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Home  »  Revistas  »  Edição 2125 / 12 de agosto de 2009


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Livros

Escrito com a tesoura

A reedição dos contos originais do americano Raymond Carver
mostra que seu propalado "minimalismo" foi criação de seu editor


Cristovão Tezza

Bob Adelman/Corbis/Latinstock
HUMANIDADE APAGADA
Raymond Carver: a edição radical de seus contos eliminou sua dimensão afetiva


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Publicada em 1981, Do que Estamos Falando Quando Falamos de Amor, coletânea de dezessete contos do americano Raymond Carver (1938-1988), transformou-o em mestre do minimalismo – a corrente literária que, levando às últimas consequências o caminho aberto por Ernest Hemingway com a técnica enxuta de mais sugerir do que dizer, viria a ter uma legião de admiradores e imitadores. No ideário minimalista, são as lacunas do texto que produzem sentido. O que ninguém sabia é que a obra original de Carver havia sido brutalmente modificada pelo editor Gordon Lish, da prestigiosa editora Knopf, de Nova York. Com um contrato de plenos poderes assinado pelo autor numa mão e uma tesoura na outra, Lish reduziu o livro à metade, modificou finais, substituiu páginas inteiras, trocou nomes de personagens e títulos de contos. É uma tradição editorial que bons editores conversem com o autor sobre a obra a ser publicada, e há inúmeros exemplos de intervenções que melhoraram o livro. Lish, porém, transformou Raymond Carver num outro escritor. O verdadeiro Carver está restaurado na edição integral de seus contos originais, sob o título Iniciantes (tradução de Rubens Figueiredo; Companhia das Letras; 304 páginas; 49 reais).

Publicada nos Estados Unidos em 2008, depois de um minucioso trabalho de restauração dos textos, a edição foi uma iniciativa da poeta Tess Gallagher, última mulher de Carver. Iniciantes revela um escritor bastante diferente. Embora tenha sua dívida com Hemingway, Carver trabalha com outra substância literária. Tecnicamente, é um "criador de atmosferas", não um minimalista. E a sua visão de mundo tem uma sutil dimensão afetiva, um toque de tolerância pela condição humana que a versão decepada de sua obra apaga quase completamente. O melhor exemplo dessa mudança radical é o conto Uma Coisinha Boa, que havia sido reduzido a 20% de seu tamanho original. Na história, uma mulher encomenda um bolo de aniversário para seu filho único, Scotty, que é atropelado e, no dia da festa, está em coma. A mulher e o marido são atormentados por telefonemas do padeiro, cobrando o pagamento do bolo. Na versão do editor, o conto termina de súbito em meio a um dos telefonemas; no texto original, o casal reencontra o padeiro, que, soterrado pela culpa, lhes serve pãezinhos, em uma cena que se transforma numa discreta epifania, distante tanto do sentimentalismo quanto do truque maneirista inventado pelo editor.

Os contos de Iniciantes versam sobre casais infelizes. Carver escrevia basicamente sobre si mesmo. Casou-se aos 19 anos com a namorada, grávida, de 16, com quem teve dois filhos e viveu durante 25 anos um casamento turbulento. Alcoólatra, agredia a mulher com frequência, e teve numerosos casos. Casou-se com Tess Gallagher pouco antes de morrer, vítima de câncer. A crítica vem discutindo muito sobre qual a melhor versão de seus contos (e quase nada sobre a grave violação ética envolvida nessa transformação). O Carver minimalista é um autor datado, que se fez moda pós-moderna. O escritor verdadeiro está nos textos originais.

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