Roberto Pompeu de Toledo
Elle, o de sempre
"Quando Collor se cansou de Simon e de Sarney, sobrou
para quem? O colunista
que vos fala. O que disse é mentira.
Mais uma vez: MENTIRA. E uma terceira:
MEN-TI-RA"
Pode sentir-se defendido quem tem em sua defesa a dupla formada
pelos senadores Renan Calheiros e Fernando Collor de Mello? Há defesas
que ferem como ataque. Num primeiro momento funcionam, como funcionou a furibunda
blitz desfechada pela dupla contra o senador Pedro Simon, na memorável
sessão do Senado da última segunda-feira. A torrente de insultos,
insinuações e, da parte de Collor, assustadoras caretas lançadas
contra Simon intimidou o senador gaúcho a ponto de, como ele afirmaria
mais tarde, ter sentido medo físico. Mas o ônus de carregar pela
vida afora, e biografia adentro, o fato de ter contado com tais defensores supera
o alívio momentâneo. Os senadores do PT sabem disso e conspicuamente
procuram se dissociar dos referidos senhores. Já o presidente do Senado,
José Sarney, não bastassem os próprios problemas, é
refém de um duo cujo abraço aperta, aprisiona e sufoca como tenaz.
O senador Collor superou-se, naquele dia, na utilização
dos velhos recursos em favor do novo papel de injustiçado e sofredor.
Buscando inspiração no aparelho digestivo, ordenou a Simon que
"engolisse" as próprias palavras e "as digerisse como
julgasse conveniente". Chamou o honrado senador de "parlapatão".
E enquanto isso armava seu impressionante repertório de expressões
fisionômicas e exalações corporais, um conjunto que, querendo
sublinhar indignação, acaba por revelar um perturbador descontrole.
A respiração era pesada como a do touro ao investir contra o pano
vermelho. Repetiam-se os estranhos olhos fixos de outras ocasiões. E
a alturas tantas, quando se cansou de Simon e de Sarney, sobrou para quem? Quem?
Quem? O colunista que vos fala. Disse ele que "o jornalista chamado Roberto
Pompeu de Toledo, que costuma sujar a última página de uma revista
local, se não me engano a VEJA", procurou o ministro Ilmar Galvão,
encarregado, no Supremo Tribunal Federal, de relatar o processo contra ele,
Collor, à época do impeachment, e lhe propôs: "Ministro,
declare a culpa do Fernando Collor que nós daremos ao senhor a capa e
as entrevistas de páginas amarelas da revista". O ministro, indignado,
teria expulsado o interlocutor de seu gabinete.
Deus do céu, quanta pretensão, num pobre jornalista,
achar que a efêmera glória do bom tratamento num órgão
de imprensa pudesse influenciar o julgamento de um ministro do Supremo! Collor
acrescentou que Roberto Pompeu de Toledo não poderia desmentir tal episódio.
Pode sim. É mentira. Mais uma vez: MENTIRA. E uma terceira: MEN-TI-RA.
A conversa que na época o colunista teve com Ilmar Galvão não
teve nunca, jamais e em tempo algum o caráter de (ingênua) negociação
do julgamento do ministro contra possível tratamento privilegiado em
VEJA. Mesmo se, enlouquecido, o jornalista quisesse fazê-lo, não
teria poderes, como não tem agora, nem nunca teve, de dispor da capa
ou das páginas amarelas da revista. Seu único e singelo objetivo
era informar-se. Claro está que se não houve o principal
uma tentativa de negociação também não houve
o secundário a expulsão do gabinete. Em todo caso, registre-se
que o cinematográfico desfecho pretendido pelo senador é outra
mentira, MENTIRA, MEN-TI-RA. A entrevista transcorreu em clima de cordialidade.
Como encerrar este artigo? Primeira hipótese: dizer
que sujar páginas por sujar páginas, perito mesmo na especialidade
é o ex-presidente no caso, sujar as páginas da história
do Brasil. Sentencioso demais. Se os leitores permitem a falta de modéstia,
o colunista gostaria na verdade é de congratular-se consigo mesmo. Ao
contrário de Sarney, ele não tem Collor como defensor. Tem como
acusador. É uma honra.
Por falar em fisionomia, e para arejar o ambiente com caso
oposto ao da carranca oferecida por Collor a Simon, a fisionomia do momento,
no Brasil, é a do vice-presidente José Alencar. O fato de ele
estar impelido a correr de internação em internação,
e de operação em operação, dentro daquilo que se
convencionou chamar de "luta" contra o câncer, é o de
menos. Como ele próprio alega, não dispõe de alternativa.
Muitos também o fariam e fazem , especialmente quando têm
recursos para pagar o tratamento. O que impressiona é a serenidade com
que enfrenta o infortúnio, manifestada no sorriso e no jeito bonachão
que estampa nas entradas e saídas do hospital. Seu comportamento, na
mais decisiva das horas que espera um mortal, cativou o país. A ele seria
dedicada a coluna desta semana, se o homem das Alagoas não se interpusesse
no caminho. Fica o registro.
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