Estados Unidos

Monica abre o jogo

Pivô do escândalo conta na Justiça que
fez sexo com Clinton na Casa Branca

Será que Bill Clinton consegue escapar dessa? Calada durante sete meses, enquanto os Estados Unidos e o mundo discutiam os detalhes mais íntimos do caso que tudo indica ter tido com o presidente americano, Monica Lewinsky finalmente abriu o bico. O que a ex-estagiária da Casa Branca disse em seis horas e meia de depoimento, na quinta-feira passada, teoricamente permanece em segredo de Justiça. O que já transpirou não difere muito do que os indícios todos apontavam até então. Sim, ela e o presidente tiveram "mais de uma dúzia" de encontros sexuais durante um ano e meio. Sim, os tais encontros costumavam acontecer no estúdio de Clinton, um aposento pequeno e discreto, bem ao lado do Salão Oval, o reverenciado gabinete que simboliza o poder dos presidentes americanos. E sim, eles conversaram a respeito de subterfúgios para esconder o caso. Mas não, Clinton nunca lhe pediu diretamente que ela prestasse falso testemunho sobre o romance — como Monica efetivamente fez, antes de chegar ao acordo com o promotor especial Kenneth Starr que lhe garante imunidade para se desdizer sem ser processada.

A situação de Clinton é tão ruim que, para os muito otimistas, algo de bom saiu do depoimento de Monica ao juizado de instrução encarregado de decidir se há fundamentos suficientes para um processo contra o presidente dos Estados Unidos. O crime mais grave do qual ele pode ser acusado, hipoteticamente passível de impeachment, é o de obstruir a ação da Justiça, ou seja, tentar atrapalhar ou impedir qualquer tipo de procedimento do Poder Judiciário. Isso, Monica diz que ele não fez. A má notícia é que a palavra dela não basta. Antes de chegar ao acordo de imunidade com a ex-estagiária, o obsessivo promotor Starr arrebanhou indícios perigosíssimos para Clinton — isso sem contar o famoso vestido azul-marinho, que já foi examinado pelo FBI e está sendo submetido a uma contraprova para indicar se tem embaraçosos resquícios de uma ejaculação presidencial. Entre as peças de artilharia apontadas contra Clinton figuram as suas manobras para impedir que Monica entregasse à Justiça os modestos presentinhos recebidos do amante (ela os confiou à secretária de confiança dele) e o belo emprego arranjado pelo amigo do presidente, Vernon Jordan, para a insignificante estagiária.

Provar a intenção concreta de obstruir a Justiça, no entanto, não é fácil. Starr deve convencer os 23 cidadãos convocados para o juizado de instrução de que Clinton tinha um objetivo maligno. Como o caso envolve situações nas quais qualquer pessoa normal mentiria, isso é complicado. "Se ele disse: 'A Hillary vai me matar se descobrir, prometa que se for perguntada você não dirá nada', a situação é uma", exemplificou Robert Luskin, advogado de Washington que representa um juiz acusado do mesmo crime. "Se a conversa aconteceu num contexto em que a pessoa sabia que a outra seria testemunha num procedimento judicial, a coisa muda de figura."

Na corda bamba — Os advogados de Clinton certamente estão trabalhando em tempo integral. Até para contestar a acusação menos grave, de falso testemunho sobre o caso com Monica, está difícil. O que podem fazer? Alegar, como supostamente o presidente ensaiou fazer, que sexo oral, a esfera em que parece ter se confinado o relacionamento do presidente com a morena californiana, não configura relação sexual? A reação da opinião pública, até agora favorável a Clinton, poderia ser de fúria. Tentar provar que Monica é uma mitômana, que ficou obcecada pelo presidente e inventou um romance nunca acontecido? Nesse caso, o vestido azul-marinho (da Gap) pode bombardear a argumentação. Tocar a fita gravada pela ex-amiga dela, Linda Tripp, na qual Monica diz: "Eu menti durante a minha vida toda"? Só a loucura desatinada explicaria um novo depoimento falso da ex-estagiária (mentir ao juizado de instrução daria cadeia).

Falar a verdade, como Monica disse ter feito agora, é tudo que partidários e adversários de Clinton pedem a ele. O empresário circense P.T. Barnum costumava dizer que "nasce um otário a cada minuto nos Estados Unidos", mas mesmo com tanta fartura está ficando cada vez mais difícil encontrar alguém que acredite que o presidente e Monica eram apenas bons amigos. A maioria da população e até da oposição republicana no Congresso não considera, no entanto, que a provável mentira dele tenha importância suficiente para justificar um processo de impeachment. Mesmo para um sujeito tinhoso como Clinton, com sua notável capacidade de comunicação, seria muito desagradável enfrentar a nação (para não mencionar Hillary) e admitir: "Errei, sim, me perdoem".

Adicionalmente, o presidente parece ter um prazer perverso em andar na corda bamba o tempo todo, em arriscar mais um pouco, mais e sempre mais (a seu favor jogam os fados, desta vez sob a forma dos dois atentados contra as embaixadas americanas na África, que tiraram Monica temporariamente das manchetes e indicaram como a vida cada vez mais imita Hollywood). O presidente também tem a seu favor os números. A imagem pública de Clinton se assemelha hoje a um monstro de duas cabeças. Enquanto 70% da população aprova sua administração, associada a uma época de prosperidade e otimismo, 56% não simpatiza com o presidente nem confia nele como pessoa. Eis uma característica marcante da era Clinton: o divórcio entre a competência profissional e a credibilidade das instituições. Cria do marketing político, o presidente prefere ver apenas o índice positivo e jogar com a inapetência dos políticos para um processo de impeachment. O problema é que, se Starr encaminhar o pedido ao Congresso, a comissão encarregada não tem escolha senão abrir um inquérito.

Teatro do absurdo — "Clinton é um homem inteligente e sabe que, se ele não disser a verdade ao juizado de instrução, o resto de seu mandato estará bloqueado pelas discussões em torno do impeachment", advertiu na semana passada George Stephanopoulos, ex-integrante da equipe do presidente e seu amigo de longa data. O republicano Orrin Hatch, presidente da Comissão de Justiça do Senado, pela qual deverá passar qualquer pedido de afastamento do presidente, reforçou a mensagem. Se Clinton "realmente abrir seu coração ao público americano", o processo de impeachment ficará muito remoto.

Enquanto o presidente resiste ao coro do "conta, conta", Starr continua alimentando o espetáculo mais comentado desde o lançamento de Titanic. Imagens de Clinton e Monica são desencavadas de arquivos, jornais e televisões disputam detalhes picantes, vestidos com rastros comprometedores desfilam nas manchetes, as piadas (todas impublicáveis) proliferam. O clima é, cada vez mais, de teatro do absurdo. Um processo de impeachment desencadeado por suspeitas de que o presidente manteve um caso extraconjugal consentido com uma mulher adulta beira o ridículo, mesmo para os mais ferrenhos adversários de Clinton. O quadro pode mudar, porém, se Starr conseguir vincular as dúbias atitudes do presidente em relação a assuntos de foro íntimo com a postura diante das suspeitas de corrupção, como o escândalo Whitewater, um emaranhado de falcatruas imobiliárias que deu início a toda essa confusão. A questão é saber se o promotor (ele próprio agora sob investigação, por passar informações sigilosas à imprensa, em novo desdobramento kafkiano do caso) terá capacidade de extrair desse cipoal alguma relação lógica. E até quando a opinião pública continuará a ver isso tudo apenas como espetáculo.

O cerco ao presidente

O depoimento de Monica Lewinsky é o lance mais recente e espetacular da investigação que mantém acuado o presidente dos Estados Unidos. Desde janeiro, quando o assunto surgiu, a pergunta geral é se foram amantes. Do ponto de vista legal, contudo, o que está em questão é se Clinton mentiu em juízo sobre o relacionamento e se aconselhou Monica a fazer o mesmo. Entenda como se chegou a isso:

Declaração assinada

Numa declaração assinada, entregue em 7 de janeiro, Monica Lewinsky afirma não ter mantido relações impróprias com Clinton. O documento foi entregue aos advogados de Paula Jones, que processava o presidente por assédio sexual. O processo foi arquivado em abril.

As fitas grampeadas

No dia 12 de janeiro, Linda Tripp entrega ao promotor Kenneth Starr gravações de conversas com sua amiga Monica Lewinsky. Nelas Monica fala extensamente sobre um caso amoroso com Clinton e de sua preocupação em esconder isso da Justiça.

A palavra do presidente

No dia 17 de janeiro, em depoimento no caso Paula Jones, Bill Clinton afirma, sob juramento, não ter feito sexo com Monica. Quatro dias mais tarde, vem a público que Starr está investigando o presidente por dois possíveis crimes: falso testemunho e obstrução da Justiça, por supostamente induzir Monica a mentir em juízo.

As vitórias do promotor

Em 17 de julho, pela primeira vez na História, um presidente dos Estados Unidos recebe intimação para depor num caso criminal. Onze dias mais tarde, Starr e Monica chegam a um acordo: em troca de não ser processada, compromete-se a contar toda a verdade na Justiça. Também entrega provas do relacionamento com Clinton, entre elas o vestido que teria uma mancha de esperma do presidente.


A patricinha de Beverly Hills

Monica, com o
visual renovado e
o antigo: fascínio por
homens famosos

Do ponto de vista visual, o escândalo fez bem a Monica Lewinsky. Ela cortou o cabelão antiquado e tirou a franja, o que destacou as sobrancelhas de Elizabeth Taylor (depiladas por uma das melhores especialistas de Los Angeles, a terra das estrelas). Também melhorou o guarda-roupa, que passou a ser composto de tailleurs bem cortados, destinados a disfarçar os quilos a mais tão obsessivamente anotados pelos americanos (a preconceituosa pergunta subjacente é: como o presidente foi se envolver com essa gordinha?). O visual sofisticado, explorado nas fotos que Monica fez para a revista Vanity Fair, mascara ainda mais o fato de que a mulher no epicentro do turbilhão que ameaça engolir a carreira política de Bill Clinton tem apenas 25 anos — estava com 21 quando começou o alegado caso com o presidente. Que mulher é essa? Nos últimos sete meses, o promotor Kenneth Starr e os arapongas do FBI vasculharam a vida de Monica atrás de pecados do passado. Revistaram seu apartamento, mexeram nas roupas íntimas atrás do famoso vestido manchado de sêmen e até trouxeram para interrogatório uma amiga de infância que mora no Japão. A imprensa americana fez outro tanto, entrevistando cada vizinho, professor ou conhecido. O resultado é decepcionante para quem esperava uma alma de femme fatale, protótipo da sereia sedutora que arrasta os homens para a destruição desde o início dos tempos.

Ao contrário, o retrato que se esboça é da pobre menina rica, insegura, coração carente de afeto e cabecinha vazia, fascinada por homens em posição de poder e disposta a usar a arma mais óbvia — o sexo — para conquistar um lugar entre eles. Filha de médico, dono de clínicas de tratamento de câncer, Monica foi criada em Beverly Hills, o bairro dos ricaços de Los Angeles. No passado recente, seria chamada de "princesa judia" — meninas ricas, mimadas e cobertas de privilégios. Como a expressão é politicamente incorreta nos Estados Unidos, poderia ser substituída por "patricinha de Beverly Hills" (o original título brasileiro do filme com Alicia Silverstone). Com a mãe, Marcia Lewis, socialite deslumbrada e plastificada, Monica compartilhava confidências e a atração por homens famosos. Marcia só conseguiu insinuar um romance inexistente com o tenor Plácido Domingo. Monica capturou em seu radar o presidente dos Estados Unidos. Não quis explorar o caso, como tantas outras, mas falou demais com as amigas. Que patricinha resistiria a isso?




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