|
|
Ensaio: Roberto
Pompeu de Toledo
Recomendações
para a Copa de 2010
Uma contribuição
para que os erros na
Alemanha não se repitam
na África do Sul
1. A maioria dos jogadores
deve ser recrutada entre os que jogam no Brasil. É imperativo
que tenham bem frescas na memória coisas como mensalão,
estradas esburacadas, favelas, poluição visual, bala
perdida, deputados sanguessugas, nepotismo, trambique, propina,
ultrapassagem pela direita, trafegar no acostamento, cadeias superlotadas,
rebeliões em cadeias, dar um jeito, jogar lixo nas ruas,
atirar pneus velhos nos rios, guerra de quadrilhas, salário
mínimo, menos que salário mínimo e caixa dois.
A ausência do convívio cotidiano com tais categorias
pode levar à sensação de que se é alemão,
suíço ou holandês.
2. Não devem ser
convocados, especialmente, jogadores do Real Madrid. Trata-se de
um time perdedor. É bom jogar no Madrid para ser capa de
revista, vender camisetas com seu nome e namorar modelos, não
para ganhar campeonatos. Todos os jogadores desse time fracassaram
na Copa da Alemanha: os da seleção da Espanha, os
da seleção do Brasil e David Beckham. Luis Figo e
Zinedine Zidane tiveram boas atuações porque deixaram
a tempo o Real Madrid e a maldição que o acompanha.
De Robinho não se pode dizer que fracassou porque quase não
jogou, mas é pena que integre um elenco de contumazes perdedores.
Estão criadas as condições para ser estragado.
3. Devem ser convocados
jogadores mais afeitos a comemorar vitórias do que derrotas.
Ronaldinho Gaúcho, um dia depois da eliminação
do Brasil, deu uma festa em sua casa de Barcelona. Os presentes,
entre os quais Adriano, ainda esticaram numa boate, até altas
horas. O mesmo Adriano tinha acabado de comprar um Porsche de 500
000 reais para se homenagear pela performance nos campos da Alemanha.
4. O técnico deve
ter real disposição para formar equipes vencedoras.
Formando Equipes Vencedoras é o título do livro
que, assinado por Carlos Alberto Parreira, ocupou os melhores espaços
nas livrarias nas semanas anteriores à Copa. Na Alemanha,
no entanto, ele abriu uma exceção e formou uma equipe
perdedora. Nesse novo desiderato, foi impecável: teve medo
de desagradar aos mais famosos, treinou o time pouco e mal e achou
normal que os jogadores gastassem as folgas em baladas até
as 5 da manhã.
5. O técnico deve
ter cabeça menos colonizada. Parreira disse o tempo todo
que preferia os jogadores que jogam na Europa. Apoiou com entusiasmo
a transferência de Robinho para o Real Madrid. Acha que os
jogadores "amadurecem" na Europa. É curioso. Se o Brasil
se considera e é considerado possuidor do melhor
futebol do mundo, por que seus jogadores amadureceriam melhor em
outro lugar? Questões de mercado à parte, mais certo
seria dizer que Figo ou Zidane amadureceriam disputando um campeonato
brasileiro. Nem Pelé nem Garrincha jogaram em times europeus.
Dispensaram esse amadurecimento.
6. Anúncios com
jogadores ou com o técnico da seleção só
devem ser permitidos terminada a Copa, como prêmio aos vencedores,
não antes. Parreira estava tranqüilo porque tinha a
Golden Cross a seu lado. Tão tranqüilo que dormia no
banco durante os jogos. "Hã? Só faltam quinze minutos?",
perguntou, ao despertar, no segundo tempo do jogo contra a França.
Pôs então Cicinho e Robinho em campo. Era tarde. Dizia-se
que Vicente Feola, o técnico vencedor de 1958, dormia durante
os jogos. Era mentira. Parreira, graças à Golden Cross,
é o verdadeiro Vicente Feola. Já Ronaldinho Gaúcho
ficou tão desesperado para recuperar seu desodorante Rexona,
ao se descobrir misteriosamente desprovido dele, que gastou ali
toda a sua energia. Há uma relação direta entre
os anúncios e o fracasso do Brasil na Copa da Alemanha.
7. Devem ser cortados
do elenco jogadores que digam se sentir "motivados" para a Copa.
Se precisam dizer isso, é porque não estão.
8. Terão preferência,
ao contrário do que ocorre entre os executivos das empresas,
jogadores que não dominem línguas estrangeiras. Roberto
Carlos foi flagrado dando ordens em espanhol à defesa. Não
causaria espanto se viesse a público que Lúcio e Juan
se comunicavam em alemão, sem que Dida os compreendesse.
Ou que Kaká pedia a bola em italiano e Juninho Pernambucano,
interpretando-o mal, respondia com palavrões em francês.
Houve uma zaga da seleção, formada por Aldair e Antônio
Carlos, que dialogava em italiano. "Confundamos a sua linguagem
para que não mais se entendam uns aos outros" (Gênesis,
11, 7). O pessoal de Babel, quando muito, chega às quartas-de-final.
9. Serão suspensos
de suas funções os locutores que falarem em "atitude"
sem especificar a que atitude se referem. "Faltou atitude!", disseram
vários deles depois do jogo contra a França. Qual
atitude? Atitude derrotista? Atitude conformada? Atitude de apatia?
Atitude passiva? Estas, ao que consta, sobraram. Atitude arrogante?
Atitude de valentia? Atitude de vencedor? Virou moda recorrer à
palavra "atitude" como se, em si mesma, significasse algo. Desacompanhada,
não quer dizer nada.
10. Devem ser convocados
jogadores um pouco mais pobres do que os da safra 2006.
|