Carta ao Leitor
A "tropa de choque" hoje é outra
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Militares cercam o Congresso, em 1968
Os escândalos atuais
e seus encobrimentos podem fazer o que nem mesmo a ditadura conseguiu -
matar a ideia do Parlamento como o berço das leis e a casa do povo |
O país assiste, estupefato e impotente, a mais um espetáculo
vexaminoso que se desenrola em Brasília. Para garantir-se na presidência
do Senado, José Sarney, afogando-se em revelações de nepotismo
e corrupção, recorreu à "tropa de choque" -
um lumpesinato parlamentar de biografia encardida, sem nada a perder e que usa
como armas da chantagem à intimidação física. A
tropa de choque que tenta blindar Sarney é capitaneada por Renan Calheiros,
derrubado da mesma cadeira em 2007, depois que vieram à tona a pensão
da filha paga por um lobista e outros ilícitos bem mais constrangedores.
Seu lugar-tenente é Fernando Collor de Mello, um ex-presidente da República
cuja folha corrida dispensa apresentações. Ao alistar gente dessa
espécie para formar sua linha de ataque, Sarney aceitou pagar o preço
que esses serviços de proteção cobram. No campo simbólico,
enterra sua longa carreira política igualando-se em estatura a Collor
e Renan. Na prática, condenou-se a presidir um Senado em que a política,
como se viu na quinta-feira passada, se tornou apenas a extensão de uma
guerra por outros meios. Aos brasileiros, o decano senador, ex-presidente da
República e ex-governador dá o direito de perguntar, afinal que
recompensa preciosa é essa a justificar tão alto custo da operação
de defesa?
Um dos aspectos mais tristes desses episódios degradantes,
que se sucedem em frequência muito acima do tolerável, é
que eles minam a confiança dos cidadãos na democracia e em suas
instituições. Nesse sentido, os escândalos e seus encobrimentos
em Brasília podem fazer o que nem mesmo a ditadura militar conseguiu
ao fechar o Congresso em 1968 e 1977: matar a ideia do Parlamento como o berço
das leis, a casa do povo e o pavor dos tiranos. Abomináveis de qualquer
ângulo que se olhe, os regimes autoritários cedo ou tarde causam
na sociedade uma reação que se manifesta por meio do fortalecimento
do sentimento democrático. Foi isso que enterrou a ditadura militar em
1985. É esse sentimento que os senhores símbolos da falência
do atual modo de vida parlamentar arriscam matar. |