paulistana que no dia 10 de fevereiro saiu de casa para ir à aula de inglês e desapareceu. O silêncio que veio depois da confissão durou pelo menos um minuto.

Como você matava as moças?

Com o cadarço dos sapatos ou com uma cordinha que às vezes eu levava na pochete. Eu dava um jeito.

Outra pausa, alguns pigarros. É o próprio Francisco quem volta a falar. A voz sai serena, com um tom de constatação:

Nunca contei isso pra ninguém, nem pra minha mãe. Eu tenho um lado ruim dentro de mim. É uma coisa feia, perversa, que eu não consigo controlar. Tenho pesadelos, sonho com coisas terríveis. Acordo todo suado. Tinha noite que não saía de casa porque sabia que na rua ia querer fazer de novo, não ia me segurar. Deito e rezo, pra tentar me controlar.

Era um dos primeiros dias de Francisco de Assis Pereira, 30 anos, no prédio da Divisão de Homicídio e Proteção à Pessoa, DHPP, no centro de São Paulo. Havia um caos nas três salas da equipe C-Sul que antecedem uma pequena cela para onde Francisco é levado antes dos depoimentos. Investigadores, escrivães, detetives e advogados transitavam por ali. Funcionários de outras equipes de vez em quando aproveitavam para dar uma espiada em Francisco e sair com um veredicto pessoal. Em meio a esse movimento, Francisco estava confuso. Na presença de três pessoas, confessou ser o maníaco do Parque do Estado, o suspeito mais procurado pela polícia brasileira. O assassino não de oito mulheres, como acredita a polícia, mas de nove. O homem que estuprou e enforcou suas vítimas e depois largou seus corpos em clareiras de uma das maiores áreas verdes de São Paulo. A confissão foi ouvida por VEJA. Apesar do clima dramático em que foi feito, era um relato informal.

Pouco tempo depois, no primeiro depoimento oficial que deu ao delegado Sérgio Alves, responsável pelo caso, Francisco estava mais calmo. O interrogatório durou sete horas. Durante todo esse tempo, ele negou qualquer relação com os oito assassinatos e cinco estupros dos quais é suspeito. A opção de Francisco tinha uma lógica. No caso de uma confissão, ele poderia ser considerado um psicopata e ficaria trancafiado no Pavilhão Dois do Manicômio Judiciário — o inferno na terra — por pelo menos trinta anos. Negando, pode ser condenado por apenas um homicídio e pegar uma pena menor.

"Essas mulheres não tiveram
chance de se defender.
Foram acuadas como uma
caça. Isso dá muita raiva"
Jane Belucci, perita da Polícia Civil
Foto: Frederic Jean  

No momento de sua confissão extra-oficial, Francisco ainda não sabia das firulas jurídicas que envolvem o seu inquérito. Com voz pausada, desembestou no relato de uma complicada teia de namoradas, traumas e rancores que, segundo ele, formaram seu "lado negro". Falou de uma tia, irmã de sua mãe, que o teria molestado sexualmente na infância ("por causa dela, tenho fixação em seios"). Falou de um ex-patrão, com quem teria um relacionamento homossexual ("sempre que ele chegava perto, eu virava o rosto"). Falou de uma companheira de patinação, Silvia ("uma menina gótica, curtia cemitérios"), que mordera e quase lhe arrancara o pênis. E falou que, de fato, sente dores durante as relações sexuais, como dizem as mulheres que denunciam ter sido atacadas por ele. Depois do relato, o desfecho: "Sou ruim, gente. Ordinário". A conversa durou pouco mais de duas horas. Consultada formalmente sobre a confissão, a advogada Maria Elisa Munhol, que divide a defesa de Francisco com o sócio Ubiratan Alencar, diz o seguinte: "Eu não sou psiquiatra, mas a minha experiência indica que o Francisco deve ter o que os especialistas chamam de 'transtorno de personalidade'. Não descarto a hipótese de ele ter feito essa confissão como uma forma de aparecer mais, de se tornar uma grande estrela, de virar um grande astro. A confissão que vocês têm em mãos não é digna de confiança, nem de crédito" (leia texto).

Antes mesmo da terça-feira em que foi preso, por três policiais militares, na cidade gaúcha de Itaqui, fronteira entre Brasil e Argentina, Francisco já se transformara numa espécie de superstar do mal. Na semana passada, ele era assunto em todo o país. Preso, em apenas um dia deu três entrevistas coletivas. Na última, já no prédio do DHPP, em São Paulo, falou durante quase duas horas. Estava ladeado pelo vice-secretário de Segurança Pública do Estado e por dois advogados, que o fizeram assinar um papel em branco como procuração e logo depois se afastaram do caso. Jurou inocência, disse que não fugira tão logo o retrato falado do "maníaco do parque" começou a ser divulgado, mas que apenas fizera uma viagem para participar de um campeonato de patinação. Chegou a advertir sobre o perigo de todas as atenções se voltarem sobre ele. "É uma forma de deixar o verdadeiro psicopata à solta." Um encontro entre ele e os pais, Maria Helena e Nelson Pereira, foi transmitido ao vivo no programa Ratinho Livre e alcançou 38 pontos no Ibope. É mesmo possível que Francisco tenha gostado de seus dias de Xuxa do crime. Mas sua confissão paralela é rica em detalhes. E tem como moldura uma coleção de indícios contra seu autor.

"Ele era um cara comum,
educado, estudado, com papo
legal. Engana qualquer garota"
João Carlos Dornelles Villaverde,
o pescador que identificou Francisco
  Foto: Edison Vara

Na quinta-feira 6, Francisco foi indiciado pelo assassinato da balconista Selma Ferreira Queiroz, 18 anos. Tecnicamente, as provas contra ele não são das melhores. Isso porque o único elo capaz de associá-lo ao homicídio é a carteira de identidade da garota, encontrada no vaso sanitário da empresa onde ele morava. Como álibi contra essa evidência, Francisco alega que a casa era freqüentada por um sem-número de pessoas. A polícia tentou identificar o DNA do sêmen encontrado no corpo de Selma. Mas o azar, aliado a uma dose de incompetência, estragou a prova. O número de espermatozóides encontrados — 45 — já era pequeno para um exame conclusivo. Para piorar, os peritos ainda usaram a técnica errada na hora de tingir a amostra. A polícia alardeou o fato de que pretendia cotejar o formato das mordidas espalhadas pelo cadáver de Selma com a arcada dentária do principal acusado: Francisco. De novo, pode ser um furo n'água. Existem peritos dizendo que as mordidas foram dadas depois da morte de Selma, quando o fluxo sanguíneo já estava interrompido. Nessa situação, os tecidos são incapazes de reter o molde dos dentes do assassino. Os dois pontos que Francisco tem a seu favor são esses. Contra, há dezenas. Alguns dos mais importantes:

No dia 12 de julho, um domingo, os jornais publicam o primeiro retrato falado do maníaco que atacava no Parque do Estado, elaborado por policiais do 97º DP. No mesmo dia, a manicure Selma Rodrigues Goes, de 35 anos, afirma ter visto uma fumaça saindo de dentro da empresa J.R. Express, na Rua Alcântara Machado, 100-C, Brás. O morador do lugar: Francisco de Assis Pereira.

No dia seguinte, ao chegar a sua empresa, Jorge Alberto Sant'Ana, de 25 anos, estranhou a ausência do único funcionário que trabalhava e dormia na empresa. Ele tinha deixado um bilhete sobre a mesa, com um recorte do jornal em que havia o retrato falado. Lamentava ter de ir embora, pedia desculpas pela forma repentina da partida. "Infelizmente, tem de ser assim." Assinado: Francisco de Assis Pereira.

No mesmo dia, o empresário percebeu que havia algo de errado com o vaso sanitário da empresa. Tentou consertar duas vezes, mas não conseguiu. Na sexta-feira 24, quebra o encanamento para descobrir a causa do entupimento. Encontra um bolo de papéis queimados, misturado aos restos de um churrasco feito no final de semana anterior, no cano de saída da privada. Esse bolo é que entupira o esgoto. Entre as coisas que o empresário recolheu do cano estava a carteira de identidade de Selma Ferreira Queiroz, parcialmente queimada. Selma foi uma das mulheres cujo cadáver a polícia encontrou no Parque do Estado.

"Como pai, tenho uma
certeza muito grande de
que não vou encontrar
minha filha com vida"
Cláudio Fraenkel, pai
da estudante Isadora
Foto: Rogerio Assis/Folha Imagem  

Em 22 de julho, a estudante Sara Adriana Ferreira reconhece na polícia a voz do homem que, no dia 4 de julho, telefonou para sua casa, na cidade de Cotia, na Grande São Paulo, exigindo 1.000 reais pela libertação de sua irmã Selma. A identificação foi feita por meio de uma entrevista que o homem havia dado a uma rede de televisão em 1994 sobre um grupo de patinadores noturnos. A voz era de Francisco de Assis Pereira, segundo a irmã da vítima.

Alguns dias depois do desaparecimento da estudante Isadora Fraenkel, em 10 de fevereiro, dois cheques da garota, um de 200 reais e outro de 50, foram compensados na agência Cidade Jardim do Banco Itaú. O pai de Isadora, o físico Cláudio Fraenkel, procura a polícia com cópias dos cheques. O de 50 reais estava com a assinatura falsa. Durante as investigações, os policiais chegam ao suspeito de estelionato, que se apresenta como namorado de Isadora. Cláudio Fraenkel, numa nota oficial, negou que a filha estivesse namorando o rapaz e acusou-o de ser o principal envolvido no desaparecimento dela. Nome do implicado: Francisco de Assis Pereira.

Durante 23 dias em que esteve foragido, o suspeito de ser o "maníaco do parque" passou por várias cidades de três países. Chegou a Itaqui, no Rio Grande do Sul, cansado e faminto. Pediu abrigo a pescadores e disse se chamar "Pedro". Desconfiados, os pescadores João Carlos Dornelles Villaverde e Nilton Fogaça da Silva, o "Pitoco", resolveram checar os documentos do rapaz. Pedro, na verdade, era um nome falso. O nome verdadeiro: Francisco de Assis Pereira.

Cinco mulheres apresentaram-se à polícia identificando o homem que as havia violentado no Parque do Estado. Todas indicaram um rosto: o de Francisco de Assis Pereira.

No mesmo parque, foram encontrados oito cadáveres de mulheres assassinadas. Era o mesmo parque em que foi achado o cadáver de Selma. O indiciado pelo assassinato de Selma é Francisco de Assis Pereira.

Entre os moradores da vizinhança pobre do Parque do Estado, um deles tinha este nome: Francisco de Assis Pereira. Ao ser preso, ele negou conhecer o parque. Mas, segundo depoimentos de amigos dele à polícia, Francisco freqüentava o lugar.

Em 1995, uma moça de 19 anos prestou queixa na delegacia da cidade de São José do Rio Preto, no interior paulista, contra um homem que a agarrou numa avenida do bairro Cidade Nova e a forçou a entrar num prédio em construção. Ela conseguiu escapar. O homem foi detido por constrangimento ilegal, pagou 80 reais e foi solto por ser primário. O acusado: Francisco de Assis Pereira.

"Ele apertou meu pescoço.
Disse que era psicopata e já havia
enterrado muitas mulheres ali"
Sandra Aparecida de Oliveira,
19 anos, uma das mulheres
que dizem ter sido atacadas
no parque por Francisco
  Foto: Antonio Milena

Com tantos indícios contra, é estranho, mas Francisco é um boa-praça. Tem o rosto sardento como a mãe, Maria Helena, o que lhe dá um ar de garotão. Veste roupas joviais. Quando foi preso, estava com uma camisa colorida, de um time de hóquei. É o tipo que passa despercebido na rua ou no elevador, mas que, quando puxa assunto, atrai simpatias. É conversador, gosta de falar e responde atenciosamente às perguntas que lhe são feitas. Desde que sua vida começou a ser devassada, são comuns as descrições do Francisco gente fina. É o que dizem seus chefes, seus pais, algumas ex-namoradas. "O Francisco é bastante carinhoso e brincalhão. O único defeito é que o tempo livre dele é todo para os patins", diz a estudante Juliana Prado Fanasca, 16 anos, moradora de Guaraci, município a 522 quilômetros de São Paulo, onde vivem os pais de Francisco, e a ex-namorada dele. Juliana e Francisco ficaram juntos um mês. "Comigo ele era um cara superlegal", conta Ellen Renata Pereira, de 16 anos. Também vizinha dos pais de Francisco, Regiane Alves, 20 anos, conheceu o motoboy quando a família dele se mudou para a Rua Joaquim Rossini, no bairro Cohab 4. "A gente batia papo, jogava conversa fora." Segundo a garota, Francisco sempre pareceu ser uma pessoa normal, um cara legal. "Não acredito que ele possa ser o maníaco." Curiosamente, no entanto, ela diz que deixou de falar com o vizinho depois que uma amiga lhe contou que o motoboy teria tentado estuprar uma outra garota, em São José do Rio Preto. "Perguntei se ele tinha mesmo feito isso. Ele falou que não, mas não acreditei nele." Desde então (ela não tem certeza, mas acha que o episódio se passou em 1995), Regiane nunca mais conversou com Francisco.

Até mesmo a simpatia excessiva pode ser usada contra um assassino em série. Especialistas do mundo inteiro tentam entender os mecanismos de mentes psicopáticas. Obviamente, não há como dissecá-las. Na falta de um manual de instruções, estabeleceram-se alguns comportamentos que se repetem com uma regularidade impressionante. Mais ainda, que deixam os criminologistas em pânico: os assassinos em série aparentam ser os homens mais normais do mundo quando não estão tomados pela pulsão destruidora e sádica. Para começar, um grande número deles é de hiper-religiosos, o que lhes confere a aparência de virtuosos cidadãos.

Ao ser preso no Rio Grande do Sul, a polícia encontrou entre as coisas de Francisco dois papeizinhos com orações, uma para o Padre Cícero, outra para São Francisco. Achou ainda um santinho de São Judas Tadeu e um panfleto de uma igreja evangélica de Buenos Aires. A entrevista coletiva que ele concedeu logo ao chegar a São Paulo esteve repleta de visões de igrejas. Elas pontuaram toda a descrição do percurso que Francisco fez, entre as cidades de Alvear, na Argentina, e Itaqui, no Rio Grande do Sul. Francisco assistiu a uma missa em Itaqui, no domingo, apenas dois dias antes de ser preso. O pescador que denunciou a presença de Francisco na cidade, João Carlos Dornelles Villaverde, 40 anos, disse que, na volta da missa, Francisco contou-lhe que tinha ido à igreja rezar e pedir a Deus que o ajudasse. É um traço que vem de longe. Entre as lembranças da infância do pequeno "Tim" — o apelido familiar de Francisco —, sua mãe, Maria Helena, costuma evocar as vezes em que ele ia dormir com o terço nas mãos. "Ele sabia umas rezas que ninguém na família conhecia."

Um outro traço comum aos assassinos em série é o comportamento social aceitável e até admirável. Serial killers, como Jeffrey Dahmer e Marcelo de Andrade (leia texto), eram assim, acima de qualquer suspeita. De novo, o acusado de ser o "maníaco do parque" encaixa-se à perfeição nesse modelo. Além das namoradas com doces lembranças dele, Francisco era popular no Parque do Ibirapuera, onde costumava fazer malabarismos sobre patins ao menos uma vez por semana. Craque no esporte, ele pacientemente ensinava aos iniciantes como dar os primeiros passos sobre rodas. Quando ia visitar os pais, em Guaraci, as crianças costumavam cercá-lo na rua. Era querido e respeitado.

Há outros traços bastante comuns entre os assassinos em série. Um é a existência de traumas sexuais na infância. Francisco diz ter sofrido abusos de uma tia. Outro é a argúcia que manifestam para realizar os crimes. Eles têm de enganar e aperfeiçoam seus métodos vítima após vítima. Observam detalhes, corrigem o que está imperfeito. Situam-se entre dois limites: ou são mais inteligentes do que a média, e por isso capazes de planejar minuciosamente, ou são menos dotados intelectualmente, e matam como bestas-feras. Após duas horas de conversa com Francisco, a perita Jane Pacheco Belucci, 38 anos, da Polícia Civil de São Paulo, saiu convencida: "Ele é inteligentíssimo. Tem uma fala mansa que convence".

Convence. Uma de suas vítimas, M.C., de 18 anos, que reconheceu Francisco como o estuprador que a dominou no Parque do Estado depois de convidá-la a posar para fotos, disse na quinta-feira passada, diante de um batalhão de repórteres: "Ele sabe fazer ar de desamparado". Francisco estava com esse ar no primeiro encontro com os pais depois de sua prisão. Quando as luzes das câmeras de televisão se apagaram, logo em seguida à entrevista coletiva, chorou no ombro da mãe e do pai como uma criança. Com as mãos algemadas, passava os braços em torno do pescoço deles enquanto dizia que havia pensado muito na família nas últimas semanas. Maria Helena perguntou baixinho:

Meu filho, você fez essas coisas todas?

Francisco colocou a cabeça em seu ombro, chorando.

O desejo de aparecer

Maria Elisa: Escola
Base e Bar Bodega,
preferência por
causas antipáticas
Foto: Antonio Milena  

Aos 50 anos, a advogada Maria Elisa Munhol, três filhas — 30, 28 e 12 anos —, é uma especialista em causas antipáticas. Também é uma vencedora. Foi ela quem conseguiu provar a inocência de um dos acusados do crime do Bar Bodega, um pobre coitado que a polícia, depois de torturar, apresentou como culpado pela morte de um rapaz e uma moça, em São Paulo. Antes disso, foi Maria Elisa também que demonstrou ser infundada a acusação de abuso sexual de crianças que pesava sobre um casal envolvido no escândalo da Escola Base, de São Paulo. Esse caso se tornou emblemático. Porque destruiu a vida dos acusados, salvos por um triz de ser linchados, e mostrou os riscos de um jornalismo apoiado apenas em informações oficiais da polícia. Agora, de novo, Maria Elisa está envolvida em uma causa antipática, a defesa do motoboy suspeito de ser o "maníaco do Parque".

Veja O senhor Francisco de Assis Pereira admitiu ter matado nove mulheres, entre as quais a jovem Isadora Fraenkel. O que a senhora tem a dizer sobre isso?

Maria Elisa Munhol — É interessante que essa confissão entre aspas tenha sido obtida por vocês. Eu não sou psiquiatra, mas minha experiência indica que Francisco deve ter o que os especialistas chamam de "transtorno de personalidade". Não descarto a hipótese de ele ter feito essa confissão como forma de aparecer mais, de se tornar uma grande estrela, de virar um grande astro. Aliás, esse exibicionismo pôde ser facilmente verificado por ocasião da entrevista coletiva que Francisco deu em sua chegada a São Paulo. Ele falou sem parar e estava evidentemente muito à vontade nessa atuação. É claro que tem um enorme desejo de aparecer, de ser valorizado. Se esse tipo de "transtorno de personalidade" ficar comprovado, a confissão que vocês têm em mãos não é digna de confiança nem de crédito.

Veja A senhora está dizendo que Francisco, que admite as mortes, mente para aparecer. Por que não acreditar que ele esteja mentindo ao se dizer inocente?

Maria Elisa — Já sabemos aonde levam os pré-julgamentos que a imprensa tanto gosta de fazer. Veja o caso da Escola Base, ou do crime do Bar Bodega, ou do professor Leonardo de Castro, acusado de colocar a bomba no avião da TAM, ou do funcionário público Jorge Mirândola, acusado de enviar uma carta-bomba ao Itamaraty. Todos os acusados foram destruídos covardemente. Quando a verdade veio à tona, essas vidas já estavam no precipício.

Veja Mas e o reconhecimento das vítimas que sobreviveram ao maníaco? E a coincidência de a jovem Isadora desaparecer e Francisco logo em seguida estar usando cheques dela? Isso, mais a confissão, não faz sentido?

Maria Elisa — A confissão é chamada nos meios jurídicos de "prostituta das provas". É assim exatamente porque depende de subjetividades imensas. Por outro lado, os reconhecimentos que foram feitos até o momento só aconteceram por intermédio de fotografias ou imagens de televisão. O reconhecimento pessoal ainda não foi feito. E, mesmo esse, é sujeito a dúvidas grandes. O Francisco tem um tipo físico igual ao de milhões de brasileiros. E, atenção, não possui um detalhe que a polícia dizia ser fulcral ao reconhecimento: a falha na sobrancelha. Do que estamos falando, então? É preciso ter muita cautela, porque, se devemos respeito às vítimas e seus parentes, também o devemos à mãe do suspeito e ao próprio suspeito. Antes de apontarmos o dedo acusando alguém de uma prática, precisamos refletir em cima dos laudos periciais, dos pareceres técnicos. A inocência presumida é um princípio constitucional.

Veja A senhora acha que seu cliente é, então, apenas um mentiroso inocente?

Maria Elisa — Ontem, o Francisco prestou um depoimento de sete horas consecutivas, no qual admitiu que mantinha práticas sexuais não usuais. Eu não sou especialista nessa área, mas tenho claro que ele necessita de ajuda psiquiátrica. Daí a julgá-lo automaticamente culpado dos crimes de que o acusam vai uma distância longa. Se, lá na frente, ficar comprovada a responsabilidade dele por intermédio dos laudos e perícias, então teremos uma outra luta: aquela que visa garantir aos portadores de transtornos de personalidade o direito de ser tratados. Execrá-los, pura e simplesmente, é desumano.

Veja A senhora conversou com Francisco em várias oportunidades desde que ele foi preso. Repito a pergunta: ele é inocente?

Maria Elisa — Eu busco a justiça.


Elisângela, 21 anos:
passeio no shopping

Elisângela Francisco da Silva tinha 21 anos. Paranaense, filha de uma família pobre de Londrina, vivia em São Paulo, com a tia Solange Barbosa, desde 1996. Por causa das dificuldades financeiras, abandonou a escola na 7ª série. Às 6 horas da tarde de 9 de maio, ela foi deixada por uma amiga no Shopping Center Eldorado, na Zona Oeste de São Paulo. Nunca mais foi vista. Seu corpo foi encontrado em 28 de julho, no Parque do Estado. Ela estava nua. O corpo já decomposto exigiu um árduo trabalho de identificação. O reconhecimento só aconteceu três dias depois. "Eu tinha esperança de que não fosse ela", diz a tia. Era. Elisângela era conhecida pela timidez excessiva. Diante do olhar mais detido de um desconhecido, sempre abaixava o rosto. Pertencia à Igreja Batista, mas recentemente freqüentava a igreja Deus É Amor. "Aceitei Jesus", justificava. Em casa, ajudava nos cuidados com a pequena Letícia, de 3 anos, filha de uma de suas primas. Desde a morte de Elisângela, a menina, vira e mexe, pergunta pela moça. Ao passar pelo shopping, Letícia aponta e chora: "Lisângela ficou aqui! Lisângela ficou aqui!" No dia de seu desaparecimento, Elisângela saiu de casa dizendo que voltaria dali a duas horas.

Raquel Rodrigues, 23
anos: "É, eu não vou"

A grande ambição de Raquel Mota Rodrigues, de 23 anos, era ganhar dinheiro para ajudar a família, que vive em Gravataí, no Rio Grande do Sul. "Era uma moça muito ingênua", diz a prima Lígia Crescêncio, com quem Raquel morava desde o final de 1997. "Acreditava muito facilmente nas pessoas." Nos finais de semana, Raquel costumava freqüentar barzinhos com três amigas. Nunca chegou em casa depois da meia-noite. Por volta das 8 horas da noite de 9 de janeiro, ela saiu da loja de móveis onde trabalhava como vendedora, no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste da capital paulista. Ao desembarcar na Estação Jabaquara do metrô, já quase em casa, telefonou para a prima. Avisou que conhecera um rapaz e que aceitara posar de modelo para ele em Diadema, na Grande São Paulo. "Disse que era melhor ela não ir", lembra Lígia. Era muito arriscado sair com um desconhecido. "É, eu não vou", respondeu a garota. Raquel nunca mais apareceu. Seu corpo foi encontrado no matagal do Parque do Estado no dia 16 de janeiro. Poucos dias antes de morrer, Raquel estava extremamente feliz. Acabara de arrumar um novo emprego. Trabalharia numa loja de móveis maior, onde as comissões seriam mais polpudas.

Selma, 18 anos: sonho
de cursar a faculdade

Na quinta-feira passada, Selma Ferreira Queiroz completaria 18 anos. Moça simples, a mais nova de três irmãs, pretendia terminar os estudos (estava na 7ª série do 1º grau) e fazer faculdade de ciências contábeis ou computação. Os planos de Selma, contudo, foram interrompidos na tarde de 3 de julho. Entre sua casa, na cidade de Cotia, na Grande São Paulo, e o centro da capital paulista, onde trataria das formalidades referentes a sua demissão como balconista de uma rede de drogaria, ela desapareceu. Era uma sexta-feira. No dia seguinte, um homem telefonou para Sara, irmã de Selma. Informou que a moça havia sido seqüestrada. Pediu um resgate de 1.000 reais. Voltaria a ligar no final da tarde. Não ligou. Nesse mesmo dia, o corpo de Selma foi encontrado no Parque do Estado. Estava nua, com sinais de estupro e espancamento. Nos ombros, seios e interior das pernas, havia marcas de mordidas. No rosto, a feição da dor. Selma morreu estrangulada. O último sinal de vida da garota foi para o namorado. Às 3 da tarde de sexta, de um telefone público, ela avisou que não chegaria a tempo para assistir ao jogo do Brasil contra a Dinamarca com ele. Mas que estava a caminho de casa.

Patrícia, de 24 anos:
bijuterias na mata

Aos 24 anos, Patrícia Gonçalves Marinho nunca revelara à família o sonho de ser modelo. Adorava, no entanto, posar para fotografias ao lado de parentes e amigos. Vendedora, era uma moça alegre, comunicativa. Fazia amizade com muita facilidade, em grande parte porque tinha uma confiança ingênua nas boas intenções de todo mundo, mesmo desconhecidos. No dia 17 de abril, ela saiu da casa da avó Josefa, com quem morava. Desapareceu. Seu corpo só foi descoberto em 28 de julho. Estava jogado numa área erma do Parque do Estado. Devido ao avançado estado de putrefação, a identificação de Patrícia só foi possível porque ao lado do corpo foram encontradas roupas e bijuterias da moça. Foi estuprada. Morreu por estrangulamento. Patrícia foi enterrada no Cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, no último dia 5. Durante os serviços fúnebres, o clima entre parentes e amigos de Patrícia era de muita revolta. Alívio também — um dia antes, Francisco havia sido preso. "A simplicidade e ingenuidade de minha filha devem ter facilitado a abordagem do assassino", disse o pai da garota, o motorista particular João Severino Marinho.

Fotos: Álbum de Família


O reencontro
de Francisco
com os pais:
choro de criança
Foto: Alex Ribeiro/Folha Imagem  

Em seu diário, Francisco escreve sobre conquistas amorosas, romances impossíveis e momentos de muita agressividade. Tudo se mistura em frases repletas de erros de ortografia: "Princeza encantadora que me faz sonhar. de pensar nela me dá vontade de chorar de gritar de alegria ti amo muito". Em 6 de abril de 1996, na casa dos pais em Guaraci, interior de São Paulo, ele escreveu: "Quando lembro daqueles momentos fico completamente excitado, malvado, carente, as coisas se englobam de uma só vez (...) Janete Nogueira Lemos pra achar alguém como você não sera fácil mas estou procurando uma criança de 12 ou 13 anos para que eu possa dominala como dominei você".


O terror das mortes em série

Chico Picadinho,
São Paulo, 1966 e
1976: duas
esquartejadas

Charles Manson, Estados Unidos, 1969: sete mortos, entre eles a atriz Sharon Tate

Henry Lee Lucas, Estados Unidos, de 1976 a 1983: 140 cadáveres

Fortunato Botton
Neto, São Paulo, de
1987 a 1989:
treze homossexuais

Jeffrey Dahmer, EUA, 1991: matou dezessete rapazes e comeu seus órgãos

Marcelo de Andrade,
Rio de Janeiro, 1991:
estupro e degola de
catorze crianças

Frederick West, Inglaterra, de 1969 a 1994: doze mulheres e meninas

Marc Dutroux, Bélgica, de 1989 a 1996: violentou seis crianças e matou quatro

Fotos: Marisa Ochiyama/Oscar Cabral/Carlos Namba

Com reportagem de Laura Capriglione, Cristine
Prestes, de Porto Alegre, Angélica Santa Cruz,
Samarone Lima e Glenda Mezarobba




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